O outono do Dragão

O outono do Dragão

Vende-se um sítio de 30 000 metros quadrados, com casa grande, lareira, acabamento em pedra e madeira, mais duas edificações em alvenaria para acomodar hóspedes e empregados.
A área é totalmente ajardinada, com flores, espécies nativas e árvores aclimatadas, tem piscina, sauna e lago para piscicultura e passeios de barco.
Possui, ainda, minicircuito hípico, cinco baias e acomodações de tratador, além de galinheiro, canil e total segurança.
Toda a frente tem muro de pedra e alambrado. Fundos e laterais são cercados de arame.
Em região de ótimo clima, a 30 minutos do centro de Petrópolis, no Rio de Janeiro, o sítio está instalado em condomínio com cancela, guarita e vigilância, distante da portaria e com acesso pavimentado nos trechos mais íngremes.
Localizada num fundo de vale, a propriedade conta com nascente dentro dos seus limites, água em abundância, luz, elétrica e todas as comodidades.
O proprietário prefere negócio com porteira fechada e pode vender junto sua biblioteca de obras históricas e tratados de matemática.
Não há nada comparável nas imediações por menos de 250 000 dólares. O dono já falou em pedir quatro vezes esse valor, mas aceita ofertas.
Também há opção para desmembramento da gleba, em dois lotes de 15 000 metros quadrados e divisão das benfeitorias.
Tratar no Condomínio Praia Guinle, em São Conrado, Zona Sul do Rio, com João Batista de Oliveira Figueiredo, general-de-Exército da reserva e ex-presidente da República.

Ele está cansado de sustentar um elefante branco que nem a mulher nem os netos têm interesse em visitar

O anúncio acima não foi publicado em nenhum jornal mas corre de boca em boca entre parentes, amigos e ex-colaboradores do ex-presidente.
Figueiredo gostaria de vender seu histórico Sítio do Dragão, o refúgio que possui há trinta anos na Serra da Mantiqueira, para arranjar algum dinheiro.
Não é o caso de fazer vaquinha para ajudá-lo nas despesas nem de inscrever o ex-presidente como beneficiário da campanha do Betinho.
Mas, depois de deixar o fausto, a mordomia e os aborrecimentos do poder, o general João Figueiredo juntou a seus problemas de saúde e temperamento também algumas dificuldades financeiras.
Enquanto o país experimenta um presidente novo, ainda na fase de lasseamento, é bom dar uma olhada neste e em outros aspectos da vida de um mais rodado, no mínimo para saber o que sobra de pompa e prestígio quando as mãos que conduziram um dia o Brasil seguram apenas as rédeas de seu próprio destino.

“Não é um vexame só para ele, mas para o país”

