A ciranda sexual de Brasília

A ciranda sexual de Brasília

O vaivém das noites brasilienses nos anos 1990 em reportagem publicada na revista PLAYBOY. A ilustração é de 2026.

Poder, dinheiro e sexo. Das três pernas que equilibram boa parte das personalidades em Brasília — se não em qualquer lugar do mundo —, a primeira é a mais fácil de observar. A densa atmosfera de poder da cidade é coisa que se percebe até por fotografia. O dinheiro… Bem, este, depois de duas CPIs sobre corrupção — e do ensaio geral de uma terceira, voltada para o Poder Judiciário —, já se sabe que transita em grandes volumes, não só por contas correntes, mas também por colchões, tetos falsos de armários e outros locais inusitados. Finalmente o sexo. Para quem vê Brasília pela televisão, fica a impressão de que essa é a menor preocupação dos engravatados, aparentemente ocupados demais em ganhar dinheiro e conquistar poder. Trata-se de um engano em cores e muitas vezes ao vivo. À capital federal gosta, sim, do assunto. E como gosta!

Em Brasília, o sexo convencional — seja qual for a idéia que se consiga fazer disso — só perde para o sexo, digamos, oral. Ou seja, o que os habitantes do planalto central mais fazem, depois de praticar sexo, é falar dele, o que pode ser explicado facilmente. Sexo na capital é elemento de status. Ter estado nesta ou naquela cama, com esta ou aquela pessoa, é parte do jogo de ascensão e reconhecimento social. Portanto, espalhar o que se fez, e com quem se fez, vale mais do que ter feito — e sobram casos de gente que espalha detalhes do que não fez, com quem nunca viu. Dá, rigorosamente, na mesma. Como uma relação sexual que se apresente precisa de pelo menos dois envolvidos, cada orgasmo equivale a, no mínimo, duas versões espalhadas na praça. Considerando-se que reproduzir, aumentar, menosprezar ou ridicularizar a reputação sexual dos outros também é um modo de revelar-se socialmente interessante, chega-se a um cenário de sauna mista.

Não é provável que isso ocorra apenas na capital federal, mas em pouquíssimos lugares se presta tanta atenção ao tema. Uma boa razão para essas antenas ligadas pode ser procurada de escandalômetro em punho. Parece impossível desvincular cada novo escândalo que estoura na praça de uma série de práticas sexuais se não incomuns, pelo menos inesperadas. Abra-se, por exemplo, o saco de maracutaias abastecido no governo Collor. E o que se vê, entre maços e maços de dólares? De um lado, a ministra da Economia trocando bilhetes amorosos com o titular da Justiça. De outro, a primeira-dama inquieta, desprezada pelo marido e com olhos gulosos para cima de um garotão mineiro. Aqui, o tesoureiro da campanha agarrado à perna de uma namorada paulista. Ali, o parente do presidente segurando a outra perna da moça e reclamando que a mulher oficial foi sexualmente assediada pelo irmão. Mais exemplos: o que se descobriu num apartamento do corrupto confesso do orçamento, José Carlos Alves dos Santos? Uma coleção de pênis de borracha, fitas pornográficas e um filminho do próprio José Carlos em plena função com uma amante. Fala-se de outra fita — mas não se encontra quem já a tenha visto —, na qual um dos sete anões do orçamento apareceria discursando de gravata-borboleta. Só de gravata-borboleta.

Também existe o caso do ex-secretário nacional de Direitos da Cidadania e Justiça, Carlos Eduardo Araújo Lima, flagrado pela polícia no Motel Colorado, em dezembro de 1992. Fazia-se acompanhar da mulher, de uma prostituta, de um tubo de xilocaína, de um vibrador e de porções de maconha e cocaína. Então encarregado da classificação etária de espetáculos e do departamento de entorpecentes do Ministério da Justiça, Araújo Lima estava realizando uma fantasia, segundo a explicação que deu depois — e que não foi suficiente para garantir sua permanência no cargo.

