Paz em Angola

Paz em Angola

Como é, sob os capacetes azuis da ONU, a vida e a missão dos soldados brasileiros que o presidente Fernando Henrique deve visitar este mês

O fuzil que o soldado brasileiro aponta para a escuridão da noite africana é praticamente inútil. Um fuzil, por melhor, mais novo, limpo e lubrificado que seja, nada vale num combate ao mosquito, nada pode contra explosivos enterrados no chão e é quase contraditório quando o objetivo é manter a paz. Mas, ainda menos do que isso, um fuzil não mata os maiores inimigos do soldado brasileiro que atravessou o Atlântico para ajudar a garantir o fim de uma guerra de duas décadas entre irmãos que, no fundo, têm grande chance de ser seus primos. Um fuzil não mata saudade, não satisfaz o desejo, não cura apreensão nem resolve angústia.

Integrante do segundo maior contingente que o Brasil mandou para o exterior desde a Segunda Guerra Mundial — que já acumula 2 000 homens (800 na primeira turma, que retornou ao Brasil em fevereiro: passado) contra 6 000 que estiveram no Canal de Suez entre 1957 e 1967 —, o soldado brasileiro está em Kuito, no interior de Angola, com a cabeça do lado de cá do oceano. O tule branco que desce da aba do chapéu dificulta a visão e facilita a viagem do pensamento.

Na madrugada gelada que nunca imaginou possível quando via o Tarzã de tanga no cinema, o soldado pensa nos filhos, cuja média escolar anda baixa, na mulher, que enviou dez cartas das quais só recebeu duas, no jogo do Cruzeiro contra o Atlético, no torresmo e na casa que finalmente vai poder reformar, com as economias do salário triplicado pela missão no exterior.

Outros soldados brasileiros estão em uma dezena de pontos do território angolano. Voam em aviões de carga, dormem cheirando repelente e passam o dia entre barracas verdes, contêineres brancos e largas porções de mato que vão sendo limpas para virar acampamentos. Mesmo pobres, vêm à volta boas razões para sentir-se ricos. Mesmo treinados para a guerra, também enxergam enormes justificativas para não fazê-la jamais. Como o soldado de sentinela em Kuito, boa parte da tropa de 1.112 brasileiros que forma a atual Força de Paz em Angola servia em Juiz de Fora (MG) quando apareceu o convite para passar seis meses na África, integrando as Forças de Paz da ONU. Na primeira leva, que deixou aquele país em fevereiro passado, a predominância era de soldados que davam serviço em Caruaru (PE). A mesma origem dos contingentes se explica: é que, com exceção do pessoal da Marinha, passam até seis meses em treinamento antes de viajar. E é mais fácil concentrar o recrutamento no lugar onde se faz essa preparação. Prevista no começo para durar um ano, a ação dos brasileiros não deve terminar antes que a ONU encerre a operação Unavem III, ou, resumindo, a terceira intervenção desde 1989 para conciliar o governo angolano com os guerrilheiros da União Nacional para Independência Total de Angola, a Unita [quadro “Por que a ONU mandou tropas para o país”).

Já não se fala em confrontos armados, mas nem por isso o soldado brasileiro está passeando num cenário que, pela vegetação, lembra o melhor do nosso cerrado, e, pela pobreza, o pior do nosso Nordeste. Com sua lista de missões, a tropa verde-amarela tem uma rotina diferente em cada ponto do país. Nenhum é o fim do mundo — mas alguns parecem o endereço mais próximo. O cabo Cícero de Almeida, 31 anos, três filhos, forte e bem-falante, é um soldado brasileiro, e sua missão — dirigir veículos — é moleza, à primeira vista. Almeida usa colete à prova de balas, mas não no peito. Na verdade, dirige sentado em cima do colete. Por que? “Bem, se algo der errado, volto para casa pelo menos com o principal não muito estragado”, explica ele.