Embora haja fartura de ex-presidentes, Figueiredo é o melhor exemplo por méritos diversos.
Leva, de saída, a vantagem de ter sido o último presidente do ciclo militar, de triste memória mas necessária lembrança.
Ao lado disso, satisfaz o gosto nacional por efemérides, com a década exata decorrida, neste 1995, desde sua saída do Palácio do Planalto.
Por fim, comporta-se, apesar do humor e de uns poucos escorregões, com boas doses de dignidade: não se mete em negócios privados que poderiam levantar a hipótese de remuneração por migalhas de influência; não se envolve em politiquinha regional nem na disputa de cargos menores; não topa fazer biscates para engordar a aposentadoria nem pede o favor de um emprego de consolação; e muito menos dá a volta ao mundo com dinheiro de origem inexplicável.
Quanto ao Sítio do Dragão, aos menos íntimos se alega que Figueiredo, aos 77 anos, adoentado e com os filhos crescidos, não tem mais interesse em manter a propriedade, que ultimamente o obriga a curtas, mas frequentes e cansativas viagens de carro entre o Rio e o distrito de Nogueira, em Petrópolis, apenas para pagar funcionários, checar e distribuir tarefas.
Medicamente impossibilitado de montar, com amigos já não muito dispostos a enfrentar estradas, dois filhos e seis netos que têm outras alternativas de lazer, na cidade, e poucos vizinhos interessados em fardas e cavalos, o ex-presidente estaria, segundo essa versão, com o “saco cheio” de sustentar um elefante branco no qual nem mesmo dona Dulce, sua mulher, tem interesse em pôr os pés.
Nenhum desses argumentos é falso, mas o que acontece mesmo com Figueiredo é mais precisamente uma questão de “saco vazio” — ou melhor, de cofre vazio. General reformado, o ex-presidente recebia, em valores do início deste ano, um soldo que não chega a 4 000 reais por mês — conforme informações de outros oficiais que passaram para à reserva depois de carreiras semelhantes à sua.
“É um valor alto, se pensarmos que os salários no país têm parentesco com a pena de morte, mas fica ridículo quando se trata de sustentar a dignidade de quem foi a maior autoridade do país”, analisa, de sua casa, afastada do centro do Rio, um dos militares que estiveram no centro dos acontecimentos durante a ditadura que Figueiredo encerrou ao deixar o governo, em 15 de março de 1985.
“Mesmo quem se ache coberto de razões para odiá-lo há de concordar que ele não deveria passar por constrangimentos financeiros. Não é um vexame só para ele, mas também para os outros ex-presidentes, o presidente atual e, em última instância, a própria instituição da Presidência da República.”
Não há como discordar, pelo menos, com o fato de que Figueiredo é obrigado a gastar mais do que ganha e isso não acontece por imprevidência financeira de sua parte.
Apaixonado por equações, matrizes, identidades e outras operações com números, o ex-presidente não pode ser acusado de errar contas justamente no seu orçamento familiar,
Ao contrário. É um bom equilibrista, a julgar pelo patrimônio que concretizou com o salário da caserna.
Tem o sítio e um apartamento de luxo em São Conrado, com quatro quartos e 298 metros quadrados de área construída, num conjunto de edifícios onde vivem celebridades como a cantora Gal Costa, o vice-presidente da Rede Globo de Televisão, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e o humorista Chico Anysio, a maior parte delas em apartamentos maiores que o dele.
O Praia Guinle é um desses lugares de taxas salgadas, com despesas de condomínio que vão de
550 a 1000 reais por mês. Além dessa conta, ele e dona Dulce bancam o custo de uma diarista que visita o apartamento duas vezes por semana e pagam o salário de três empregados do sítio — “todos com carteira assinada, porque ninguém ia perder a chance de me pegar numa infração dessas”, conforme o ex-presidente faz questão de explicar aos amigos.
Às vezes, Figueiredo enfrenta ainda alguma despesa extraordinária, e aí junta mais algumas boas razões para vender seu retiro de Petrópolis.
Há alguns anos, resolveu, por exemplo, criar peixes no belo lago da propriedade, até então ocupado apenas por um bando de gansos.
Comprou os alevinos, soltou-os na água e perdeu o investimento.
Não são muitas as pessoas que sabem — e Figueiredo agora é uma delas —, mas ganso come peixe.
Pouco tempo depois, Petrópolis viveu uma daquelas temporadas periódicas de chuvas descomunais, que levaram água abaixo os gansos, o lago e mais uma série de benfeitorias do sítio.

“Vivem de comida congelada, que é mais prática”