O que se conclui desse pequeno mostruário do Kama Sutra é que, toda vez que se levanta o pano por baixo do qual as coisas erradas acontecem, é inevitável pegar uma porção de gente pelada em Brasília. Existe, então, alguma razão para isso — e essa explicação é outro tema recheado de possibilidades. Lobistas, por exemplo, que são mestres em encontrar justificativa para qualquer coisa, apelam sempre para o argumento do homem só — e da mulher também, diga-se a bem da verdade. “Funcionários ou parlamentares, umas 50 mil pessoas moram na cidade apenas três dias por semana”, explica um desses especialistas em cortar caminho na burocracia federal. “Trabalham como cães e, depois de uns meses de resistência, sempre chega o dia em que, no final do expediente, imaginam que merecem dar-se um presente especial.” Por esse tipo de explicação se resolve o caso daquela deputada que uma noite se sentiu carente e chamou à sua casa um rapaz encarregado de preparar cartazes para sua tentativa de reeleição.

Ela abriu a porta com um olhar lânguido, de pegnoir e batom vermelho. Uma fraca luz de velas, atrás da deputada, deixava que o rapaz visse sobre a mesa um balde de gelo abrigando uma garrafa de champanhe nacional.

— Boa noite, meu amor — ela disse.

— Eu trouxe o que a senhora pediu — ele respondeu.

— Estou vendo.

— Preciso esperar a senhora aprovar para me pagar? — ele quis saber.

— Aprovado já está. Entra que eu vou dar o pagamento.

E deu.

NÃO EXISTE TIA NO PORTÃO. PONTO PARA A LIBERALIDADE

Para a sexóloga Maria Isabel Cavalcanti, o que acontece em Brasília exige uma explicação que combina a psicologia de cada um com questões sociológicas. Conhecida como cidade sem avós, por sua pouca idade, Brasília não tem tantas amarras familiares quanto outras localidades. Se os solitários, como essa deputada, não se sentem obrigados a manter-se fiéis a eventuais parceiros distantes, os jovens, do mesmo modo, raramente têm uma tia no portão preocupada com a vida dos sobrinhos. Isso dá ponto para a liberalidade. Além disso, por exibir poucas alternativas de lazer, a cidade induz a casamentos precoces, cujo resultado são separações mais precoces ainda. Ponto para a disponibilidade. A tudo isso se mistura a constatação de que o exercício do poder tende a fascinar alguns e a deslumbrar outros. “E esses são dois elementos capazes de alterar o comportamento sexual”, diz Maria Isabel. Ponto para o exibicionismo.

Por fim, a eterna crise brasileira é politicamente mais visível em Brasília. É lá que o ministro e toda a sua legião de assessores sentem a cabeça a prêmio a cada soluço do presidente da República, assim como os parlamentares ficam contando quantos votos vão perder quando aprovam medidas impopulares. Os burocratas, por seu lado, nunca sabem qual será o chefe do dia seguinte nem quando conquistarão seu próximo DAS (a classificação funcional que equivale a aumento de salário), e muito menos se a próxima reforma administrativa não vai ceifar justamente a horta da sua sinecura. Ou seja, há mais gente rstressada na cidade do que em outros lugares. “O estresse leva à busca de válvulas de escape, entre as quais o sexo é uma das mais comuns”, acrescenta a sexóloga. Ponto para a necessidade e, até aqui, um total de quatro explicações para a inflação local da libido.

O curioso é que, nesse coquetel de estímulos, acontece, às vezes, de um ou outro sujeito muito poderoso, sem nenhum lastro familiar, estressado e disponível, acabar desenvolvendo uma síndrome de absoluta inapetência sexual — por incompatibilidade entre sua formação pessoal e o ambiente. “Conheço muitos casos assim”, diz a doutora Maria Isabel. “A pessoa tanto pode ser atacada por uma crise de ansiedade, diante de tantas pressões, quanto desinteressar-se desse aspecto da vida.” Ponto, portanto, para a inibição. Placar final: 4 para o time dos estímulos sexuais contra 1 para a equipe da castidade. É uma goleada em muito facilitada pelo tipo de vida que se leva em Brasília.

