Entrevista: Aloizio Mercadante

Um fantasma ronda a cabeça de Aloizio Mercadante. O fantasma da calvície. Em ritmo acelerado, o deputado federal petista caminha para ser uma das cabeças mais brilhantes do Congresso Nacional. O senador Esperidião Amin (PPR-SC), proprietário de lustroso cocuruto, deve se cuidar. Mercadante avança onde ele estacionou. Vem perdendo cabelos na mesma velocidade em que alguns de seus colegas vêm perdendo o decoro. O ex-professor de economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, que tinha um bigode e uma basta cabeleira negra e desgrenhada, aquele mesmo que infernizava os conservadores em debates de televisão e confiscava corações femininos em diálogos menos públicos, ainda conserva o mesmo bigode, mas está ficando mesmo careca. Aos 39 anos, convive bem com esse fantasma: “E genético, não tem jeito.” Não apenas genético, acrescente-se. Os negócios escusos encontrados no Poder Legislativo, se tingiram de preto o penteado à la Cinema Novo do deputado baiano João Alves, são capazes, como a genética, de dizimar a franja de gente mais decente.
Por causa desses negócios escusos, Mercadante, membro da CPI do Orçamento, anda em ritmo acelerado. Seu gabinete, no 8º andar do Anexo IV do Congresso, bem ao lado do gabinete do deputado Roberto Cardoso Alves (PTB-SP), dá a impressão de abrir o expediente junto com as padarias e de fechar a porta no horário em que os jornais diários apagam as luzes. Desde que o economista e ex-assessor do Senado José Carlos Alves dos Santos contou para a revista VEJA, em outubro, que havia um superesquema roubando milhões de dólares do Orçamento da União, os assessores do deputado petista começaram a fazer plantão madrugada adentro. Como as farmácias. Andam com olhos de quem não dormiu ontem.
Olhos de susto. Imerso na subcomissão de bancos — um complexo com cinquenta microcomputadores, além de máquinas de grande porte do Serviço de Processamento de Dados do Senado Federal, movido por assessores do Senado e técnicos do Tribunal de Contas da União —, Mercadante viu surgirem das sombras cheques assustadores. São os cheques mais cabeludos da História do Brasil desde que o empresário Paulo César Farias e seus fantasmas correntistas assombraram a nação. Alguns bateram até mesmo na conta e na reputação de Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), o empertigado presidente da Câmara dos Deputados durante o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. De noite e de dia, Mercadante procura provas (e as encontra) enquanto passa a mão pelo topete (e o desencontra). Com sua obstinação, que para alguns tem um toque de arrogância, transformou-se no mais bem informado membro da CPI. Um misto de repórter, investigador policial, juiz inquiridor e parlamentar. Uma espécie de mestre-de-cerimônias do purgatório a que foram submetidos os implicados.
Sim, Aloizio Mercadante é o fantasma que ronda os extratos bancários dos corruptos. Que reagiram. Ameaçados de morte, o deputado e sua família — a mulher, a professora Maria Regina de Barros, e os dois filhos, Mariana, de 9 anos, e Pedro, de 8, que vivem em São Paulo — passaram a desfrutar da companhia diária de agentes da Polícia Federal.
Filho de militar que apoiou o golpe de 1964 e a ditadura — o general Oswaldo Muniz Oliva, ex-comandante da Escola Superior de Guerra —, sobrinho de reitor — Waldir Muniz Oliva, reitor da Universidade de São Paulo (USP) entre 1978 e 1982 —, Mercadante logo virou o que a ditadura chamava de subversivo. Por precaução, baniu de sua assinatura o sobrenome paterno. Por vocação, só andava com companheiros que sabiam de cor as primeiras palavras do Manifesto Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels em 1848: “Um fantasma ronda a Europa. O fantasma do comunismo.” Ele entrou na Faculdade de Economia da USP em 1973 e, quando terminou o curso, quatro anos depois, tinha sido presidente da Atlética e do Centro Acadêmico. Fora isso, liderou a reconstrução do Diretório Central dos Estudantes da universidade. A tendência estudantil que ele ajudou a fundar e dirigir, a Refazendo, era uma das principais se não a principal força política da USP em 1976.
Em seguida, Mercadante foi fazer pós- graduação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Lá estavam a Maria Conceição Tavares, o Luís Gonzaga Belluzzo, o João Manoel Cardoso de Mello, nomes progressistas da esquerda com quem eu me identificava”, relembra. A sua tese de mestrado, de 700 páginas, Estado Autoritário e Desobediência Operária, orientada por João Manoel e só defendida em 1989, foi aprovada “com distinção e louvor”. Durante o mestrado, deu aula na PUC de São Paulo, onde chefiou o Departamento de Economia. Foi presidente da associação dos professores da universidade (Apropuc) e vice-presidente da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes).
Com esse currículo capaz de amarelar a farda do pai, não surpreende que Aloizio Mercadante tenha se tornado amigo íntimo de Luís Inácio Lula da Silva. Cedo virou o economista dos olhos do metalúrgico que se candidatou à presidência da República em 1989. Perdida a eleição, Lula fez com que ele desistisse de um curso de três anos em Roma, que já estava acertado. “Quero que você se candidate a deputado”, disse o presidente do PT. Com um cabo eleitoral desse porte e o sucesso que sempre fez por conta própria, Mercadante foi eleito em 1990 com quase 120 000 votos. O mais votado do PT e o sexto entre os candidatos de todos os partidos em São Paulo. “Desde que vim para Brasília, dedico a maior parte do meu tempo a combater a corrupção”, conta. E combate para valer. Nestes tempos em que o fantasma do comunismo burocrático se despede definitivamente da Europa, embora ainda resista, caduco, sob as barbas de Fidel Castro, o ex-elemento subversivo está careca de saber que sem uma renovação ética não há perspectiva para a política. Como ele mesmo diz, “a ética deve se aliar à política e essa é uma tendência internacional”.
Esse tipo de compromisso ético prioritário, acima de tudo, faz de Mercadante um típico representante daquilo que é chamado de “direita do PT” pelos que se dizem representantes típicos da “esquerda do PT”. O compromisso com a democracia, com as liberdades individuais, com os direitos humanos e com os mecanismos de mercado (e até mesmo com a privatização de “algumas” estatais, como as de siderurgia) é o novo espectro que ronda os pesadelos dos esquerdistas ortodoxos. Por “esquerda do 28 PT”, bem a propósito, entendam-se as correntes estatizantes que ainda vêem em “alguns” aspectos do Estado soviético um modelo a ser seguido.
Para entrevistar Aloizio Mercadante, o editor-sênior Eugênio Bucci e o repórter especial Marcos Emilio Gomes viajaram duas vezes a Brasília no final de novembro e tiveram com ele dois breves encontros no início de dezembro, em São Paulo. Em dupla, conversaram com o deputado por sete horas. Os dois encontros avançaram pela madrugada no bar do Torre Palace Hotel, um quatro estrelas de Brasília que serve de dormitório para o deputado. Entre uma colherada e outra de sopa de aspargos (no primeiro encontro) ou de tabule com quibe cru (no segundo), Mercadante assegurou que não teme o fantasma da calvície. Falou muito sério, sobre CPI e muito mais. Revelou outros fantasmas, bem mais amedrontadores, que cruzaram a sua biografia. Sem medo, falou de sua viuvez aos 27 anos e da perda do amigo Luiz Travassos (que foi presidente da União Nacional dos Estudantes em 1967/68) num desastre de automóvel em 1982 (Mercadante dirigia o carro). Mas falou também de temas leves, como a infância, a descoberta do sexo e até de futebol.
Como é que aquele cabeludo que escandalizava os economistas mais velhos nos programas de debate na televisão, como o do Ferreira Netto, virou um deputado tão compenetrado?
A cabeça das pessoas é que mudou. Eu continuo sendo um debatedor duro.
Você continua o mesmo. Mas os seus cabelos…
Eu tenho menos cabelo. A cada ano que passa, fico com menos cabelo. .
Você usa alguma coisa para diminuir a queda do cabelo?
Não passo nada.
