Um dedo no gatilho contra a democracia

Um dedo no gatilho contra a democracia

Quando levou para o governo uma renca de generais, Bolsonaro deu a entender que agiria como uma vivandeira pronta a puxar o saco dos chefões das Forças Armadas, entre os quais, ele sempre soube, sua reputação foi, para quase todos, a de um capitão de carreira medíocre, além de criador de casos.

Essa não era uma leitura totalmente equivocada, mas não é apenas para o topo da pirâmide militar que o presidente endereça esperanças de apoio que devem assustar os que se preocupam com a sobrevivência da democracia no país. Bolsonaro acredita no poder das armas mais do que no diálogo, na política, na diplomacia. Já deixou isso claro em inúmeras ocasiões e acumula genuflexões perigosas diante de um altar de riscos de violência.

Seu apreço maior parece se dirigir, não ao topo da pirâmide militar, mas sim à imensa base de agentes armados do Estado composta por soldados, policiais e, incrivelmente, também grupos de milicianos – que, como se sabe,  são formados e geralmente dirigidos por policiais militares ou outros servidores públicos que abusam de seu poder e apostam em sua imunidade.

Essa condição explica o empenho do presidente em estender o alcance do chamado excludente de ilicitude, conforme promessa de sua campanha, para que o mecanismo legal previsto no Código Penal seja transformado num imunizador de policiais que matam, impedindo a prisão em flagrante e condicionando as investigações à busca da legitimação da ação.

Somam-se a esse outros movimentos percebidos ao longo de sua carreira e na sua atuação no Planalto.

Vale recordar, por exemplo, a quantidade de cerimônias militares a que já atendeu  o presidente: 33, informou o UOL há dois dias. Quando aparece diante das tropas, é com os soldados que Bolsonaro confraterniza. Em contrapartida, no único caso de uma viagem realizada para inaugurar uma escola, no Piauí, sua presença só aconteceu porque o local ia receber o seu nome e se tratava, claro, de um estabelecimento militar.

Registre-se ainda que o aperto orçamentário previsto para 2020, sobre o qual até mesmo o presidente fez queixas, não atingirá o reajuste de salários da caserna. E há ainda as estranhas relações da família Bolsonaro com gente estabelecida na órbita das muitas milícias do Rio de Janeiro, além da confessa admiração do presidente pelos grupos paramilitares de extermínio.

“Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo”, discursou Bolsonaro em 2003, numa elegia que jamais renegou. “Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio.”

Somados, então, esses afagos,  elogios e rapapés do presidente para a parcela armada dos servidores públicos e mesmo para os bandidos que formam esquadrões da morte, é fácil chegar a uma conclusão. Se um dia tiver que apostar contra a democracia, como se desconfia que poderá fazer, não será na linha de comando da hierarquia militar que se fiará o presidente. É entre as raízes armadas que ele lança o adubo de sua simpatia.

Diante dos sinais econômicos desagradáveis que persistem no cenário nacional e das manifestações de abandono político do novo governo por parte de apoiadores civis de primeira hora, cabe prestar atenção aos movimentos de Bolsonaro. Com raciocínios nitidamente pautados por filmes de cowboy, ele acha que as armas são um recurso legítimo de sustentação de um governo. E pode sacar primeiro.

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