O que pode sair errado é encontrar no leito da estrada alguma mina, cuja explosão em geral produz mais avarias na parte inferior do corpo. Há milhares de civis mutilados por minas e, conforme o folclore da guerra, há uma para cada angolano enterrada em algum lugar do país. Divididas em subcategorias — antipessoal, antitanque e de grande raio de ação —, elas são um efeito retardado da guerra. Por isso, população e soldados, em áreas suspeitas, caminham só nas estradas, escolhendo os blocos mais sólidos de asfalto para pisar. Claro que esse hábito acaba provocando acidentes, o último deles envolvendo um médico do Exército brasileiro, que atropelou e matou uma criança. “É uma pena que estejamos aqui para ajudar a paz e aconteça uma tragédia”, diz o major Ubiratan Poty, integrante do staff da Unavem.

Além dos explosivos plantados por guerrilheiros e tropas governistas, há minas lançadas por cubanos e sul-africanos, que também se envolveram nessa guerra no passado. Só que ninguém mapeou a localização desses artefatos — e hoje há apenas maneiras perigosas de encontrá-los e explodi-os. Uma delas consiste em usar detectores de metal que podem achar uma cabeca de alfinete na areia. Por esse caminho vai uma equipe da nossa Marinha que ensina angolanos a usar os aparelhos. 

“Nós ensinamos e eles é que vão enfrentar os campos minados”, explica no Estado-Maior das Forças Armadas, em Brasília, um dos comandantes da operação. E esse é o método internacional. “A grande didática de nosso trabalho não é mostrar como achar e explodir os artefatos com segurança”, afirma um oficial francês da Escola de Desminagem, criada para treinar angolanos. “É fazê-los pensar duas vezes na próxima vez que quiserem sair espalhando minas indiscriminadamente.” 

Na operação caça-minas se encontra um primeiro exemplo de como a mis são serviu para abastecer o almoxarifado das Forças Armadas brasileiras. Foram comprados 24 conjuntos de detecção e, depois de quase um ano de trabalho, nem metade saiu da caixa. “É mais do que suficiente”, diz o sargento Alessandro Peixoto, um dos fuzileiros que operam esse equipamento. Dos dezesseis pares de sapatos infláveis que a Marinha comprou — e que servem para andar sobre áreas minadas —, nenhum precisou ser usado. Mas constrangedor mesmo é saber que algumas das minas encontradas trazem a inscrição made in Brazil, que revela como nossa indústria de armamentos tirou proveito da guerra. 

Quem desenvolveu a técnica do colete na bunda foram os observadores militares, que visitam regiões remotas para checar denúncias de violação ao tratado de paz. Em grupos de três a seis militares, eles fazem seu trabalho acompanhados de um representante de cada parte do conflito. Nesse momento, quando podem estar fazendo uma viagem inútil ou indo ao encontro de algum grupo armado e sem comando, não podem usar nem uma faca para se defender. “Não é agradável”, resume o capitão-de-corveta brasileiro Marcos Antônio Nóbrega Rios, 36 anos, um filho, que há oito meses participa dessas missões. Agora baseado em Huambo, a segunda maior cidade do país, num quarto de um hotel bombardeado que espantosamente ainda tem azulejos inteiros nos corredores, Nóbrega, com CDs, aparelhos de som e tomada para ligar o barbeador, vive dias de privilégio em relação a colegas enviados para locais mais distantes. 

No início de maio, um carro de observadores foi atacado numa estrada próxima a Benguela, no norte do país, aparentemente por um grupo de assaltantes. Morreram um militar jordaniano, um zimbabuano e um civil inglês. Um indiano saiu ferido e o intérprete do grupo, angolano, escapou milagrosamente ileso. No final do ano passado, um observador brasileiro viajava na carroçaria de um caminhão que teve a roda traseira arrancada por uma mina. Por sorte, não era das maiores. “Para um observador, todo dia é segunda-feira”, diz o chefe de todos os 66 militares envolvidos nessa tarefa, o capitão-de-mar-e-guerra brasileiro José Carlos Ribeiro da Silva, cujo escritório é um contêiner de aço entre centenas de outros no quartel-general da Unavem, em Luanda. “Muitos têm de morar em ruínas, sem luz e quase sem apoio. Fazem a comida e têm de conviver com hábitos às vezes estranhos dos colegas.” 