Teve mais sorte com coelhos, que andou abatendo e comendo quase na mesma velocidade de reprodução dos bichos.
É de se supor, porém, que o apreço pelos cavalos, tantas vezes revela do pelo ex-presidente, leve a alguma incompatibilidade com animais de pena, já que com as galinhas as experiências de Figueiredo também não podem ser consideradas um sucesso.
É que o galinheiro fica bem na divisa, dando fundos para uma picada entre sua propriedade e a de um vizinho. A tela grossa, de alambrado, não resiste a ladrões mais audaciosos e exibe uma série de remendos de arame, como cicatrizes.
Um dos buracos é tão grande que o caseiro teve de improvisar, alinhavando à tela uma grelha de churrasqueira.
Uma grossa camada de ferrugem testemunha que esse conserto há muito deixou de ser provisório — talvez porque já não se façam tantos churrascos no sítio.
De todas as privações impostas pela idade e pelas doenças que mais adiante se enumeram, esta — pouco churrasco — é a de que o presidente mais se queixa.
“Ele é tarado por came, mas cada vez pode comer menos”, explica um parente muito próximo de Figueiredo. “Só mesmo quando escapa do controle da mulher é que pode empanturrar-se de churrasco com muito sal, do jeito que gosta.”
Até uns dois anos atrás, não eram raras essas ocasiões. Bons parceiros sempre encontravam razão para convidar o ex-presidente para um almoço, e geralmente iam para alguma churrascaria do bairro de Laranjeiras, onde ele se fartava do prato predileto.
Agora, porém, com a locomoção seriamente prejudicada, o próprio Figueiredo parece ter-se dado conta dos prejuízos decorrentes de excessos.
Em março, por exemplo, foi almoçar com uns poucos antigos companheiros de farda no restaurante da Hípica, no Rio de Janeiro.
“Contrariando nossa expectativa, comeu com muita moderação”, depõe um de seus colegas de turma, como ele também mantido sob severa dieta. “Na nossa idade, é melhor agir com bom senso.”
Se está comendo pouco fora de casa, não se pode dizer que o ex-presidente ande se alimentando bem dentro dela.
“Dulce nunca foi muito amiga de um fogão e menos ainda de um forno”, conta um dos mais antigos entre os poucos frequentadores da sala de jantar do casal Figueiredo. “Agora, então, sem cozinheira, eles vivem apenas de comida congelada, que é mais prática para todos.”
Mais prática, mas também muito mais cara — e é no prato relativo à alimentação que o general mais vê desequilíbrio na balança do seu orçamento.
Com dois seguranças permanentemente ancorados na sua sombra, mais um ajudante-de-ordens ora no sítio ora no apartamento — todos com salários pagos pela seção de apoio a ex-presidentes, do Palácio do Planalto —, ele se queixa muito de dar rancho a essa tropa particular.
“Eles comem por um batalhão”, descreveu Figueiredo a um amigo, numa das vezes em que tocou no assunto.
O advento recente da frugalidade à mesa, mesmo longe da vigilância de dona Dulce, ainda não provocou reflexos na silhueta de Figueiredo.
Para seu próprio bem-estar, seria aconselhável manter o peso próximo dos 70 quilos, mas quase sempre está uma arroba acima disso.
Como se sabe desde que o então presidente posou para fotos de sunga numa malsucedida operação estratégica para melhorar a imagem do governo, Figueiredo tem as pernas finas. Logo, concentra o peso extra na região abdominal, a mais difícil de fazer encolher.
No caso dele, mais difícil ainda, pois o ex-presidente tem uma coleção de males que dificultam ou reduzem suas possibilidades de fazer exercício — a saber: coluna em pandarecos, com uma série de problemas iniciada em 1974, quando operou uma hérnia de disco, coração duas vezes recauchutado, algumas crises de sinusite e desvios dos canais lacrimais que, mesmo após cirurgias, a primeira em 1981, ainda criam intolerância à poeira e luz forte.
Apesar disso, ele poderia ao menos andar regularmente, mas não só não tem mais ânimo para tanto como também sente extremo desconforto provocado por dificuldades circulatórias nos membros inferiores.

Depois de um tombo perto do sítio, desistiu da motocicleta

“Não faz muito tempo, a gente o via na calçada, em frente à praia, às vezes amparado pelos seguranças mas pelo menos tentando caminhar”, recorda um advogado vizinho do ex-presidente, quase da sua idade, mas capaz de abdominais e flexões que põem no chinelo boa parte dos garotões-saúde que aterrissam de asa-delta diante do condomínio Par que Guinle. “Agora, só fica trancado em casa.”
Isso é a pura verdade. Em São Conrado, faz mais de um ano que nem os barraqueiros e vendedores de água-de-coco, dia e noite de plantão, vêem Figueiredo passeando.

“Ainda nos reunimos para almoçar de vez em quando, mas cada vez há menos pessoas à mesa”, conta o amigo

“Seu passatempo, ou melhor, sua única atividade, é trancar-se no escritório, lendo jornais, relendo histórias da cavalaria e resolvendo equações matemáticas”, informa um militar da reserva com trânsito amplo na família Figueiredo.
Quando está no sítio, geralmente às quartas e quintas-feiras, nem se lembra da motocicleta Honda XL 250 cilindradas, ano 1982, que gostava de montar para escalar as montanhas em volta.
Desde 1990, quando sofreu uma queda da moto, desistiu de usá-la. Não fosse um empregado ligá-la de vez em quando, seria hoje ferro-velho.