A ex-colunista social e hoje assessora da Vasp Consuelo Badra atribui o clima de liberalidade sexual da cidade à mera acomodação das mulheres diante do frágil caráter dos maridos. “Muitas nem fazem questão de vir com eles para Brasília, para manter o círculo de amigos e as atividades nas suas cidades de origem”, ela analisa. “Também não se incomodam muito com o que eles fazem por aqui, porque têm medo de perdê-los, junto com as mordomias.” Nessas condições, muitos parlamentares acabam constituindo uma segunda família na cidade. Um deles chegou a levar uma amiga a uma solenidade no Itamaraty, antes da separação. Numa situação parecida, um ministro de Estado tem um caso tão antigo com uma assessora que já houve secretárias ligando para ela para perguntar a data do aniversário de casamento dos pombinhos.

Juntando pedaços das diversas teorias disponíveis, compreende-se por que tantas autoridades deixam mulher e filhos para casar-se com secretárias ou assessoras. “É que essas auxiliares acabam ficando mais tempo e mais próximas do homem do que as próprias esposas”, calcula o chefe de um escritório de representação de uma grande empresa do setor automobilístico. “Elas compram as camisas, o desodorante, o aparelho de barba e, com o tempo, até as cuecas do chefe, que não tem disponibilidade para isso”, ele explica. “Quando a mulher oficial se dá conta, já não se lembra mais nem do número do sapato do marido.” Foi assim que um dos mais importantes políticos da história do país acabou tendo, no dia de seu enterro, duas viúvas ao lado do caixão.

EXPLICAÇÕES GEOLÓGICAS PARA UMA CATAPULTA DA LIBIDO

Como à necessidade de uns sempre se pode agregar à facilidade proporcionada por outros, existe em Brasília uma legião de intermediários disposta a se aproveitar da carência sexual alheia. “Qual ministro resiste a uma loura que entra no gabinete como secretária de um empresário, cruza as pernas cinematograficamente, esquece dois botões da blusa desabotoados e reclama de não ter companhia para jantar?”, pergunta um assessor parlamentar cuja agenda tem pelo menos três louras que realizam essa performance por 200 dólares. “Depois que um ministro saiu com a secretária de alguém, a conversa entre os dois ganha uma intimidade insuperável.” Numa aplicação muito mais sofisticada desse golpe, houve uma alta autoridade do ciclo militar que simplesmente acreditou ter conquistado por seus próprios méritos uma atriz, na época em evidência. Só muito tempo depois comentou com um ministro ter concluído não ser mera coincidência a amizade de sua namorada com um grande empreiteiro.

Por razões que nem elas mesmas conseguem explicar, as mulheres não se rendem exclusivamente às justificativas da lógica, mesmo diante de evidências matemais. Entre as que se envolvem no revezamento sexual de Brasília, é comum ouvir também arrazoados intuitivos e metafísicos para o seu próprio apetite. “Não sei o que me dá”, diz a secretária de um órgão do judiciário que teve um tórrido caso de amor com um contra-almirante. Tão tórrido que, por alguns anos, queimou todas as possibilidades de promoção do oficial, além do casamento do amado. “Sinto-me livre aqui, sem as amarras convencionais de outras cidades.” Outras mulheres que dizem sentir a mesma coisa costumam pôr a culpa em duas forças sobrenaturais. À primeira é uma enorme reserva de cristal, capaz de concentrar as energias sexuais do planeta. Brasília teria sido construída bem em cima dessa jazida afrodisíaca. A segunda força define-se por uma mistura de geografia com psicologia de almanaque. Seria uma enorme catapulta da libido, resultante do fato de Brasília assentar-se sobre o centro geodésico da Terra.

SEXO ORAL NO MERCEDES-BENZ E ACROBACIAS NUM JATINHO

“Nem uma coisa nem outra”, contesta um parlamentar mais disposto a usufruir das facilidades do que teorizar sobre elas. “A reserva de cristal é o poder de cada sujeito e o centro geodésico é a carteira que ele leva no bolso.” De todas as explicações, esta não é a mais romântica, e talvez nem mesmo a mais próxima da realidade, mas tem lá os seus méritos quando põe no mesmo balaio poder, dinheiro e sexo — aqueles três elementos mais palpáveis, ou apalpável, no caso do último, pelos quais se começou a explicar a fenomenologia sexológica do Distrito Federal. É uma sorte, aliás, que as explicações tenham essa trajetória circular, porque daqui para diante o que se vai ver é justamente uma ciranda — uma das cirandas sexuais que agitam lençóis e travesseiros na capital do país. Como nos casos anteriores, preserva-se a identificação dos envolvidos em casos que nunca se tornam públicos. Deduragem, sobretudo em assuntos de natureza íntima, não fica bem em Brasília nem em qualquer outro lugar.