Uma das mais difíceis conciliações acontece em times com um muçulmano na turma. Como nem sempre há várias fontes de água disponíveis, não é incomum os outros reclamaresm de que o colega andou lavando os pés na pia perto da hora de orar para Alá. Há o caso de um sargento indiano cujo único meio de comunicação são assovios mais curtos ou mais longos. Mas é dificil imaginar que a vida do observador, para o qual a ONU paga 100 dólares de diária, além do soldo, possa ser mais dura do que a dos grupos de 25 soldados — um pelotão menos um grupo de combate, na linguagem militar — que têm de passar até uma semana nos chamados Postos de Observação, ou PO. 

Como a permanência no local é curta, eles não têm conforto algum. Enquanto nos grandes acampamentos os banheiros são contêineres com chuveiro, vasos sanitários e alguma — não muita — higiene, num PO como o de Cuquema, por exemplo, onde fuzileiros navais passam os dias vigiando um cruzamento de estradas, o banho é feito de pingos de ducha fria num cercadinho de plástico, ao ar livre. O banheiro é outro cercadinho, com um vaso sobre travessas que cruzam um buraco no chão. A cozinha, um toldo sobre um improvisado fogão a lenha e uma mesa de duas tábuas rústicas apoiadas em cavaletes de ferro. Pior que isso, só a comida que sai daqueles panelões. Em Kuito, Chitembo e Calomboloca, onde fica a maior parte de nossos soldados, há até padaria. Em Cuquema, nem cozinheiro — o que significa entregar os panelões à administração de voluntários que, por mais boa vontade que tenham, não conseguem fritar um ovo sem deixá-lo com a aparência, e o sabor, de uma meia molhada. 

Em todos os lugares, comida, lazer, organização das barracas, correspondência e acerto das folgas tendem a tomar tanto tempo quanto as missões propriamente ditas. Assim, não é raro ver mais gente escoltando um caminhão de provisões entre os vários acampamentos, num comboio de três veículos, do que guardando um único jipe deslocando um médico e um soldado com malária. Isso também se explica, claro, pela absoluta e terrível falta de alimentos no interior de Angola, que pode estimular a ação de saqueadores. 

Tirando as poucas cidades em que organizações diversas distribuem cestas básicas, restam milhares de pequenas aldeias, com casas de sapé e pau-apique, nas quais se come papa de farinha de milho e carne de cabrito ou de porco, quando há fartura. Um caminhão frigorífico pode ser tentação demais para quem tem em casa mais armas do que comida. No período mais duro da guerra, o governo distribuiu armamentos para a população se defender. Hoje, com 5 quilos de arroz pode-se comprar uma pistola. Dois saquinhos de ração do Exército brasileiro — composta de carne, cereal e legumes desidratados e consumindo no cozimento mais água do que uma caldeira a vapor — valem um casaco novinho das Forças Armadas Angolanas. Três compram uma baioneta e quatro, um fuzil em mau estado. 

O MORTEIRO PODE EXPLODIR. É MELHOR DEIXÁ-LO QUIETO 

O coronel Júlio Raphaël de Freitas Coutinho, comandante do nosso Batalhão Angola, sediado em Kuito, proibiu terminantemente os soldados de se envolver nesse comércio, mas sabe como é… Em várias unidades brasileiras, há crianças, mulheres e jovens angolanos trabalhando na limpeza ou na cozinha. “É o único serviço que sobrou para a gente fazer”, conta o angolano João Bento Rindoli, de 19 anos, que perdeu pai e mãe durante a guerra, lava panelas em Cuquema e sustenta cinco irmãs com as sobras da comida. 

O coronel Raphaël, inventor do utilíssimo chapéu de aba dupla que esconde entre as duas palas um véu para ser descido sobre a cabeça nas horas de maior incidência de mosquitos, também ameaçou punir os comandados que contraíssem malária. Impressionado com a morte de dois brasileiros da primeira expedição a Angola, ele estava convencido de que quem adotasse toda a prevenção — comprimidos semanais de mefloquina, para reforçar as defesas orgânicas, luvas, repelentes e mosquiteiros, além de seu chapéu — não ficaria doente. E quis o destino que ele próprio, campeão da profilaxia, caísse doente, com complicações hepáticas e gástricas, tendo que se tratar no Brasil. “Isso é uma lição para todos”, sorri amarelo o coronel. “Mostra que todo cuidado é pouco.” 