Nada? Você nunca se preocupou? Seu pai é careca? Seu irmão mais velho [Oswaldo Oliva Neto, major do Exército] é careca?
— São. É hereditário.
E as dores de cabeça da CPI do Orçamento devem ajudar bastante, não? Como foi, por exemplo, a sensação de encontrar pessoalmente quase 1 milhão de dólares, cash, na casa do economista José Carlos Alves dos Santos?
Foi uma história interessante. No dia do depoimento à CPI, perguntei se ele tinha mais dólares do que aqueles encontrados até a época e ele falou que não. No outro dia, o advogado dele entrou em contato com o Bisol [senador José Paulo Bisol, do PSB gaúcho, integrante da CPI], e disse que o José Carlos queria falar comigo. Aí, o senador Jarbas Passarinho [do PPR do Pará, presidente da CPI] designou uma comissão — eu, o Gilberto Miranda [senador, PMDB- AM] e o senador Elcio Alvares, do PFL do Espírito Santo — para falar com ele. O José Carlos contou que num armário embutido com teto falso, na casa dele, tinha em torno de 1 milhão de dólares, além de 400 000 dólares em um banco de Nova York e mais 50 000 dólares num paraíso fiscal. Fomos com o advogado e a filha dele, Adriana. Ele queria que pegássemos os dólares na frente da filha.
E botar a mão no dinheiro, como foi?
Nós subimos no armário e tiramos. Eram pacotes, embrulhados em papel celofane, com elástico.
Diante daquele monte de dólares, não deu em ninguém uma tentação de pegar um pacotinho só?
De ninguém não posso falar. Eu não tive tentação. No meio de um drama como aquele, você é incapaz de pensar nisso.
Foi a maior fortuna que você já teve na mão?
Ah, sem dúvida. A maior piada foi a do Lula, no telefone, no outro dia: “Como é que você pega 900 000 dólares e não dá os 30% do partido?” [risos]. [Todos os membros do PT que ocupam cargos públicos eletivos devem contribuir com 30% de seus salários líquidos para o partido.] O maior negócio que fiz na minha vida foi a compra da minha casa: 60 000 dólares. Vendi um apartamento que tinha financiamento do BNH e comprei a casa no final de 1985, pouco antes do Plano Cruzado! Tive que vender um terreninho na praia. Vendi o carro, o telefone, vendi tudo o que tinha. Até aparelho de som. Pedi dinheiro emprestado para os amigos para poder quitar.
Uma das bombas da CPI foi a descoberta dos documentos e dos disquetes da construtora Norberto Odebrecht revelando um cartel de empreiteiras e funcionários públicos para controlar licitações e liberação de verbas e mais uma lista de parlamentares que recebiam propinas. Aquele foi o momento mais tenso?
Foi de muita tensão. Na quarta-feira de manhã [dia 1º de dezembro], tivemos uma reunião na casa do Bisol, em Brasília, eu, o Covas [senador Mário Covas, PSDB-SP], o Sigmaringa Seixas [deputado, PSDB-DF], o Adylson Motta [deputado, PPR-RS], Jarbas Passarinho, Miro Teixeira [deputado, PDT-RJ], Nelson Jobim [deputado, PMDB-RS], José Genoíno [deputado, PT-SP] e o Pedro Simon [do PMDB gaúcho, líder do governo no Senado], Fizemos ali uma avaliação do impacto que aqueles documentos poderiam ter na opinião pública. Houve comentários a favor de que não divulgássemos todas as informações que tínhamos, porque aquilo poderia inviabilizar a CPI, que era uma situação de muito risco político…
Risco de golpe militar?
Risco de golpe militar. O Passarinho, por exemplo, disse que havia militares que estavam com o Ato Institucional escrito. Mais tarde disse que eram militares da reserva. Ele até passou mal, a tensão foi muito grande. Até o Covas falou que não era infarto porque ele, Covas, tinha pós-graduação em infarto [o senador Mário Covas, infartado em 1986, foi para a mesa de cirurgia em setembro de 1987: tem duas pontes de safena e uma de mamária]. Outro assunto da reunião foi o PC, que estava chegando [Paulo César Farias estava preso em Bangcoc, na Tailândia, e chegaria o Brasil na sexta-feira, dia 3 de dezembro]. Havia a informação de que ele tinha uma lista de parlamentares com número da conta, conta fantasma, conta no exterior, quanto foi depositado para cada um e número do cheque. Tudo isso contabilizado. E que existiriam três cheques para o secretário particular do vice-presidente Itamar Franco no período da campanha.
E, após a CPI, o Congresso vai mesmo cassar os corruptos?
Nós chegamos num momento em que é imprevisível o desdobramento da CPI. O que acredito, e acho possível, é a CPI apurar, com todo o rigor, e também partir para cima dos corruptores, sobretudo os que aparecem no material da Odebrecht. Depois, não só cassar mandatos, mas formular propostas de reestruturação do Estado brasileiro: uma nova lei eleitoral, uma nova lei partidária, uma nova política orçamentária. Mas há também um outro cenário possível, o de que o Congresso não consiga fazer isso. E estou convencido de que só vai haver cassações se houver mobilização popular. Quando esta entrevista estiver nas ruas, em janeiro, eu espero que a população também esteja voltando para as ruas. Desta vez vai ser muito mais difícil do que no impeachment do Collor.
E o que é que você espera que aconteça com o corruptor ativo, após a CPI? Por exemplo: a Odebrecht. O que é que você espera que aconteça com a Odebrecht?
Olha, no que depender de mim e das coisas que eu estou vendo, se a gente conseguir fundamentar juridicamente, com todo esse esquema sofisticado de defesa que a Odebrecht tem, nós teremos que mostrar não só a expropriação de renda, de dinheiro público que ela fez durante todo esse período, como o assalto ao patrimônio público que ela vai fazer depois, que é, por exemplo, todo o conjunto petroquímico de que já é proprietária, em vários pontos do país. Agora, no processo de privatização, ela comprou praticamente todo o pólo petroquímico. E, em algumas circunstâncias, comprou a empresa de primeira geração e era concorrente na de segunda geração. Então, o concorrente da Odebrecht não tem como se expandir ou como sobreviver, porque ela domina toda a primeira geração. Eu acho que isso tinha que ser expropriado. Expropriado para repor aos cofres públicos o assalto que foi promovido ao longo da história recente deste país por essa empresa.
Voltando àquela mesma quarta-feira: logo após a reunião, você foi para uma audiência com o ministro do Exército, general Zenildo Lucena, atitude que foi muito criticada.
Durante esses três anos de mandato, eu havia sido convidado para ir ao Ministério do Exército e nunca tinha ido. O ministro tinha me convidado para uma visita e ficou marcada uma audiência uma semana antes. Aí eu não pude ir, por causa da CPI. Marcamos então para aquela quarta-feira. Ele até adiou uma viagem ao Rio para isso, e eu mantive a audiência. Saí da casa do Bisol e disse: “Olha, tenho uma audiência com o ministro, eu vou, e depois sigo direto para a CPI.” O relatório sobre os documentos nem estava pronto ainda, só ficaria às 6 horas da tarde. Foi uma audiência de meia hora na qual nós conversamos sobre a CPI e outros assuntos. O ministro disse que estava apoiando a CPI, que achava fundamental o processo que estava existindo, foi uma conversa muito positiva, saí muito tranquilizado.
Se o ministro dissesse que não estava gostando nada da CPI, você sairia de lá menos tranquilo. E daí?
Tenho certeza de que esse ministro vai respaldar a CPI e o processo democrático, mas se um eventual ministro do Exército tivesse qualquer atitude de intervenção no Poder Legislativo, ou manifestasse intenção golpista, eu começaria a organizar a resistência democrática, como fiz vinte anos atrás.
Você precisava falar em CPI com o ministro? Em outras palavras: é esse o papel de um parlamentar?
A audiência, repito, marcada quinze dias antes, não era para tratar de CPI, mas é evidente que eu conversaria sobre CPI, mesmo porque não tenho feito outra coisa nos últimos quarenta dias. As forças democráticas precisam constituir novos interlocutores com as Forças Armadas. Chega de golpistas irresponsáveis como Jair Bolsonaro [PPR-RJ, deputado que defendeu publicamente, no ano passado, o fechamento do Congresso].