O cavalo, ainda garboso, agora puxa uma charrete

Ainda gosta de cavalos, providencia bom tratamento para eles e diverte-se acariciando a crina e o pelo dos animais, mas de seu mesmo só tem no sítio o ainda garboso Carioca, que serve apenas para puxar a charrete nas raríssimas ocasiões em que os netos, com idades entre 6 e 20 anos, aparecem para um fim de semana.
Na Hípica, ele ainda sustenta o cavalo Flash Back, que alguns amigos costumam montar. Há um terceiro cavalo, em São Paulo, entregue aos cuidados do eterno acólito George Gazale.
Montar, que é bom, é coisa que Figueiredo não faz há cinco anos, quando sua coluna vertebral rendeu-se definitivamente às hérnias, escolioses, cifoses, lordoses e outras consequências de maus tratos.
Descrita por um empregado, sua rotina no sítio não tem nada de eletrizante. Chega como passageiro num Gurgel Carajás, um jipão de tamanho proporcional ao desconforto, almoça — e dorme.
Acorda, toma banho, joga cartas ou faz equações, janta — e dorme. Levanta, toma banho, conversa, almoça — e dorme.
Quando muito animado, anda 100 metros até as baias, de manhã, para ver os animais.
Dá e recebe uns poucos telefonemas, quase sempre de ex-colegas da caserna ou colaboradores do tempo de governo.
“Ainda nos reunimos para almoçar de vez em quando, mas há cada vez menos pessoas à mesa” diz um desses amigos, recordando a perda de outros.
Até o ano passado, no aniversário de Figueiredo, 15 de janeiro, os mais chegados sempre telefonavam ou davam uma passada para abraçá-lo. Eventualmente, havia uma churrascada. Tudo contra a vontade do aniversariante e sempre apesar de seu mau humor.
Este ano, seu irmão Euclides, também general da reserva, quis fazer-lhe uma surpresa sentimental.
Escolheu na cristaleira da sala de seu apartamento, no bairro do Flamengo, uma delicada e rara peça de louça de Capo di Monti, na Itália, embrulhou-a com carinho e rumou para São Conrado com o presente embaixo do braço.
Tanto esforço para acabar surpreso e magoado à porta do prédio onde vive Figueiredo, que tinha resolvido simplesmente sumir na data querida. Escondeu-se mesmo, deixando os telefones tocar à toa em seus dois endereços.
“Nem eu sabia onde ele foi”, recorda o subtenente William Rigo, que faz as vezes de ajudante-de-ordens, capataz e secretário do ex-presidente.

Essa indisposição para o convívio social, provavelmente a principal característica da personalidade do ex-presidente, fez de seu círculo de amizades um clubinho estreito.
Em Petrópolis, só o empresário Roberto Braga, dono de cavalos, ainda tem interesse em visitá-lo com frequência. É ele o parceiro de biriba de Figueiredo.
No Rio de Janeiro, o grande amigo brigadeiro Délio Jardim de Mattos, seu ministro da Aeronáutica, morreu há um ano, privando-o da companhia de um parceiro de ideias, ideais e perfeita identidade. Ficou Darcy, irmão de Délio, na pequena turma de confrades.
Outra perda que marcou o ex-predente foi a do irmão Luís Felipe, dentista e vizinho de sítio, que morreu há quatro anos. Era ele o companheirão de plantão em Nogueira.