O Batalhão Angola, com 403 soldados acampados num labirinto de barracas erguido sobre antigas instalações da companhia angolana de petróleo, a Sonangol, vive uma rotina de disciplina difícil de ser encontrada até em quartéis brasileiros. Não há dispensa de nenhum daqueles formalismos militares, tais como marchar, cantar o hino do soldado, ouvir os toques de corneta regulamentares e formar para instrução e ordem-do-dia. 

Um dos que mais se esfalfam é o sargento Vicente Paulo da Silva, 30 anos, três filhos, misto de corneteiro, regente, fotógrafo e piloto de carros de combate. No dia do retorno do coronel, ele fotografou a chegada, desfilou tocando corneta e ainda regeu o hino encarapitado num enorme carretel de madeira. Na confusão, não se lembrou de tirar os óculos escuros nem de vestir o cinto que complementa o uniforme. Silva é um dos poucos que consideram o sacrifício de ir a Angola mais rentável do que um mero reforço no orçamento. “Quero fazer um exposição fotográfica assim que retornar ao Brasil”, ele planeja, feliz por ter recebido um convite para trabalhar no Centro de Comunicação Social do Exército. 

Para a maioria, porém, a atividade mais importante em Angola é a contagem regressiva. Assim se passam os dias em Kuito, onde se aquartelam três companhias. Numa delas, localizada a 100 metros das outras duas, numa área que foi depósito de munições, uma distração comum é procurar armamentos e petardos espalhados pelo terreno, saldos de bombardeios e explosões. Ao lado das fundações de um prédio repousa, por exemplo, um morteiro com uns 250 gramas de explosivo. Ele não detonou quando disparado, e pode fazê-lo a qualquer momento. Por isso, dorme protegido sob uma mureta de sacos de areia. Induzir a explosão pode significar a queda de algumas paredes muito instáveis e próximas do acampamento. Melhor deixá-lo quieto. 

Outra turma brasileira, composta de fuzileiros navais, está acampada 145 quilômetros ao Sul, em Chitembo, construindo um campo de aquartelamento da Unita. Com organização menos formal, o pessoal espalhou as barracas numa área arborizada. O resultado, não fosse pela monotonia de lonas e uniformes, lembraria um camping de fim de semana, no qual não faltam nem o quiosque com mesinhas de ferro, geladeiras repletas de cerveja e um praticável para a turma fazer aquele sambão de qualquer churrascada. “Minha preocupação aqui é saber do ovo, não de que jeito ele saiu da galinha”, explica o chefe local, capitão-de-corveta Erico José Sampaio.

Bem longe da espinha dorsal de acampamentos brasileiros, em Calomboloca, a 109 quilômetros de Luanda, há 240 soldados vivendo no meio do nada. Compõem uma Companhia de Engenharia, engrossada pelos quarenta fuzileiros navais que atuam na desativação de minas. O pessoal de engenharia desloca-se em pequenos grupos para lugares indicados pela ONU, reparando estradas e lançando pontes. Dez meses depois de armadas no terreno em leve declive, uma ao lado da outra, as barracas aqui já não têm aquele verde vistoso dos primeiros tempos, mas os espaços entre elas foram ganhando jeito de uma cidadezinha de lona. Umas têm jardim com flores e pedrinhas diante da entrada, outras exibem cadeiras e mesas de plástico nas varandas, onde à noite corre o carteado.

As ruas formadas pelas fileiras de barracas ganharam nomes de Estados brasileiros e ruínas de casas de fazenda foram recuperadas para servir como refeitório, consultórios médico e dentário, cozinha e sala de vídeo. Caprichosas, as Forças Armadas do Brasil mandaram de tudo — e quase o dobro do necessário — para a eficiência da missão. “Temos tudo o que precisamos”, avalia o major José Antônio Mendonça da Cruz, comandante da companhia.