Há alguns meses, os passageiros de um ônibus que passava pelo Distrito Industrial tiveram um momento de lazer explícito no caminho, quando o veículo parou ao lado de um automóvel Mercedes-Benz estacionado no meio-fio. Dentro do carro, a mulher de uma das mais importantes autoridades do Judiciário, quarentona, mirrada, mas muito bem-disposta, exercitava sexo oral — o propriamente dito — com um empresário conhecido na cidade. Casado com uma mulher cuja tolerância é tratada a casacos de pele e viagens freguentes para de exterior, o hormem de negócios disputa com um deputado o privilégio de ter inaugurado o sexo aéreo. Com sua mais duradoura amante, o empresário passou anos fazendo três decolagens semanais de jatinho, sempre à tarde, para sobrevoar a cidade durante menos de uma hora. “Bimbavam em cima das nossas cabeças”, conta o deputado, que sustenta ter usufruído de grande conforto a bordo de seu próprio avião, até que uma de suas ex-mulheres descobriu a vadiagem.

“Eu decolava em boa companhia, mandava o piloto olhar só para a frente, colocava a moça de costas, no corredor, apoiada nas poltronas, e nhac, ia só aproveitando o balanço gostoso da viagem”, ele descreve. Animado, o deputado levanta-se atrás da escrivaninha de seu gabinete apertado, estende os braços com as mãos em concha, agarra com gosto uma cintura imaginária e faz o possível para encenar sozinho as acrobacias aéreas praticadas a dois. Um dos aliados mais incisivos na defesa do ex-presidente Fernando Collor também acreditava que havia um vírus de suplementação sexual à altura das nuvens. Num de seus exercícios de conquista, pediu emprestado o jatinho de um empresário, mandou decorar o interior do avião com rosas vermelhas e foi buscar a amada na capital baiana, para uma jornada de amor a bordo.

Voltando ao fio da meada, a tal amante do empresário um dia se encheu do banco de reservas e decidiu enciumar o amado com um ministro de Estado, na época considerado um dos partidões de Brasília. O caso durou pouco. “Ele lia salmos da Bíblia na cama”, queixou-se a moça com uma amiga, anunciando que trocava o ministro por um deputado paulista mais jovem e fogoso. Esse parlamentar é um caso raro. Faz o gênero come-quieto. “Quem, eu?”, ele pergunta quando é convidado a narrar suas aventuras. “Não sou de nada.” A custo, porém, dá uma ideia das facilidades proporcionadas pelo mandato, ainda mais para um homem solteiro. Numa ocasião, recebeu um telefonema de uma desconhecida que lhe pedia um encontro. “Eu pensava que isso só acontecia com artistas”, diz. De outra vez, atendeu à campainha do apartamento às 3 horas da manhã. Era uma garota insone, que só queria dizer-lhe que o amava e foi embora correndo, chorando, para estupefação do empijamado parlamentar.

“Depois, descobri que ela pertence a uma família tradicional, tem 20 anos e, segundo todos os comentários, ainda é virgem”, conta o deputado, com olhos de quem perdeu o trem para o Paraíso. Oportunidades assim, conforme a experiência desse congressista, não aparecem para qualquer um em Brasília. “Esta cidade exige que a gente ande de camisinha no corpo inteiro”, ele acrescenta, explicando ter conhecido muitas garotas bonitas, interessantes e até com crachá de órgão público na bolsa — bem ao lado de uma tabela de preços. Ele jura que conseguiu tudo o que teve até hoje apenas por amor, mas revela conhecimentos excepcionais sobre as meninas que fazem michê.