O fato de você ser filho de general ajuda nesses contatos que o PT tem feito com os militares?
Ajuda. Eu morei dentro de quartel. Imagino que os militares olhem para mim como olham para os filhos deles. Muitos eu conheço de pequeno. Joguei bola com eles.
Bem a propósito: como foi a sua formação, dentro de casa?
Muita disciplina.
Como era o seu pai, que teve até o apelido de “General Dureza”, menos por questões ideológicas e mais por firmeza disciplinar?
Eu nem sabia que ele tinha esse apelido. Meu pai era totalmente envolvido na política e defendia o regime militar. Participou do golpe de 1964 e sempre foi fiel à instituição do Exército. Era muito bem informado. Aprendi com ele a ler jornal, desde pequeno, e a discutir política, Brasil etc. Quando era pequeno, eu e meu irmão mais velho éramos obrigados a fazer relatórios para ele de todas as nossas viagens. Percorremos sozinhos a Belém-Brasília, ainda em construção, durante uma semana em 1967. Tive que fazer relatório da viagem inteira.
Você chegava a bater continência para seu pai?
Não era propriamente continência, mas tinha um processo de formação, uma série de coisas, fora da escola. Até porque estudei sempre em escolas públicas das cidades por onde passamos: Salvador, Campo Grande, Rio de Janeiro, Brasília. Sempre fui um excelente aluno, mas parte da minha formação foi doméstica. Meu pai sempre dava tarefas. Eu tinha que ler livros, escrever. Acho que esse processo, as viagens que a gente fazia e os relatórios que a gente apresentava, me deu uma visão muito rica de Brasil.
No início da sua militância de esquerda, era difícil a convivência?
Nesse aspecto, eu não falo da vida dele e ele não fala da minha. A gente conseguiu separar um pouco a identidade política e profissional de cada um e as relações familiares. Se elas são hoje, eu diria, saudáveis, isso se deve um pouco a esse cuidado. Democracia não é só um processo social, é também um pouco essa coisa familiar, é o cotidiano de você conviver com a diferença e respeitar a diferença. Isso é um lado fundamental na minha história de vida.
Nenhum dos dois teve problemas com opções do outro?
Eu tive um problema familiar quando tinha militância na universidade. Minha condição de militante de esquerda foi usada contra meu pai.
Como?
Em 1975, Eu não quero entrar em coisas domésticas. Basta dizer que chegou um momento na minha vida em que meu pai falou: “Eu ou sair do Exército.” É uma história paralela da minha vida. Não quero falar dos detalhes. Teve lá uma situação de impacto muito grande na minha família, e meu pai falou: “Olha, não dá mais, eu vou sair do Exército. Você segue sua vida como militante de esquerda e tal, mas eu não tenho mais condições desseguir a minha. Não estou a fim de, em algum momento, a gente ter de se enfrentar na vida,” Eu disse que não tinha nada que ver, que a vida dele era dele que a minha era minha.
“Minha geração teve uma dissociação entre sexo e afetividade. Namorar, era com menina de família. Sexo, com mulher da rua”
Qual era a patente dele?
Era coronel. Isso acabou sendo superado. Acho que foi a conversa mais importante que nós tivemos. Foi há quase vinte anos.
E você não teve dificuldades por ele ser militar?
Na época da reconstrução do Diretório Central de Estudantes (DCE), na USP, em 1976, nós, da minha tendência estudantil, a Refazendo, avaliamos que eu não deveria ir para a diretoria, que não deveria me expor mais do que já me expunha.
Por falar em movimento estudantil: nas festas do seu tempo devia existir muita maconha, não?
Não. Olha, acho que a paixão dessa minha geração era a política. Era a identidade de estar lutando contra a ditadura, eram as manifestações sociais. Ninguém entre nós tinha na droga uma coisa importante na vida.
Quer dizer que você não usava drogas de nenhuma espécie?
Vamos colocar da seguinte maneira: se você me perguntar se eu usei, vou responder que não. Se você me perguntar: “Mas se você tivesse usado, você diria que usou?”, também vou responder que não. Eu dria que isso nunca teve importância. Acho fundamental que as pessoas comecem a dizer isso. Imagina essa molecada toda que lê PLAYBOY. Eles têm que começar a pensar o seguinte: para ser avançado, ninguém tem que experimentar droga. As pessoas que têm alguma capacidade de diálogo com a juventude têm que começar a falar as coisas como elas são.
Nem curiosidade, nada? Você nunca quis tentar?
A droga não tinha essa importância que a própria pergunta tenta apresentar. A gente não tem que se debruçar tanto sobre essa questão.
Quer dizer que você nunca experimentou?
E, se tivesse experimentado, teria sido uma grande bobagem. Fui claro?
Claro.
Tem outra coisa, de outro assunto, que eu queria falar.
Pois não?
Vocês me fizeram algumas perguntas meio machistas sobre a minha família, perguntam sobre meu pai e meu irmão, e não me deram chance para falar o que queria. Eu tenho uma mãe…
Você, como disse o Manoel Moreira [deputado federal do PMDB de São Paulo, quando depôs na CPI, no sábado, 20 de novembro], é filho de mulher [risos]…
Também sou [risos]. Grande filósofo, o Manoel Moreira! Minha mãe dá aulas de ioga, é vegetariana, criou os filhos todos com homeopatia. E acho que é um ponto fundamental na minha formação. Às vezes, ela é até meio ousada. Com 60 anos, por exemplo, resolveu andar de moto. Caiu e quebrou o braço. E tenho quatro irmãs mais novas. A Lia, que trabalha com propaganda. Tem a Vera, que mora em Brasília e trabalha no Ministério do Trabalho, a Isabel, que trabalha também na área de propaganda em televisão, e a Paula, que trabalha com informática. A Mariana, minha filha, está estreando a primeira peça dela. Ela tem 9 anos e está fazendo teatro na escola da Lígia Cortez, filha do Raul Cortez. Ela está superanimada, é muito ligada à música e ao teatro.
Você patrulha o seu machismo?
Sobretudo minha convivência com a Jane [Jane Chiriac, com quem foi casado] ajudou muito a refletir sobre o que é uma identidade masculina machista. E acho que isso não é uma tarefa apenas do movimento feminista. O encontro de respostas para a superação do machismo é uma tarefa também masculina. Por exemplo, esse negócio agora de namorar. A minha geração teve uma dissociação muito grande entre sexualidade e afetividade. Então, namorar era com menina de família. Experiência sexual era com mulher da rua.
Já que a gente está nessa área, existe uma pergunta…
Sobre a jornada de trabalho, também…
Não. É outra coisa: como é que você descobriu a sexualidade?
A minha? A primeira namorada, o primeiro beijo?
É.
Sei lá, eu tinha 13 anos. As primeiras experiências assim mais…
… libidinosas.
Libidinosas. Acho que foram aqui em Brasília… Eu morava aqui. Era perdidamente apaixonado pelas primeiras namoradas. Foram coisas incríveis. Com 14 anos, comecei a ter uma namorada mais firme. Era uma garota mais velha — tinha 18. Nós ficamos juntos três anos. Foi uma experiência mais profunda, mais rica.
A primeira vez foi com ela?
Agora vocês já estão entrando num terreno muito íntimo [risos]. Não sei se estou a fim de contar.
Tudo bem. Mas como foi a sua primeira vez?
Foi com uma mulher mais velha.
Era uma prostituta?
Não. Não era uma prostituta. Era uma mulher mais velha, uma mulher mais experiente.
Você tinha quantos anos?
Foi nessa fase aí, aos 14, 15 anos. Acho que devia ter uns 14.
E foi legal pra você?
Legal foi, mas não tão bonito quanto poderia ter sido.
E a primeira vez bonita?
É uma coisa íntima. Não acho que deva ser pública. Mas foi essa integração entre o prazer, o desejo, a fantasia e a sensibilidade, a afetividade, a troca, a convivência. Os momentos mágicos da minha vida foram uma integração dessas duas coisas: afetividade e sexualidade, numa relação do cotidiano. Foi isso. E aconteceu com mais de uma mulher, evidentemente.