Caminhões, tratores e jipes chegaram a Angola com o hodômetro marcando zero. Barracas, sistemas de tratamento de água, equipamentos de comunicação, geladeiras, geradores, lavanderias, laboratórios de análises clínicas e tudo o mais também desembarcaram novinhos. O serviço médico de Kuito tem até um cromatógrafo, que serviria a complicadas análises, caso houvesse alguma necessidade ou se tivesse sido devidamente instalado. Era tão inesperada a tralha que o Brasil mandou para Angola — 500 toneladas — que a localização do principal acampamento foi mudada na última hora, para um ponto 500 quilômetros mais próximo de onde dois navios descarregaram o equipamento.

O contingente brasileiro inclui ainda uma boa quantidade de militares que integram o staff da Unavem [quadro “Por que o Brasil faz parte das forças de paz”] e cerca de quarenta oficiais e sargentos divididos entre dois postos médicos, um do Exército, em Luena, e outro da Marinha, em Huambo. Neste, a vida é muito mais divertida do que nos outros acampamentos. Claro que há casos de malária para cuidar — foram 1 828 exames realizados em nove meses, com 70% de casos positivos — e, às vezes, alguma cirurgia. Mas também há suficiente agitação em volta porque Huambo é base de várias organizações não-governamentais, as ONGs. Leia-se: mulheres. Não muitas, e nem sempre bonitas, mas suficientes para animar a turma.

MULHERES NA PARADA E O ENTUSIASMO DOS BRASILEIROS

Depois de se livrar do macarrão que parecia ser a única produção culinária de um batalhão uruguaio, originalmente encarregado de alimentar a vizinhança, obtendo da ONU cozinha e provisões, os brasileiros puderam preocupar-se com uma segunda prioridade: arrumar uma namorada. “Quando cheguei e fui desfazer a mala; descobri que minha mulher tinha colocado um. monte de camisinhas no meio das cuecas”, conta o capitão-tenente e ortopedista Cláudio Luís da Silva Fraga, 37 anos, duas filhas, caso raro de militar que dobrou o período de serviço em Angola, por falta de quem o rendesse no posto. Mas, mesmo com a mulher compreensiva e caprichando na roupa de ir ao bar e à boate reinaugurados nos escombros da cidade, o calvo e persistente Fraga tende a manter o estoque de camisinhas intacto.

Claro que tem mais gente chupando o dedo do que os pescoços das garotas das ONGs, mas a mera possibilidade pelo menos entusiasma. É bem mais interessante ver a turma de olho nos joelhos de uma dinamarquesa de carne e osso do que ouvir a algazarra adolescente dos soldados de outras bases quando chega a hora da sessão de vídeo conhecida como incha, da pouco elegante expressão “incha rola”, o filme pornô exibido todas as noites. Pior ainda é vê-los nos momentos mais explícitos das fitas, na angústia silenciosa que só a falta de sexo a dois pode provocar.

“E uma pedreira”, resume um oficial casado, contando que só muito raramente, e com muita cerveja, alguém —ele, inclusive — cai em tentação com uma angolana numa praia de Luanda. De um lado, por medo da Aids, não muito rara no país e ameaçadoramente divulgada entre os militares. De outro, porque é praticamente impossível encontrar uma garota sem estar acompanhado de uma legião de barbados.

Teoricamente, todos podem viajar ao Brasil em períodos de folga, mas as Forças Armadas não bancam os 1.100 dólares da passagem. Para um soldado, com salário na casa dos 600 reais, estar em Angola significa ganhar mais de 1500 por mês. Para um oficial, de 2000 a 3000 reais, o soldo salta a 5000 ou mais. Dá para telefonar para o Brasil usando um sistema de satélite. Mas não é barato. O minuto custa 4,10 reais de dia e 3,10 reais à noite. “Gasto uma fortuna”, conta o sargento Secundo Henrique Virla, 30 anos, que, com rugas de apreensão no rosto marcado de espinhas, acompanha a distância o nono mês de gravidez da mulher. “Até uma fita de vídeo com o exame de ultrassom ela mandou para eu ver aqui.”