“Isabel para os clientes”, apresenta-se a falsa loira de 1,70 metro, rostinho redondo, simpaticamente estrábica e de pernas longas e rijas — pelo menos enquanto envolvidas pela meia-calça —, no meio da balbúrdia da Boate Queen’s, na Asa Norte da cidade. Secretária de uma repartição ligada ao Ministério da Agricultura durante o dia e prostituta à noite, Isabel é uma das poucas mulheres, entre uma centena na boate, que também caça clientes nos restaurantes e bares sofisticados onde o deputado de São Paulo confessa ter feito “entrevistas” com outras profissionais. “Eu já vi esse sujeito olhando para algumas amigas”, garante Isabel, sem saber no que deu o flerte. A grossa camada de batom azulado de seus lábios parece aplicada para combinar com o insólito ambiente à volta. Refúgio seguro apenas para vereadores, prefeitos e deputados estaduais que não correm o risco de ser reconhecidos numa casa de finalidades tão evidentes, a Queen’s é um amontoado de sofás de tecido estampado, voltados para um ringue de boxe que faz as vezes de palco e pista de dança.

O VESTIDO DE MALHA PRETO PROVOCA SEM ESCANDALIZAR

Mulheres vestidas, seminuas e nuas, em tonalidades e formatos para todos os gostos, circulam ou dançam empoleiradas em banquetas espalhadas pelo salão em “L”. Com a ajuda de Isabel, pode-se identificar num sofá um prefeito do interior de Goiás, na casa dos 50 anos, cabelos e bigode grisalhos, “que gosta de beber, sair com duas de uma vez e ameaçar calotes nas meninas”. Noutro sofá, atracado a uma morena de vestido preto imitando couro, está um funcionário do governo do Distrito Federal. “Quando não tinha tanto escândalo, ele vinha de carro oficial”, garante Isabel. Bem no fundo da parte esquerda do salão, numa situação em que é difícil descrever quem está sentado no colo de quem, um grupo de quatro italianos troca frases incompreensíveis e carícias de significado evidente com uma porção variável de acompanhantes. Latas de cerveja importada, pretas e douradas como boa parte da decoração da boate, circulam por mãos e bocas com a mesma rapidez que as mulheres. Isabel acha o lugar um baixo-astral. Prefere o sofisticado restaurante Florentino, na Asa Sul, uma casa chique, discreta e com clientes mais selecionados, mas nem por isso livre de garotas de programa.

Isabel não vai ao Florentino de batom azulado nem com a explícita microssaia marinho escolhida para mostrar as coxas na boate. No restaurante, aparece num vestido de malha, preto, que provoca sem escandalizar. Ela age com cuidado, escolhendo um posto estratégico no bar de dois ambientes, sofás de couro marrom, mesinhas de tampo verde e paredes recobertas de tecido com estampado escocês. O segredo, até para satisfazer o imaginário dos clientes, é fazer de conta que não é o que é. As aparências exigem que vá ao lugar com um grupo de amigos — um ou mais homens entre eles, obrigatoriamente —, finja interesse natural por algum freguentador de outra mesa e faça ou receba a aproximação com casualidade. Isso inclui ouvir longas cantadas e requer muita sensibilidade para expor uma condição financeira difícil. A alma do negócio consiste em confessar que se prostitui por absoluta necessidade e que o programa, com aquele cliente potencial, será um momento de amor. Só que a vida — tão difícil — não permite que ela abra mão de uma recompensa financeira. “Não é sempre que dá certo”, admite Isabel, “mas tenho amigas que até arrumaram casamento com essa conversa.”

Um ex-ministro de origem nordestina, habituado a perseguir mocinhas de fazenda no seu Estado de origem, costuma descrever para os amigos um comportamento que revela como essas sutilezas funcionam sobre determinado tipo de presa. “Não pago mulher”, vive garantindo esse político hoje entretido com denúncias de corrupção. “Mas quando a moça é boazinha e está passando dificuldades, não posso deixar de dar um presentinho para ajudar nas despesas.” O presentinho nem sempre é dinheiro. Depende do caso. “Posso dar um perfume caro, pagar umas despesas ou até ajudar a conseguir um emprego melhor”, explica um deputado que se empenha em procurar essas “amigas” entre secretárias e recepcionistas dos ministérios. “Nunca no meu gabinete”, ele faz questão de esclarecer. “Lugar de trabalho não é ponto de sacanagem.” Já que a corrente de relacionamentos sexuais acaba passando de volta pela Câmara, vale a pena descrever uma estratégia comum numa porção de gabinetes.