Você se casou bem cedo, não foi?
Bom, a primeira experiência de convivência foi com a Lídia Goldenstein [economista e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)]. Isso foi dos 18 anos até os 23, por aí. Eu me separei dela quando terminou a pós-graduação. Aí, em seguida, casei com a Jane, em 1978, por aí. A Jane tinha uma filha pequena, a Juliana. Era uma relação superlegal, muito forte na minha vida.
Casaram de papel passado?
Não. Só fui casar no papel em 1988, com a Regina. A Jane trabalhou comigo na Faculdade de Economia da USP, quando eu era monitor. Mas trabalhamos juntos, só. Depois que me separei da Lídia, em 1978, é que me encontrei com a Jane. Ela tinha se separado, também. Fomos morar juntos, eu, ela e a Juliana. Ela participou da fundação do Brasil Mulher, do Nós Mulheres [publicações feministas], fez parte do primeiro Comitê de Redação das Mulheres.
Infelizmente a Jane teve câncer e morreu. Como foi para você, jovem, começando a vida, perceber que ela ia morrer?
Ela teve que tirar um seio. Fez mastectomia. Passou um ano com a doença totalmente administrada. E a vida continuou numa boa, sem maiores complicações. Aí, em 1981, nós fomos passar o Carnaval na Bahia. Acontece que, um pouquinho antes daquele Carnaval, o único irmão dela foi trabalhar para a Petrobrás, no Iraque, e morreu lá. Ele teve um problema na plataforma de petróleo. Houve vazamento, todo o mundo correu, menos ele, que foi tentar consertar. O equipamento explodiu e ele sumiu na explosão. Jane ficou muito mal. Acho que a doença voltou com a morte do irmão. Na Bahia, ela sentiu dores fortes nas costas. Já estava com dor na coluna, antes. Mas o médico talou que podia ser problema de postura por causa da mastectomia.
Ela já estava cismada?
Não. Quando chegamos em Salvador, ela saiu para dar uma volta e não conseguiu andar, de tanta dor. Muita dor. Aí, nós voltamos pra São Paulo. Fomos a um outro médico. Na hora em que ele olhou a radiografia, ficou disfarçando. A Jane sentiu um clima e perguntou o que era. Ele disse: “Não, não é nada. E que não estou conseguindo enxergar direito. Preciso dos meus óculos.” Aí ele saiu da sala, eu estava sentado ali do lado. Ele me disse: “Vai embora e volta depois.” Eu a levei para casa, e voltei. Não abri nada pra ela.
O que disse o médico?
Ele me mostrou a radiografia. Algumas vértebras já tinham sumido. Aí ele falou: “Ela está com metástase. Você deve levar sua mulher diretamente a um oncologista.” Perguntei: “Ela está com metástase, e daí? Quais são as implicações?” Ele disse: “A vida dela está comprometida.” Eu insisti: “Mas e daí, o que é que pode acontecer?” Ele disse: “O que interessa é a qualidade de vida.”
Com que idade ela estava?
29 anos. Eu quis saber sobre expectativa de vida. Ele falou: “Não posso afirmar nada, mas imagino que ela tenha uns seis meses de vida.” Comecei a chorar. Como eu ia fazer para voltar para casa? Precisava botar a cabeça no lugar. Ao mesmo tempo, ela estava desconfiada quando voltei do médido.
Você disse a ela o que o médico tinha contado?
Não, só levei a Jane imediatamente a outro médico, que era um oncologista bom. Sabia lidar com essas coisas. E foi lidando. Ela teve que fazer radioterapia e quimioterapia, com toda aquela violência. Caiu o cabelo. O médico recomendou inclusive que fizesse a terapia de paciente terminal. Foi incrível a primeira sessão dela. Chegou lá, começou a conversar com a psicóloga, e a mulher falou assim. “Você sabe por que está aqui, não sabe?” A Jane respondeu: “Não.” A psicóloga falou: “Você está aqui porque vai morrer.” Ela me contou depois que xingou a mulher, dizendo que ela não tinha o direito de falar uma coisa dessas. Chorou e berrou. Mas a psicóloga perguntou: “Você alguma vez teve dúvida na sua vida de que iria morrer?” Ela falou: “Não.” A psicóloga então explicou: “A única coisa que mudou é que sua probabilidade de morrer mais cedo é maior. Mas nem você tem controle da sua morte, nem eu da minha. Ninguém tem. Que você vai morrer, você sempre soube. Então a única coisa que mudou é que hoje tem que encarar isso, e conviver com isso.”
Isso deu certo?
Lembro que ela voltou para casa no maior alto-astral. E escreveu muita coisa nesse período. Tenho tudo guardado. A partir daí, passou a elaborar a morte dela. Passou a pensar: “O melhor a fazer é viver da melhor maneira possível.” Já não podia muito sair à rua. Fica quase o dia inteiro deitada. Às vezes tinha de sair na cadeira de rodas ou então de muleta, sempre com o colete por causa da coluna. Lembro que nós tentamos ir a um cinema. Foi um desastre. Era aquele filme em que o cara é um artista e morre no final. É um filme da época. Acho que é um artista de dança, de jazz.
All that Jazz, do Bob Fosse?
Esse mesmo! Fui com ela, imagina? Foi uma coisa muito forte, esse período. E tinha a Juliana, que estava com 5 anos e que tinha comigo uma relação incrível, superafetiva.
Ela chamava você de pai?
Não. Ela me chamava de Aloizio. Mas com o pai, o verdadeiro, nessa época, não tinha uma relação legal. Era um drama. Eu fazia o maios esforço para que ela tivesse uma boa relação com ele. Mas a relação afetiva dela, todinha, era comigo. Quando a Jane ficou doente, a Juliana começou também um processo de elaborar a morte da mãe. A criança percebe.
Você conversa com ela?
Conversava direto. A criança saca tudo. O que é natural? É a mãe cuidar da filha. Com a Juliana era o oposto: ela tinha que ajudar a cuidar da mãe. Queria entender o que estava acontecendo. “Por que a minha mãe não cuida de mim?” Então a Juliana trouxe um desenho da escola, que era um papel totalmente pintado de preto. Era a morte, não é? Ela expressava tudo aquilo com o desenho, e também com a fala. Com agressão. Não aceitava a situação da Jane. No final, a Jane já estava internada e um dia falou: “Vou me arrumar. Me traz a Juliana.” Ela tentou segurar a barra. Levei a Juliana. Conversou com a Juliana. Lembro até que a Juliana levou um patinho pra ela. Foi um presente que a Juliana mesma escolheu e nós compramos. No dia seguinte, a Jane entrou em coma. Ela mesma se despediu das pessoas. Morreu em agosto de 1981.
“Pouca coisa tem sentido na vida, e a gente perde muito tempo com bobagem. Com uma aparente segurança que não existe”
E você, com 27 anos, como é que reagiu a essa despedida?
Quando o médico me falou da volta da doença, fui para a PUC e procurei a dona Nadir [Kfouri, então reitora da universidade]. Eu era chefe do Departamento de Economia e presidente da Associação de Professores. Então, naquele dia, falei que ia sair de licença, quisesse ela ou não, que eu queria viver aquele processo da Jane. Ela respondeu: “Senta aqui. Você não vai sair da universidade. Não sabe quanto tempo isso vai durar. Não pode abandonar a sala de aula. Não abro mão. Não dou licença.” Ela fez o maior esforço para eu não largar a universidade. Me convenceu a manter pelo menos as aulas. Acho que ela tinha razão.
Acha ou tem certeza?
Tenho absoluta certeza. As pessoas têm que viver esses processos, mas têm que manter a vida. A morte do outro, o câncer, algumas doenças termi nais são como um jogo de xadrez em que você só perde. Sabe que a cada dia vai ter xeque-mate. E tem fases. Tem uma fase de revolta, em que você pergunta: “Por que comigo?” Tem uma de resignação: “A vida é assim mesmo e tal.” Você vai elaborando essas coisas e percebe que tem um lado da morte que é um lado da vida. Você repensa a vida. O que é que fica quando você morre? Fica muito pouca coisa. Ficam as paixões, o amor, a militância, o trabalho, as tuas poesias, alguns amigos. Pouca coisa tem sentido na vida, e a gente perde muito tempo com bobagens. Com uma aparente segurança que não existe. Seja no trabalho, na afetividade, no casamento. O que importa, realmente, é intuição de ir atrás daquilo que você acha que é o fundamental na vida. A morte é uma forma de você se jogar para a vida.