Num Brasil em que parte dos militares da reserva não pode contar aos netos os detalhes de algumas de suas últimas missões, Virla, a despeito de exageros, está perto de poder narrar a seu filho, daqui a alguns anos, um capítulo bem-vindo à história das Forcas Armadas, segundo o qual o inimigo número um, interno ou externo, é a guerra. Como tudo se banaliza com o tempo, nossos soldados já não fazem mais o brinde que aprenderam logo ao chegar. Não fazem, mas não esqueceram o significado: “Paz em Angola.”

Por que a ONU mandou tropas para o país 

A guerra que o soldado brasileiro tenta ajudar a encerrar em Angola começou há mais de vinte anos e parece fora de moda desde que o bloco comunista europeu derreteu-se no calor da própria ineficiência. Na saída do colonizador português, em 1975, Angola ficou entregue aos desentendimentos entre o Movimento Popular de Libertação de Angola, o MPLA — apoiado pela União Soviética —, a Frente Nacional, ou FNLA — ajudada pelos Estados Unidos e depois dissolvida —, e a União Nacional para Independência Total de Angola, a Unita — então de linha comunista chinesa e mais tarde financiada pelos EUA e pelo na época regime racista sulafricano. O MPLA ganhou o poder, mas jamais o governo. A Unita partiu para a guerra, num processo que, a tiros, vem mantendo a população estabilizada em 10 milhões de habitantes e que tem raízes raciais e tribais. 

A Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola, chamada Unavem Ill e iniciada em 1995, é, como diz o nome, a terceira tentativa da ONU de restabelecer a paz. Trata-se de transformar em realidade um protocolo assinado em 1994 pelo qual o líder da Unita, Jonas Savimbi, promete entregar armas às forças multinacionais e aquartelar suas tropas em áreas onde devem receber alimentação, atendimento de saúde e treinamento para retornar à vida civil ou opção para incorporar-se ao exército nacional. Por seu lado, o presidente José Eduardo dos Santos aceita uma composição que respeite o poder da Unita nas áreas sob o controle de Savimbi. MPLA e Unita voltariam, assim, à condição de partidos políticos. Isso já foi tentado em 1992, mas a guerra recomeçou após denúncias de fraudes eleitorais. 

Mas o grande nó da questão angolana é econômico. As duas principais riquezas naturais, suficientes para multiplicar o Produto Interno Bruto atual, de 6 bilhões de dólares, divididem-se entre as duas facções. O governo controla a exploração de petróleo — de 600 000 barris por dia — e a Unita; boa parte da produção de diamantes — com reservas estimadas em 15 milhões de quilates. Savimbi ainda propõe que a exploração de diamantes fique com empresários amigos, para garantir o financiamento de sua facção, e tem interesse em assumir uma Vice-Presidência de Reconstrução, que passaria a administrar cerca de 1 bilhão de dólares de um programa de auxílio da ONU. 

Não é provável que tenha êxito, mas ainda segura o trunfo de poder manter o país em estado de anarquia caso consiga muito menos. A ONU considerará o protocolo de paz cumprido quando 60 000 soldados de Savimbi tiverem se entregado. Em torno de 20 000 já o fizeram, mas, no clima de desconfiança até natural que ainda permeia o país, foram apenas os mais velhos, muito jovens ou doentes — que apresentaram armas praticamente inúteis. Nos próximos meses é que se vai medir claramente o andamento desse processo. Enquanto isso, a ONU despeja em Angola cerca de 1 milhão de dólares por dia, tornando-se importante fator de sobrevivência econômica num país em que a única atividade minimamente organizada que restou da guerra se concentra em Luanda e na faixa de litoral que o governo conseguiu defender, mesmo que parcialmente. O escambo é prática comum mesmo nessa área que hoje abriga mais de 30% da população angolana, a maior parte composta de deserdados da guerra.