“GOSTO DE MULHERES BONITAS E, SE POSSÍVEL, GENEROSAS”

Durante muitos anos, os chamados funcionários de confiança dos deputados não tinham nenhum direito trabalhista. Eram inscritos na folha de pagamentos por uma carta do parlamentar à direção da Casa e desligados da mesma maneira, sem nenhum pagamento adicional. Recentemente, conquistaram o direito a aviso prévio. Não era incomum, antes disso, encontrar deputados com uma vaga reservada para a amante da temporada, e mesmo alguns com os lugares todos preenchidos apenas por namoradas. “Exageram a minha fama, mas é natural que a gente goste de mulheres bonitas e, se possível, generosas sempre por perto”, diz um político que ganhou notoriedade por esse expediente e chegou até a abastecer os gabinetes de alguns amigos. Foi com uma contribuição dele, aliás, que se ampliou a rede de prostituição interna flagrada pela Folha de S.Paulo em agosto do ano passado. O esquema tinha duas variantes. Numa, parlamentares, lobistas ou empresários interessados em obter companhia profissional faziam contato com uma garota que dizia chamar-se Rayanne e vivia de bicos pelos corredores do Congresso. Na outra, podiam ligar para o telefone 318 5166, que tilintava na Liderança do PTB na Câmara.

Na Liderança, a funcionária Maria Bethania Dias ouvia a descrição da mulher desejada e providenciava a encomenda. Esse escândalo provocou uma gigantesca onda de indignação na Casa — sobretudo entre os usuários do serviço. “Aquilo foi uma baixaria, uma injustiça com pobres moças, que caíram numa arapuca”, revoltou-se um dos mais assíduos clientes das garotas, quando soube da reportagem. Depois que a poeira assentou, Rayanne voltou a ser vista nos seus pontos habituais. “Essa não era a principal rede em operação em Brasília”, explica o lobista de uma grande construtora com escritório na capital. “Há serviços muito melhores e bem mais discretos”, diz ele, oferecendo um papelzinho com um nome de mulher e um telefone anotados. Apressado para uma reunião em São Paulo, ele se compromete a falar com a cafetina no dia seguinte, como intermediário de uma proposta de entrevista. “Nem em sonho”, é a resposta da mulher à consulta. “Tenho um nome a zelar e um compromisso muito grande com a discrição.”

Alguns especialistas em mundanalidade na capital garantem que a central de abastecimento sexual informada pelo lobista é a mais quente da cidade. A dona esconde essa atividade sob a fachada de uma loja. “Ela é do ramo”, assegura uma amiga muito próxima. À cafetina age em sociedade com a mulher do dono de um restaurante. Apesar do prestígio, a casa vive um momento financeiramente difícil. Atolado em papagaios, o proprietário do restaurante fez da mulher sua negociadora da dívida, e ela se empenhou a fundo em livrar a cara do marido. “Pode-se dizer que ela entrou nisso de corpo inteiro”, observa, dentro do restaurante, um desses representantes comerciais típicos de Brasília, especializado em negócios que envolvem mais propinas do que serviços. “O diretor do banco admira muito seu jogo de cintura e os movimentos que ela faz para ajudar o marido.”