E a Juliana, como ficou? Continuou morando com você?
Depois que a Jane morreu, a Juliana continuou morando comigo. Ela não queria ir morar com o pai verdadeiro. Berrava, chutava, xingava. Chegou a ficar doente. Fiz o maior esforço para a Juliana aceitar o pai. Ele vinha, passeava com ela. Eu peguei a Leléu, que trabalhava em casa e cuidava da Juliana, para ir morar com ele, para a menina aceitar ir para lá. Um dia, ele me convidou para jantar e falou: “Olha, eu não aceito sua relação com a Juliana. Acho que a Juliana gosta mais de você do que de mim. Vou sair de férias, vou viajar com ela e ficar três meses no exterior. Quando eu voltar, não quero mais que você veja a Juliana.” Eu falei: “Pô, essa menina perdeu a mãe, perdeu a referência fundamental da vida dela. Goste você ou não, eu sou uma outra referência obrigatória na vida dela, cara. Ajudei a criar essa menina, muito mais do que você. Você não tem o direito de fazer um negócio desses.”
E ele fez?
Bom, eu nisso pensei: “Vou fugir com a Juliana.” Procurei advogado para saber se tinha algum direito. Não tinha direito nenhum. Não tem qualquer importância jurídica a relação afetiva, nem a opção dela. A solução seria ensiná-la a trair o pai, aos 6 anos de idade, e se encontrar comigo às escondidas. Eu pensei: “Isso não vou fazer!” Ele não viajou imediatamente, só nas férias do final do ano. Depois, lacrou qualquer possibilidade de eu ver a menina. Durante muito tempo, só encontrava a Juliana quando o avô, o pai da Jane, saía com ela e eu ia junto. Mais nada. O que acontece hoje? Até viajamos juntos: a Juliana, que está com 18 anos, já entrou na faculdade de Arquitetura, vive saindo comigo, a Regina e os meus filhos. Ela está sempre na minha casa. Não adiantou nada. Não adianta você reprimir uma relação como essa. É uma bobagem. Meus filhos têm a Juliana como irmã. Minha filha tem fotografias dela no quarto.
Retomando: na época, a Juliana foi embora e você ficou sozinho.
E sabe o que aconteceu em seguida? O [Luiz] Travassos, que tinha voltado do exílio fazia uns dois anos, estava se separando da Marijane [Lisboa, coordenadora para a América Latina da campanha contra os resíduos tóxicos movida pela entidade internacional de combate ecológico Greenpeace] e me chamou. Fomos tomar um negócio numa padaria que tinha ali perto da PUC, em São Paulo, e ele me falou: “Passei o exílio com ela, construímos toda essa história juntos. Porra, meu filho acaba de nascer! Eu não vou segurar essa barra de separação. Quer saber de uma coisa? Eu vou me matar.” Aí eu falei: “Travassos, não faça uma coisa dessas. Que conversa é essa de se matar? Depois de tudo o que você passou, chega no Brasil e agora vem com esse negócio de se matar?” Ele disse: “Não dá, cara. Não vou encarar isso aí. Estou cansado.” Aí começamos uma longa conversa, e eu falei: “Vem cá, vamos fazer uma coisa? Antes que eu faça o mesmo, por que você não vai lá pra casa, e a gente aproveita e já reparte esse negócio? Vamos botar alto-astral nisso.” E o Travassos veio morar comigo.
Para subir o astral.
É. Pra cima. Aí a casa virou uma grande Meca daquela moçada toda. Começaram a aparecer na minha casa o Raul Seixas, o [bailarino] Lennie Dale, o Jorge Mautner. Era muito o Travassos que puxava. Era um lado dele. O outro lado era Ayrton Soares [ex-deputado federal do PT de São Paulo], eram os militantes todos do partido.
Mas aí então, as drogas, como é que rolavam?
Isso aí era o lado dele.
Esse pessoal, Raul Seixas, Mautner…
O Travassos não era muito louco, não.
Não era? Só um pouco?
Um pouco talvez ele fosse [risos]. Mas não tinha nada a ver com esse pessoal, nesse lado. Ele era um [Fernando] Gabeira, sem aquela agressividade, aquela radicalidade do Gabeira nas suas opções. Mantinha um lado de militância, de reflexão. Diria que ele era um ponto intermediário entre o José Dirceu [deputado federal pelo PT de São Paulo] e o Gabeira. Ele foi, para essa moçada nossa, uma grande descoberta, muito bonita, para a nossa geração.
Você então saiu completamente do buraco?
Nada. Isso é que eu queria contar. Em 1982, fomos eu, o Travassos e outros amigos passar o Carnaval no Rio de Janeiro. Estávamos indo para o [bar] Amarelinho, no centro da cidade. Eu ia dirigindo o carro. Aí levou uma fechada…
Onde é que vocês estavam?
Aterro do Flamengo.
Que carro era?
Uma Brasília. E aí o carro sobe na alçada, bate de lado numa árvore, exatamente onde o Travassos estava. Na batida, algumas costelas do Travassos se quebram e perfuram o fígado dele. A gente vai para o Hospital Miguel Couto, ele falando que estava passando mal. Mas estava uma loucura aquilo ali, com gente esfaqueada, baleada …
“O Travassos ainda falou para mim: ‘Estou sabendo que vou morrer. ’ Depois, quando veio a notícia, eu achei que ia desmontar”
Carnaval no Rio…
Uma noite de horror. O médico falou: “Ele não tem nada.” Eu me irritei: “Como é que não tem nada, cara?” Ele me falou: “É melhor você calar a boca, senão você sai daqui!” E eu: “Não vou sair daqui. Tudo bem, eu calo a boca, mas ele está passando mal.” Tentei me apresentar, mas o cara mandou o segurança me tirar de lá. Eu falei: “Não, eu fico quieto aqui, e tudo bem.” O médico então disse para ele: “Você fica aí na cama que você não tem nada.” Isso uma hora depois do acidente. Ele estava com uma hemorragia interna, falando pra mim: “Estou passando mal.” Liguei para a Marijane, que estava lá, na casa da mãe dela, e pedi que ela fosse ao hospital. Uma hora depois, ele começa a dar sinais de hemorragia interna. Aí, o médico vem, leva para a sala de cirurgia, e ele morre. Então, porra, eu tinha perdido a minha mulher, em seguida a Juliana vai embora, vou morar com o Travassos, que morre em um acidente.
E você guiando o carro…
E eu dirigindo o carro. Na hora em que o Travassos morreu, eu falei para a Marijane: “Essa eu não vou segurar.” E o Travassos ainda falou pra mim: “Eu vou morrer. Estou sabendo que vou morrer.” Ele começou a falar que eu tinha que ajudar a segurar a barra da mulher e dos filhos, a Bárbara e o Carlinhos. A Marijane estava do meu lado, na hora em que chegou a notícia. Pensei que ia desmontar. Pela segunda vez, na minha vida, pensei: “Agora eu desmonto.” A Maria Rita [Kehl, psicanalista e colunista de PLAYBOY], que eu estava namorando na época, soube da morte do Travassos pela televisão e veio de Recife, onde estava passando o Carnaval, me encontrar. Isso foi em fevereiro. De fevereiro a maio, no dia do meu aniversário, 13 de maio, eu vivi um período muito difícil. Pensei que ia morrer também. Naquela hora, perdeu o sentido a minha vida. Eu estava muito sensível. Muito vulnerável. Acho que fui ao chão.
Você se sentiu culpado?
Lógico que me senti. Eu é que estava dirigindo o carro. Ele estava comigo, do meu lado. Primeiro, quando você fica e os outros vão embora, você já se sente culpado. Foi assim com a Jane. E com o Travassos também senti muito culpado.
Levou tempo para superar?