Por que o Brasil faz parte das forças de paz 

Como se relações internacionais fossem matemática, costuma-se reduzir o envio de tropas a Angola ao interesse brasileiro por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. É essa a justificativa mais comum do Estado-Maior das Forças Armadas. Mas a questão tem outros contornos. “Em boa parte, o Brasil está apenas cumprindo uma obrigação internacional”, diz o chefe de relações do Itamaraty com a ONU, Paulo Roberto Fontoura. 

Há anos o país era reticente quando consultado sobre operações desse tipo, dando o tipo de vexame que o presidente Fernando Henrique Cardoso — sempre lembrado para alguma coisa na ONU, um dia — não quer mais passar. Além disso, mesmo fraco nos últimos anos, o interesse diplomático pela África pode render frutos futuros. A renda per capita angolana, de 500 dólares anuais, é pouco — assim como o 1% que o país significa em nossa balança comercial. Mas será bom que, quando isso mudar, alguém se lembre de capacetes azuis em cabeças verde-amarelas. 

Mesmo hoje, dois de nossos polvos multinacionais, a estatal Braspetro e a Construtora Norberto Odebrecht, mantêm o pé em Angola, como lembra o embaixador brasileiro no país, Alexandre Addor Neto. Uma tem 80 milhões de dólares para gastar este ano junto com a estatal angolana Sonangol. A outra quer acabar a hidrelétrica de Capanda, de 1,3 bilhão de dólares, e é sócia da estatal de diamantes Endima. 

Também há boa dose de identidade cultural com Angola. “Quando torcem pelo nosso futebol, os angolanos estão torcendo por eles mesmos”, compara o diretor-geral do Departamento da África e Oriente Próximo do Ministério das Relações Exteriores, José Vicente de Sá Pimentel. De fato, o relacionamento com nossos soldados é bem cordial: a feira de camelôs de Luanda, a maior do mundo, leva o nome da novela Roque Santeiro e eles vêm Pantanal. 

Por fim, há o interesse das Forças Armadas brasileiras. A operação serve para treinamento, intercâmbio e até para praticar o idioma “Onês” — o estropiado inglês das missões da ONU. Além de servir para reaparelhar o Exército e, em parte menor, a Marinha. Nessa missão, o Brasil empenhou, no ano passado, 121 milhões de reais, 30% dos quais retidos no caixa federal. Os militares gostaram tanto da missão que batalham pela aprovação de emenda constitucional que elimine a necessidade de concordância do Congresso em casos parecidos. E, para estar sempre prontos, querem formar batalhões especiais, cuja preparação custaria 1 bilhão de dólares, a ser gastos em cinco anos. 

Imagina-se que, ao final da missão em Angola, a ONU indenize os gastos brasileiros, já que eles foram feitos para dar conta de uma missão internacional. Imagina-se. Pois a ONU deve a milhares de fornecedores e tem passado o pires para cobrar países que lhe devem recursos — entre eles o Brasil.

Onde estão e o que fazem nossos capacetes azuis

Luanda

A capital é a base do capitão-de-mar-e-guerra José Carlos Ribeiro da Silva, chefe dos observadores militares, entre os quais há mais dezenove brasileiros. Ele mora com dois outros militares dentro do quartel-general da Unavem e transformou sua sala de estar num centro de compatriotagem, a chamada Casa Brasil. 

Luanda é base também de dezessete militares brasileiros que integram o EstadoMaior da Unavem Ill, que coordena tropas de 36 países. Outros vinte brasileiros do staff espalham-se pelo interior do país, com a mesma função. Como os observadores, seu período de permanência em Angola é de um ano. 

Ainda na capital, há três policiais militares, entre eles a major Inalda da Silva Bazola, única mulher brasileira a usar o capacete azul em Angola. Com outros oito oficiais baseados no interior, são observadores para questões de polícia. 

Não é exatamente oficial, mas Luanda sedia militares que fazem andar os interesses brasileiros. Dois majores da Aeronáutica cuidam da correspondência, dos suprimentos, do transporte e dos períodos de descanso no Brasil, em Luanda ou no balneário de Benguela, no norte do país. Mesmo assim, as companhias sempre mandam oficiais a Luanda, que dividem com eles o contêiner K-6 do quartel-general da Unavem. Essa acomodação, que era de um civil brasileiro, nem mesmo consta mais dos registros oficiais da Unavem. 