O ACORDO DE CAVALHEIROS VALE DE TERÇA A QUINTA-FEIRA

Qualquer restaurante caro de Brasília merece um capítulo especial. Ao final do dia, de tudo o que se falou nos plenários, nos gabinetes, nos palácios e também nos quartéis. fica valendo mesmo o conchavo, o acerto, o negócio, a votação, o parecer combinado na mesa do Florentino, do Gaf, do Piantella, do Otelo e de outros menos cotados, entre goles e garfadas. Mais goles do que garfadas. No aspecto sexual das atividades políticas e econômicas não é diferente. “Temos um acordo de cavalheiros definitivo”, discursa um deputado amigo de vinhos portugueses e loiras brasilienses. “De terça a quinta, quem tem esposa na cidade está proibido de levá-la nesses lugares.” A regra funciona. Dois dias depois de expor essa máxima, o próprio deputado podia ser visto numa mesa do Piantella acompanhado de uma loirinha com idade para ser sua neta. Mesmo sem esposas por perto, às vezes essa prática dá confusão.

Uma história ilustrativa a respeito é a de um jovem deputado nordestino, casado e ambicioso. Muito apaixonado por uma secretária que pode ser descrita como um avião dourado, esse parlamentar não resiste à tentação de exibi-la para amigos e inimigos. Levou-a certa vez para um jantar no Florentino na companhia de um colega também engalfinhado com uma mulher que não lembra em nada sua própria patroa. O álcool, sabe como é, enfuna as velas da líbido. E os casais se entregaram com gosto a uma demorada sessão de amassos em público. Nem perceberam a aproximação de um colunista social e sua máquina fotográfica. A luz do flash acordou-os para a realidade. Resultado: uma câmara quebrada, um filme velado e um jornalista com uma grande história, alguns hematomas para testemunhar a seu favor, mas nenhuma disposição de escrever sobre o que viu. Se o fofoqueiro calou-se a tapas, também há casos de jornalistas tratados com carinho.

No preâmbulo do governo Collor, dois jovens jornalistas foram informados de uma churrascada que se realizaria na tarde de uma quinta-feira na mansão do empresário João Carlos Di Genio, dono da rede Objetivo de escolas e, na época, um nome cotado para o Ministério da Educação. Di Genio, que tem uma lona de circo armada no quintal, é um celebrado patrocinador de festas muito animadas, às quais levar a mulher é uma gafe e uma garantia de constrangimento. Lá pelas 17h00 chegaram os dois rapazes, de terno, à casa do empresário, na esperança de cavar bastidores políticos para suas publicações. Depararam com pouca gente, nenhuma notícia política e muita alegria. À beira da piscina, deitado de bruços numa espreguiçadeira, enfiado numa sunga, espairecia, por exemplo, um chefão de um dos quatro maiores jornais do país, docemente massageado nas costas por duas garotas de biquíni. Desconcertados, os jornalistas mastigaram uns poucos pedaços de carne e saíram sem a menor intenção de testemunhar o que ocorreria depois.

GOVERNO NOVO: A EMPREITEIRA REABRE SUA “CASA DE VISITAS”

Festas como as de Di Genio deixam o pessoal muito mais à vontade do que nos restaurantes. Antes da era Collor, que centralizou os negócios com o governo apenas em PC Farias e burocratizou o relacionamento com a iniciativa privada por meio de tabelas impessoais de propina, era comum a promoção de grandes recepções em mansões do Lago Sul. Com mulheres contratadas para argumentar na horizontal com governantes, funcionários públicos e parlamentares, os lobistas e grandes empreiteiros tornaram-se patrocinadores de farras inesquecíveis. Com o advento do governo Itamar, alguns personagens que andaram com saudade desse período romântico já estão reencontrando a oportunidade de desafogar tensões com patrocínio alheio. Uma empreiteira das grandes tinha fechado sua “casa de visitas” na saída de Brasília para Belo Horizonte. Há alguns meses, muito discretamente, reiniciou essas atividades, agora em novas instalações. “Estão recebendo os amigos numa mansão da saída para Sobradinho”, conta o lobista de uma empresa sediada em Minas que ainda aguarda o convite para uma festa.

Um frequentador assíduo desse tipo de estabelecimento gostava de chamar esses momentos de relaxamento de tardes londrinas, não se sabe exatamente por quê. Antes que o destino lhe entregasse grandes responsabilidades, era comum ver esse político do Nordeste deixar o gabinete no Congresso no começo da tarde, com destino ignorado até pela maioria dos assessores. Grande apreciador de profissionais, certa vez desapareceu da comitiva durante uma viagem ao interior paulista. Foi encontrado tarde da noite, por outro grupo de viajantes que decidiu fazer uma expedição a um dos maiores centros de lazer sexual da época, a Casa da Eny, na cidade de Bauru. Em Brasília, seu ponto favorito era a Mansão da Edna, uma cafetina que uns dizem ter-se aposentado, mas pelo menos uma amiga garante que ainda faz eficiente atendimento telefônico.