Algum tempo. Eu achava que a morte estava pert demais de mim. Tinha uma única coisa que eu pensava: “Quero ter um filho.”
Foi nessa fase que você conheceu a Regina?
A Regina já tinha trabalhado comigo em uma organização onde eu fazia assessoria para movimentos populares. Ela tinha feito Ciências Sociais na PUC. Quando o Travassos morreu, liguei ara a Regina, mas ela estava namorando um outro cara. Mesmo assim saiu comigo. Fomos a um cinema. Outra vez eu errei de filme. Fomos ver Mad Max. Eu não conseguia dirigir carro. Estava traumatizado. E no Mad Max só tinha batidas. Mas a Regina me deu a maior força nesse período em que estava muito frágil. E comecei a ficar bem a fim dela.
Mas apenas bons amigos.
Amigos. Aí ela resolver se separar do cara — foi até um troço meio traumático. Separou e começamos a namorar. Foi uma paixão superbonita, uma coisa forte na minha vida, encantadora. E comecei a construir mais uma grande relação de amor. Aí, Regina ficou grávida. Nasceu a Mariana, que está agora com 9 anos, é a maior gracinha. Nasceu o Pedro, um ano e pouco depois. Para mim, a paternidade é a dimensão mais importante da vida. De tudo o que eu faço.
Quantas horas por semana você é pai?
Todas as horas do dia.
Agora, por exemplo?
Eu sou. Só de falar… Hoje vocês me atrapalharam, porque eu queria ligar para o meu filho, para comentar o jogo do São Paulo.
Você é santista, não é?
Sou.
Você adiaria uma reunião importante do PT, ou de um futuro ministério que venha a ocupar, para assistir a um jogo do Santos?
Não. Aliás, no último congresso nacional do PT estava acontecendo uma final de campeonato e todo um pessoal estava lá assistindo ao jogo quando tinha de ir para o plenário. Fui dar uma bronca para desligar a televisão. Acho que o lazer é uma coisa fundamental da na vida da gente, mas ele, infelizmente, tem de estar subordinado às reponsabilidades políticas e profissionais.
Você era bom de bola?
Eu fui. E meu filho é um craque. Um cracão, mesmo. É o melhor da escola. Ele está na escolinha de futebol. É o centroavante do time. Faz pouco tempo, ganhou uma medalha porque marcou dois gols. O tinha ganhou de 3 X 2 e ele marcou dois gols.
Mas você estava dizendo que queria ter telefonado para casa…
Ligo todo dia, de manhã, à noite. Hoje não liguei. Ser pai é convivência. É corrigir provas, fazer trabalhos, responde o boletim, acordar cedo de manhã, saber o que aconteceu na escola.
E ser marido?
É a mesma coisa. É parte disso. A família é um todo. Quer dizer, a paternidade e o equilíbrio que é essa relação de amor. No caso da Regina e das crianças, é um todo.
Mas agora, faltando vinte minutos para 1 da manhã, já é dia 18 [novembro]. Hoje é o aniversário da sua mulher. Você não devia estar lá?
Devia, mas não posso. Amanhã eu tenho que estar em um depoimento, às 9 e meia da manhã, do José Geraldo [deputado federal do PMDB-MG]. Quer dizer, circunstancialmente, o fato de ser militante acaba suplantando o fato de ser marido ou ser pai. Mas ainda vou tentar ver a Regina hoje. Ela entende isso tudo.
A sua família está ameaçada, você tiveram que sair de casa e seus dois filhos vão e voltam da escola acompanhados de agentes da Polícia Federal. Como é que vocês reagem?
A Regina foi seguida, numa vez em que esteve aqui em Brasília durante a CPI do PC. Ela veio para cá com as crianças, foram ao cinema, e dois caras seguiram eles, entraram dentro do cinema, fizeram ameaças. Ela estava com quatro crianças, os filhos e os sobrinhos. Eles provocaram: “Vocês vão ver, isso não vai ficar assim.” Aí resolvemos que ela devir ir embora para São Paulo.
E agora, tem acontecido algum tipo de ameaça?
Desta vez, a pressão sobre mim e sobre meus filhos está muito pior. Um desses que estão envolvidos no escândalo do orçamento, logo o começo da CPI, de cabeça quente, disse que ia mandar me acerta, que eu não ia terminar inteiro. Foi uma coisa meio pesada. Aí, o deputado Pedro Pavão, do PPR de São Paulo, avisou o Jarbas Passarinho e a mim também. Ele foi até muito legal de nos avisar. Ai, quando veio esse negócio, a gente tomou medidas de segurança. Não tinha mais jeito.
“Na faculdade, a Zélia não era ativa nem brilhante. Era de outra turma. Eu era ‘A’ e ela, ‘Z’. Até hoje nós continuamos assim”
Esse parlamentar que disse que ia pegar você é de que Estado?
Ah, não. Não vou falar sobre isso, não. Não tenho interesse em levar adiante. A CPI já sabe. Se acontecer alguma coisa comigo, você vai saber.
Você também recebeu ameaças diretas, não foi?
Eu recebi um monte de telefonemas em minha casa. Um deles foi minha empregada quem atendeu, a Marta, que trabalha há dez anos com a gente, em São Paulo. Falavam um monte de coisas do outro lado e ela me perguntou: “O senhor quer que eu grave?” Tem secretária eletrônica. Eu disse que não precisava e a Marta bateu o telefone. Ela já está escolada. Numa outra vez, a Polícia Federal foi lá em casa, à 1 e meia da manhã. Aí os policiais perguntaram: “A senhora trabalha aqui? Qual é seu nome?” Ela respondeu: “Maria de Lourdes” [risos]. “Há quanto tempo a senhora trabalha aqui?” E ela: “Dois dias” [risos]. Viu que os caras estavam armados. “A senhora pode abrir a porta?” “Não posso, este pessoal daqui é completamente esquecido. Me deixaram aqui, levaram a chave, eu não posso sair, e o senhor não pode entrar.” Enrolou os caras. E eles pularam o muro para ver o que tinha lá dentro. [A missão dos policiais era exatamente proteger a família de Mercadante.]
Você se sente intimidado com ameaças físicas?
Não. Tenho uma certa prática em conviver com o perigo. Na água, por exemplo, eu já salvei mais de dez pessoas. Já salvei o Oswaldo Bargas, que é secretário internacional da CUT. O barco em que ele estava virou no meio do lago. Eu saí correndo e consegui retirá-lo da água. E ele é um cavalo. Você segura, o cara te puxa junto.
Teve que fazer respiração boca-a-boca Bargas?
Não. Não foi preciso. Mas já tire gente morta, também. Uma vez, em Juqueí [em São Sebastião, litoral norte de São Paulo], estava uma puta ressaca no mar e tinha três caras nadando. A onda veio e levou dois. Aí pulei na água, puxei o primeiro e a arrebentação levou o segundo. Eu consegui pegar o sujeito pra lá da arrebentacão. Quando nós chegamos na praia, soube que era um moleque de 18 anos. Foram fazer respiração boca-a-boca, mas o rapaz já estava morto. Eram dois irmãos, peões da construção civil, que nunca tinham visto o mar.
Você acredita em Deus?
Claro que acredito.
Você nunca teve nem mesmo a impressão de que era ateu?
Nunca. Eu acho que essa relação da fé na vida de cada um não é uma questão de uma reflexão filosófica. É uma coisa de sentimento.
Esse seu Deus, como é? É um Deus sem a menor importância na vida prática, ou é um Deus realizador, que interfere na vida do homem?
Não oriento a minha vida em relação a mágicas, a religiosidade. Eu me oriento por minhas ações. As bobagens todas que faço são de responsabilidade absolutamente minha [risos]. Não é culpa de Deus.
Uma dessas bobagens foi apoiar o Plano Collor, em marco de 1990, nas primeiras horas após a divulgação, para depois voltar atrás?