“Não falo com essa pessoa há anos”, diz o irmão

“O ex-presidente é um homem muito reservado e eu gostaria muito de não dar opiniões sobre ele nem revelar nada sobre sua intimidade”, depõe o general Darcy, fazendo coro com todo o círculo íntimo do ex-presidente.
“Consultei-o sobre a possibilidade de dar informações sobre sua rotina, mas ele prefere que eu não fale nada”, explica-se Paulo Renato o filho mais novo. “Tenho certeza de que a coisa que Figueiredo mais deseja é realmente que a imprensa o deixe em paz”, acrescenta o irmão Euclides.
“Ele não está nem um pouco interessado em colaborar com reportagem nenhuma”, informa dona Dulce. “Certamente o presidente não gostaria de saber que os amigos falam de sua vida”, ecoa o empresário paulista George Gazale.
“Se eu ficar dando entrevistas, a possibilidade de um dia publicar um livro contando minha vida perde completamente a graça”, arremata o próprio ex-presidente em rápida e rude conversa com PLAYBOY. “Pode procurar quem quiser para fazer perguntas, porque todo mundo já sabe que eu não quero que falem de mim.”
Com essa índole, não é por acaso que nem mesmo em família o ex-presidente consiga a plena harmonia ou afeição.
“Dizer o que sobre essa pessoa, se nem sequer falo com ela há vários anos?”, também pergunta o escritor Guilherme Figueiredo, irmão mas inimigo do ex-presidente. “Esse é um nome que bani completamente da minha vida.”
O abalo entre os irmãos é coisa antiga, vem da infância e da disputa pela atenção do pai, o general Euclides Figueiredo, herói dos movimentos Tenentista, em 1922, e Constitucionalista, dez anos depois, quando acabou exilado em Buenos Aires, e prisioneiro do Estado Novo.
Mas a trinca definitiva no relacionamento dos irmãos ocorreu durante o governo de Figueiredo, entre 1979 e 1985. O que levou o caldo a entornar, ainda que não tenha sido a grande razão da discórdia, foi a incompatibilidade entre o temperamento militar e madrugador do então presidente e o estilo solto e boêmio do acadêmico Eduardo Portela, levado ao Ministério da Educação de Figueiredo com a bênção de Guilherme.
“Figueiredo foi surpreendido por um ministro preguiçoso, que aparecia no trabalho às 4 da tarde, e encasquetou que o irmão tinha responsabilidade nisso”, relata um parente que nunca mais viu os dois na mesma casa em encontros familiares. “Acho que até a opção de colocar um general no lugar do Portela foi um recado contra aquele relaxo”, diz, referindo-se ao ex-porta-voz do Planalto, ex-chefe da Casa Militar e ex-ministro da Educação, Rubem Ludwig,na época coronel.
As poucas amizades de Figueiredo costumam recorrer a um lugar-comum quando tentam explicar seu jeito turrão. “Ele tem a casca grossa mas possui coração mole”, afirma um de seus ex-ministros civis.
Pode ser, mas mesmo os camaradas mais íntimos reconhecem que o recheio dessa casca é em boa parte puro caldo de ressentimento.
A formação militar de Figueiredo imbuiu-o de um senso de dever e missão que pode ter sido um pilar irremovível do processo de redemocratização — basta lembrar que prometeu prender e arrebentar quem se atrevesse a caminhar em sentido contrário, mesmo tendo afinado quando era o caso de pelo menos investigar direito acontecimentos como o episódio de terrorismo no Riocentro.
Mas essa mesma cultura reforçou nele a intolerância e o inconformismo com a crítica ou a mera gozação. Dê-se asa ao ex-presidente e ele rapidamente desfia um rosário contra a imprensa, só porque ela registra aquilo que ele sempre fez questão de parecer que é.
“Já me chamaram de burro, de sargentão, de ditador, o diabo a quatro”, ele reclama. “Nem ligo mais. Mas não sou eu quem vai dar mais material para esse tipo de desaforo.”

Um ancião com suas manias e seu amor pelos netos

Ninguém pode passar uma borracha na própria biografia, nem a idade equivale a um habeas-corpus para os erros na vida. Mas visto em lente de aumento na sua rotina atual, o ex-presidente guarda muito pouca semelhança com o político um tanto desastrado que foi.
Aquele que deixou articularem para prorrogar seu mandato por dois anos, quando temia perder o controle de sua sucessão, prescreveu-se um “tiro no coco” na hipótese de ter de sobreviver com salário mínimo e preferiu sair pela porta dos fundos do Palácio do Planalto, dando a seu rancor pessoal contra o sucessor José Sarney a maquiagem de uma recomendação jurídica do então ministro Leitão de Abreu, da Justiça.
Também não faz mais jus à muito falada fama de mulherengo, corroborada primeiro pela acusação de ter um filho fora do casamento, com a ex-funcionária do SNI Edine Souza Correia — num longo processo que hoje caminha para os arquivos da Justiça —, e depois pela exposição de um caso amoroso com a empresária Miriam Abcair, proprietária de um spa em São Paulo, no qual ele providenciou até algumas benfeitorias para se pôr mais à vontade.
O Figueiredo atual, para alguém que nunca tivesse ouvido falar dele, é só um ancião sedentário que se agarrou a umas poucas manias, gosta de rememorar feitos da Cavalaria, paga com a saúde a conta de uma vida um pouco abusada, vive com a mulher aquela relação de dependência inevitável na velhice, mesmo depois de terremotos matrimoniais ocasionados pelo jeito espevitado dela, e fica sempre esperando a visita dos netos. “Eles são a melhor coisa do mundo”, diz.
Até sua teimosia hoje entra na cota de ranzinzice a que todo idoso tem direito, assim como seu problema orçamentário — desconfortável porque se trata de um ex-presidente e não pelos valores envolvidos, que fariam a alegria de muitos — é um martírio comum e bem maior para a enorme maioria dos aposentados.
Pode-se defender que ele seria ainda muito útil se sua experiência fosse posta em disponibilidade, em livro, entrevistas ou mesmo com o aconselhamento de políticos e ocupantes do poder mais jovens.
Se é de seu gosto, no entanto, permanecer de pijama, cabe concordar com a avaliação de muitos analistas, segundo a qual, mesmo assim, Figueiredo está num figurino bem mais elegante do que o usado por outros ex-presidentes.

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