São tantos os novelos de trocas sexuais na corte brasiliense que é quase impossível puxar um fio sem passar por essas ramificações. Voltando, porém, ao caso do diretor do banco com a mulher do dono do restaurante, cabe registrar que ela e sua sócia foram duas das principais fornecedoras de meninas para sessões de sexo e musculação na academia de ginástica que o ex-presidente Collor construiu no Palácio da Alvorada. Havia um tesoureiro que escolhia e pagava as garotas e um ajudante-de-ordens encarregado de levá-las e tirá-las do palácio sem despertar suspeitas. Mais complicada do que essas operações, só mesmo aquela que levou o então presidente a enfurnar-se numa suíte do Plaza de Nova York, em 1990. Tem-se quase como certo que sua companhia na ocasião era a hostess do hotel, a brasileira Celyta Jackson. Alguns insistem que a parceira era uma conhecida dama da sociedade paulistana. Espertamente, a exuberante Celyta não deu aos desmentidos a mesma ênfase que usa agora para negar seu affair com o então chefe do cerimonial do governo do Distrito Federal, Luís Mário Pádua. “Ela atacou o rapaz em pleno restaurante”, assegura uma das testemunhas do almoço histórico.

SE MUDAREM A CAPITAL, QUEM REENCONTRARÁ PRÓPRIA CAMA?

“Essa fama não me agrada nem um pouco”, diz Luís Mário, falsamente modesto. Menos do que o caso Celyta, seu calcanhar-de-aquiles é a história com a ex-primeira-dama Rosane Collor. Nenhum dos dois jamais vai admitir o caso publicamente, é óbvio, nem conseguirá explicar a misteriosa fuga de Luís Mário para Belo Horizonte, de carro, no dia em que o presidente tomou conhecimento da história. Nas suas memórias tão precoces e escabrosas, o irmão caçula do ex-presidente, Pedro, narra curiosos hábitos de Fernando com amizades masculinas. Existe um cabeleireiro brasiliense que não pode falar do presidente “impichado”, mas jura para algumas clientes que um dos amigos dele de fato é entendido no assunto. “Até hoje o cabeleireiro guarda bilhetes desse seu ex-amante”, conta uma das socialites mais bem informadas da cidade. “Não pretende fazer chantagem, agora que o amigo é famoso, mas gostaria muito de reviver aquela paixão.”

Rico e sem preconceitos, esse amigo colorido do ex-presidente tem uma curiosíssima trajetória sexual. Dos embalos e sessões de vale-tudo da juventude, saltou para um casamento de curta duração. Depois, tornou-se noivo, simultaneamente, de duas herdeiras de sobrenomes lustrosos. Venceram as ambições políticas do rapaz. Para a noiva abandonada, ele foi apenas mais uma cabeça famosa. Na sua galeria de troféus, já estavam o filho de um ex-ministro e um auxiliar de Collor. Depois disso, a moça fez uma longa escala técnica nos braços de um senador do PMDB.

Hoje, esse senador, casado e envolvido nessas coisas de impeachment e caçada aos corruptos do orçamento, às vezes divide lençóis, de terça a quinta-feira, com uma exuberante morena que gostava de viajar de avião com um sujeito que levou uma dama da sociedade judiciária para um passeio de Mercedes no Distrito Industrial. Com esforço, alguém pode se lembrar que foi por aí que a ciranda começou a ser descrita. Mas é um engano redondo e absoluto imaginar que é nesse ponto que a troca de parceiros termina. “Para conter essa farra em Brasília, só mesmo devolvendo a capital federal para o Rio de Janeiro”, calcula um observador dos costumes da cidade. “E, mesmo assim, vai sobrar gente que nunca mais será capaz de reencontrar a própria cama.”

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