Essa história precisa ser bem contada. Naquele dia, a ministra Zélia Cardoso de Mello foi dar uma entrevista na rede Manchete. E me puseram no ar de São Paulo, ao mesmo tempo. Eu entrei e falei: “Olha, Zélia, parabéns pela vitória. Vocês venceram as eleições. Acho que vocês cometeram um erro de deixar a inflação chegar nisso que esta aí. [Mercadante se refere ao período imediatamente anterior à posse de Fernando Collor, quando a equipe econômica do presidente Sarney trabalhava em colaboração com o time comandado por Zélia]. Com 89% de inflação, não tem muitas opções.” Quer dizer: o enxugamento da liquidez era indispensável. Se Você operar o cara, ele pode morrer, mas se não operar ele certamente vai morrer. Eu fui gentil e disse: “Olha, discordo de algumas coisas. Não precisava tomar o dinheiro dos pequenos poupadores, não precisava fazer essa politica salarial.” Coloquei uma série de questões para ela responder. Quando sai do ar, o jornalista que estava em Brasília falou assim: “O Aloizio Mercadante acabou de apoiar o plano.” O rapaz de São Paulo ainda falou: “Não, ele não apoiou o plano. Ele levantou questões para a ministra res- ~ ponder.”
Você não disse à ministra que ela tinha feito o que o PT faria?
Nunca. Eu não disse que nós faríamos a mesma coisa. Disse o seguinte: “Nós não permitiríamos que a inflação chegasse a 89%.” Inclusive eu disse: “Se é então para fazer um corte, entre apoiar e criticar, sou oposição a esse programa, agora.”
Os jornais deram frases suas de apoio, entre aspas…
A entrevista, pela minha falta de experiência política e de convivência com a mídia, foi muito infeliz. Os jornais publicaram isso no dia seguinte, e me deixaram 100 dias quase sem aparecer em grandes órgaos de comunicação.
Você caiu numa arapuca?
Às vezes não vale o que você diz, vale o gancho da matéria. Vale a versão que o editor quer dar daquilo que você quer dizer. O Lula me disse: “Olha, você não foi feliz. Os caras estão explorando isso aí direto.” De qualquer forma, não fui feliz, mesmo. Tanto que gerou uma confusão, e é evidente que dentro do PT teve gente que ficou insatisfeita.
Isso durou muito?
Isso foi em marco. Em outubro, na eleição, eu fui o parlamentar mais votado do PT. Tive 120 000 votos [119 765, exatamente].
Você foi colega da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello na faculdade. Ela também militava?
A Zélia não era uma pessoa ativa, expressiva politicamente. Cursávamos o mesmo ano, mas ela era de outra turma. Eu era “A” e ela, “Z”. Até hoje continua assim [risos]. Ela nunca foi liderança. Mas militava, eu diria assim, em torno do Partidão [Partido Comunista Brasileiro].
Ela era bonita?
Não era, não. E também não era uma pessoa intelectualmente brilhante.
Já era namoradeira?
Na época, não.
E Você, era?
Eu era.
Passou em revista a ala esquerda estudantil de saias?
Não cheguei a tanto. Eu era namorador. Depois fiquei com a Lídia todo esse tempo. Depois casei com a Jane. Nos intervalos, namorei muito.
Foi durante a campanha eleitoral que você teve a vontade de virar politico?
Não. Eu não queria ser deputado. Ia para a Itália em 1988. Ganhei uma bolsa que me dava direito a ir para qualquer lugar do mundo, a minha escolha. Adiei por um ano, a pedido do Lula, para acompanhá-lo na campanha presidencial.
A bolsa era tudo o que você queria?
Era tudo o que eu e a Regina, mais do que eu, queríamos. Porque ela tem origem italiana. A Mariana e o Pedro começaram a estudar italiano. Eles iam brincar com uma família italiana todos os dias. Isso foi em 1988. Eu e a Regina fomos para lá para escolher apartamento, escolher escritório. Tinha convite para morar em Florença, outro para morar em Verona e outro em Roma…
Uma escolha difícil…
Aí acabou acontecendo até o meu casamento…
Como?
É que deram visto o para mim e para as crianças, mas, como eu não tinha um casamento oficial com a Regina, não deram para ela. Eu tinha que entrar com um processo que podia demorar. Então achei mais fácil casar. Fizemos um casamento com tudo a que tínhamos direito. Fizemos as alianças. Uma é esta aqui que eu uso. Minha irmã faz joias e fez as alianças, de prata com rabo de elefante.
Por que rabo de elefante?
Dizem que dá muita sorte. É o rabo do elefante, mesmo. Nossos filhos participaram e assistiram ao casamento dos pais. Foi o maior barato. Até hoje eles falam do “nosso” casamento [risos].
Você se casou e escolheu apartamento em Roma mas acabou ficando por aqui mesmo…
O Lula disse que eu não podia mais ir, queria que eu ajudasse na campanha presidencial. Então, combinei com o Lula que eu ficaria por mais um ano no Brasil, e acertamos: “Se você ganhar eu fico, se você perder eu vou.” A campanha de 1989 foi a experiência mais rica da minha vida. O meu papel era fazer o briefing dos programas de televisão e acompanhar a gravação, ao lado do Paulo de Tarso Santos, que era o responsável pelo programa. O Lula não fala de teleprompter. Ele só grava de improviso.
Esse improviso nunca deu problemas?
Como é uma coisa de intuição e inspiração, quando ele está pra baixo é uma tragédia. No processo da campanha, os momentos mais difíceis foram quando se falou da Lubeca [empresa que teria dado dinheiro “por fora” para a campanha do Partido dos Trabalhadores] e da Nova República [favela de São Paulo que foi derrubada por um deslizamento de terra durante a gestão da prefeita petista Luiza Erundina]. Foi tudo na mesma época. A gente gravava na segunda-feira para a semana inteira. Lembro que um dia não saía nada. Parecia que tinham enfiado uma faca no estômago do Lula. Era falta de inspiração. A Nova República nós matamos à 1 hora da manhã. Fomos ao cartório, pesquisamos e descobrimos que o terreno tinha a ver com o Maluf e com um deputado da turma dele, e assim matamos o problema. Caiu para o lado de lá [para o lado do Maluf]. Com relação à Lubeca, eu entrei uma hora lá no estúdio e disse: “Olha, achamos o cheque da Lubeca.” Inventamos um blefe qualquer, de que a coisa estava resolvida. Ele se animou e gravamos para a semana inteira.
Vocês mentiram para ele?
Descaradamente [risos]. Dissemos que tínhamos achado o cheque. Quando terminou a gravação, eu contei a verdade.
E a derrota, como é que foi?
Quando terminou, o Lula foi lá para a minha casa da praia [Mercadante não revela em que praia, diz apenas que não se chega lá de carro, é preciso ir a pé], para descansar. Ele, a Marisa [mulher de Lula] e o Luís Claudio, o filho mais novo. Passamos lá uma semana. Aí ele me falou: “Você não pode ir embora para a Itália agora.” Queria que eu ajudasse na nova campanha dele, para deputado. Aí, passou um mês, e ele me falou: “Olha, quer saber de uma coisa, não vou ser mais candidato.” Ele completou: “Não é por aí que minha vida passa. Eu tenho que estudar o povo, visitar o Brasil, me preparar.” E sugeriu: “Eu acho que você tem que estar lá. Você tem que sair candidato.” Eu achei um absurdo, como é que ia explicar: “Sou candidato porque o Lula não quis ser”? Mas acabei concordando.
Adeus, Itália…
Meus filhos estavam na maior felicidade com a viagem. Era um sonho poder viver a fundo a criação deles. Eu tinha ficado fora de casa por praticamente um ano, só cuidando da campanha presidencial.
Sua família topa esses sacrifícios sem reclamação?
No dia da eleição presidencial, o Pedro acordou meio jururu. Meio-dia ele estava com febre, febre pesada, vomitou. Somatizou. Aí, no outro dia, quando começou a dar o resultado, com a gente perdendo, ele estava ótimo. Na escola, Mariana foi hostilizada no primeiro turno. Todo o mundo era Collor. Teve uma prévia. Ela ficou desolada. Veio me dizer: “O Lula não vai ganhar, pai, ninguém votou nele lá” [risos].
“De cada três crimes, a Odebrecht está envolvida em quatro. Eu não conheço um caso de empreiteiras em que ela não esteja”
O que a Regina achou da sua candidatura a deputado?