Luanda é, finalmente, o único lugar do pais onde se consegue ouvir o Alô, Angola, o programa de rádio que a Radiobrás transmite diariamente para as tropas brasileiras — teoricamente.

Cuquema 

A meio caminho entre Chi tembo e Kuito, o entrocamento de duas estradas é base de um pelotão reduzido de fuzileiros navais — 25 soldados — cuja atribuição é acompanhar a movimentação de tropas governistas ou grupos da Unita que se aproximem do local. Antesda montagem desse PO, o menos confortável dos brasileiros, os times de observadores já andavam cansa dos de checar denúncias nessa região.

Huambo

Vizinho de um batalhão uruguaio, a 145 de Kuito, o Posto Avançado de Saúde da Marinha brasileira é o mais aconchegante dos acampamentos. Com vinte oficiais e sargentos, equipado a ponto de ter ar-condicionado em várias barracas, tornou-se uma espécie de centro esportivo multinacional de militares e civis ligados a organizações não-governamentais, que sempre aparecem para uma cervejinha e um animado voleibol. Mesmo com alguns feridos e muita malá para tratar, o humor da turma e o fato de haver mulheres por perto fazem lembrar o filme M.A.S.H., do cineasta americano Robert Altman.

Chitembo

Nesta localidade, a 145 quilômetros de Kuito, 127 fuzileiros navais funcionam como uma companhia extra do Exército, construindo e patrulhando uma área de aquartelamento para 5 000 partidários da Unita, mais um acampamento para 15 000 civis. São eles também que fornecem homens para o Posto de Observação de Cuquema.

Calomboca

Longe de quase tudo — aí incluídas muitas obras que devem realizar —, a Companhia de Engenharia do Exército, sediada a 109 quilômetros de Luanda, tem o acampamento central, para 200 homens, instalado numa velha fazenda de algodão. As turmas se revezam, entre outras atividades, no trabalho de desobstrução da estrada para Saurimo, a leste, num total de 873 quilômetros. Ná mesma área acampam quarenta fuzileiros navais ocupados em desativar . minas em várias áreas do interior de Angola.

Andulo

Já há perto de 4.000 guerrilheiros da Unita que entregaram as armas e se aquartelaram nesse campo controlado por uma companhia do Exército brasileiro composta por 119 soldados e localizada a 148 quilômetros de Kuito. A presença dos militares nessas áreas tem função de patrulhamento e de dar segurança aos integrantes de organizações não-governamentais que atendem aos aquartelados. De certo modo, também dá a eles alguma confiança de que não serão dizimados por um ataque surpresa de tropas governistas. F

Lumeje

Apenas um pelotão do Exército — 35 soldados — ocupa a posição mais oriental das tropas brasileiras em Angola, 153 quilômetros adiante de Luena. Como em Cuquema, essa presença desencoraja possíveis violações dos acordos de paz. É possível que a Companhia de Engenharia sediada em Calomboloca venha a construir uma área de aquartelamento na região.

Kuito

É a sede do Batalhão Angola, comandado pelo coronel Júlio Raphaël de Freitas Coutinho. Três companhias cuidam de comunicações, infraestrutura, patrulhamento e rodízios nas frentes de Andulo, Luena e Lumeje e reúnem 403 militares. Também operam postos em Camacupa, a 74 quilômetros, e na ponte do Rio Cune, a 38 quilômetros, além de um ponto de controle de tráfego em Catabola, a 50 quilômetros. Nesses pontos, há proximidade entre forças governistas e da Unita, e a presença brasileira tem evitado conflitos.

Luena

Nessa cidade, a mais de 800 quilômetros do litoral e a 427 da base de Kuito, instalaram-se uma companhia de infantaria, com 116 integrantes, e vinte médicos e enfermeiros de um Posto de Saúde Avançado do Exército. A missão atual dos soldados é controlar um centro de aquartelamento de tropas da Unita, como ocorre em Andulo. O posto de saúde dá atendimento a militares e ao pessoal da ONGs, além de atender casos de emergência entre a população e os aquartelados.

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