Ela disse: “Pelo amor de Deus, não vai ser candidato. Vamos embora para a Itália.” O sacrifício que eles fazem é grande. Eu mesmo. Cheguei em Brasília cheio de sonhos. Achava que ia ser um economista com novos planos para o desenvolvimento do Brasil. O primeiro projeto que apresentei foi para aumentar o salário mínimo pela evolução da cesta básica. Foi aproveitado só parcialmente. Nesses três anos de mandato, a parte mais importante das minhas energias eu gastei combatendo a corrupção. É um troço inacreditável. Não é só a que apareceu na CPI, é corrupção que aparece atrás de cada projeto de lei.
Até agora você não disse se está arrependido ou não por ter feito essa opção. Você deixou sua família em segundo plano.
Em política você é mais escolhido do que escolhe. Eu acho que foi uma realização. O impeachment do Collor foi um momento bonito. Agora, do ponto de vista da minha família, é muito difícil. O sacrifício que meus filhos são obrigados a fazer, o sacrifício da Regina e da minha vida pessoal, as pessoas não têm ideia do que isso significa. Mas, se eu me arrependo, isso eu não sei. Só o tempo dirá.
O Lula mora numa casa emprestada pelo empresário Roberto Teixeira. Isso não é uma coisa eticamente inadequada?
De jeito nenhum. Por que inadequada?
Você não acha que alguém que é candidato à Presidência da República deveria viver pelos próprios meios?
Você sabe por que é que o Lula foi morar lá? Ele tem uma casa de esquina em São Bernardo. Tem meio metro entre o muro e a sala dele. Não tinha a menor condição de segurança, o mínimo de proteção para o Lula. Recebemos inúmeras informações da Polícia Federal dizendo que tinham tomado conhecimento de tentativas de assassinato do Lula, sobretudo no final do primeiro turno, em 1989. Então foi uma exigência: “Lula, você vai ter que ir para uma casa que tenha segurança.” Foi aí que o Roberto Teixeira emprestou a casa. A princípio, não quer dizer nada o fato de morar na casa do Roberto Teixeira, que é padrinho dos filhos dele. Essas coisas as pessoas não falam. Ele conhece o Roberto Teixeira há 25 anos. Não é uma coisa que tenha começado agora na campanha presidencial. O cara tem mais dinheiro do que a média. Foi lá e emprestou a casa dele. Qual é o crime?
Você não acha que a CPI da Central Única dos Trabalhadores, a CUT, proposta pelo senador Esperidião Amin, será um bom momento para esclarecer dúvidas a respeito de finanças do PT?
Acho. Acho que vai ajudar a CUT a ter transparência. Com uma única coisa com a qual eu acho que vai ser preciso tomar cuidado, também. O dinheiro de campanha era uma contravenção porque a lei era hipócrita. Então, vamos supor que um sindicato da CUT apoiou o PT na campanha. Qual é a conclusão a que a gente vai chegar? Que a bancada do PT é lobista de trabalhador. Que está aqui pra defender trabalhador. Nós estamos aqui pra isso mesmo. Pra defender emprego, salário, jornada de trabalho, melhores condições de vida. Para mim, não tem o menor problema político. Diferente de quem recebe de bancos, da Febraban [Federação Brasileiras das Associações de Bancos], que está aqui para defender interesses que eu questiono. Eu nunca vi nenhum político subir no palanque dizendo que é candidato para defender os bancos. Já vi muitos fazerem discursos contra os bancos na época da eleição, e receber caixinha da Febraban, às vezes até confessadamente. O Fiúza [deputado federal Ricardo Fiúza, do PFL de Pernambuco] disse que recebeu 100 000 dólares da Febraban. Para dar um exemplo. Assumiu. Então, se é pra fazer uma CPI da CUT, façamos da Febraban, da CNI [Confederação Nacional da Indústria], da FIESP [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo].
O país resistiria a uma investigação até as últimas consequências?
Como assim?
Vamos dar de um exemplo. Ulysses Guimarães, um parlamentar que todo o mundo respeitava, morreu depois de passar um fim-de-semana numa casa emprestada por um empresário, viajando em um helicóptero emprestado.
Primeiro, ele nunca fez parte dessa corrupção. Segundo, o fato de você estar na casa de quem quer que seja, passando o fim-de-semana, não é crime. E pegar carona num helicóptero…
Não, não pegou carona. Ele solicitou o helicóptero.
Isso não é nada. Um cara que tinha 44 anos de vida pública!
E se ele tivesse um só?
Podia ter um só. Um empresário fazer um favor pra ele… A coisa que você precisa analisar é a seguinte: tem alguma decisão na vida pública do doutor Ulysses que favoreceu aquele grupo econômico? Se tiver, aí se configura, para mim, exploração de prestígio.
E se a Odebrecht oferecesse a você uma casa para passar o fim-de-semana e a Camargo Correa um helicóptero pra você ir, você iria?
Não, não iria.
Por quê?
No caso da Odebrecht, de cada três crimes, eles estão envolvidos em quatro. Eu não conheço nenhum desses últimos casos das empreiteiras em que a Odebrecht não estivesse na lista…
Então vamos por outro caminho: e se fosse o mesmo empresário que emprestou o helicóptero para o deputado Ulysses Guimarães?
Eu só andei uma vez de helicóptero.
Mas não é do helicóptero que se trata. É do empréstimo, do favor.
Eu não ando de aviõezinhos particulares pegando carona.
Quals eria o problema, se você andasse?
Eu não ando. Mas não vou criminalizar quem eventualmente andou. Eu condenaria o doutor Ulysses se tivesse alguma decisão, um projeto e lei, um voto, ou uma decisão na vida pública dele que beneficiasse esse empresário que, eventualmente, lhe fez um favor. Eu não tenho muitos amigos. E acho que não tem nenhum que tenha avião [risos], mas se tiver, eu pego. Eu assumo. Não tem o menor problema. É amigo meu.
Vamos falar de um boato que correu recentemente. A Rita Camata [deputada federal, lindíssima, do PMDB-ES] deu em cima de você?
Não, ela não deu em cima de mim, e eu não tive um caso com a Rita Camata.
Por que o boato, então?
Eu entrei aqui, ela é uma mulher bonita, apresentável. Saiu uma matéria na revista Interview Sexy, dizendo que a Rita Camata estava se separando do marido por minha causa. É uma coisa completamente escandalosa, e tem momentos em que você não sabe o que faz. Quer dizer: se você processa ou não a revista. Conversei com alguns amigos, e eles disseram que seria bobagem interpelar judicialmente a revista. Depois dei uma entrevista para a mesma revista e tiraram da matéria as referências que fiz a minha mulher. Colocavam uma coisa no abstrato, no genérico. Vieram para fazer isso, e fizeram. Sem nenhum respeito às coisas que eu falei. Fui falar até com o Gérson Camata [senador PMDB-ES]. Não sabia nem o que falar com ele lá: “Se você quiser a gente pode fazer alguma coisa juntos.” Ficou um ambiente desagradável.
Não houve nada?
Agora me convidaram para fazer outra entrevista, mas neguei. Eu não achei a revista séria. Aí, eles publicaram uma notinha fazendo mais insinuações sobre mim e a Rita Camata. Eu vou entrar com uma interpelação judicial. Eles vão ter que esclarecer.
De um jeito ou de outro, você é um homem que as mulheres sempre elogiaram. Você gosta disso? Se sente à vontade?
Nem acho tanto isso.
Você já se achou o rei da cocada preta?
Com o tempo, a gente começa a descer a ribanceira.
Mas já se sentiu bonitão?
Eu diria que não…
É do tipo que não pode se queixar [risos].
É uma boa resposta. Eu acho que essa coisa assim de atração, de sensualidade, de sedução, essa coisa faz parte da vida. Fez parte da minha juventude, mas não é uma coisa que marcou a minha vida.
Você é fiel?
Fiel a quê?
A sua mulher…
Sou. Evidente que sou. Não só fiel, como absolutamente apaixonado.
Dê um exemplo de uma mulher que, se lhe passasse uma cantada, teria alguma chance?
Prefiro não responder a esse tipo de bobagem. Acho que isso é uma bobagem.