O lado comunista do bolsonarismo

O lado comunista do bolsonarismo

As ações sociais, econômicas, políticas e ambientais defendidas pelos adeptos da nova direita têm semelhanças com o modelo comunista chinês. Os extremos se tocam, o que é comum nos regimes de viés totalitário.

Uma característica do bolsonarismo é a atitude frequente de desqualificação dos adversários, que, à primeira crítica, são logo chamados de comunistas, no mínimo socialistas (como fez o presidente no inesquecível discurso na tribuna da ONU). O objetivo é liquidar qualquer tentativa de debate ou diálogo, num movimento freudiano de deslocamento que mescla ataque e autodefesa. Esse é um comportamento comum de regimes que flertam com o totalitarismo, tenha ele a origem ideológica que tiver.

Pela lógica dos fanáticos dessa nova direita, são comunistas tanto os odiados militantes do PT quanto a Rede Globo, qualquer artista, o jornal Folha de S. Paulo e a imensa maioria dos analistas de política e economia do país. Pelo mesmo raciocínio, são comunistas os adeptos das teorias educacionais de Paulo Freire, os defensores dos direitos humanos, os que pregam o desarmamento e os que sustentam teses de controle rígido de ações da polícia. A lista não tem fim.

É curioso – senão temerário e assustador – o fato de que o  conjunto de conceitos que compõe boa parte desse ideário não encontra respaldo naquilo que se entende como direita no mundo civilizado. Nem mesmo Trump, que antes da política militou como empresário e bem ou mal responde às coordenadas gerais do Partido Republicano, vai tão longe quanto os seguidores mais entusiasmados de Bolsonaro – um personagem que, é bom lembrar, iniciou a carreira política como agitador de quartel mais à direita, naquela época, do que o governo militar do qual hoje tem saudade.

Mas cabe, para compreender ideologicamente este governo e sua base de apoio, listar alguns pontos centrais do fundamentalismo político instalado atualmente em Brasília e compará-los a eventuais benchmarks. Considerando o que se viu na prática até agora, sabe-se que a gestão Bolsonaro deseja:

  • Reduzir os direitos trabalhistas ao mínimo possível – como na China;
  • Reduzir os direitos previdenciários da maior parte dos trabalhadores – como na China;
  • Definir o sistema escolar como um processo de ensino, não de educação, com prioridade para o currículo de formação técnica e precarização do ministério de disciplinas como filosofia, ciências sociais, antropologia e sociologia – como na China;
  • Controle total da atividade artística por meio da redução de incentivos aos que discordam do regime e ampliação de apoio às atividades sem cunho político ou com perfil conservador – como na China;
  • Política de segurança pública baseada em punições violentas, com pouca atividade de prevenção e nenhuma conexão entre o processo de formação da cidadania e a redução da criminalidade – como na China;
  • Desvalorização das conquistas da mulher na sociedade moderna e fortalecimento de seu papel exclusivamente dentro do ambiente doméstico – como na China;
  • Tratamento das questões LGBT baseado exclusivamente em aspectos morais conservadores – como na China;
  • Descaso absoluto pela proteção ao meio ambiente – como na China;
  • Política agrária voltada para a produção em larga escala, priorizando a exportação, a larga utilização de agrotóxicos e o crédito subsidiado para projetos de grande impacto social e ambiental – como na China;
  • Criminalização dos movimentos sociais, sejam os que buscam direitos para famílias de agricultores, sejam os que travam disputadas relacionadas a propriedade urbana – como na China;
  • Alinhamentos de política exterior firmados com base em interesses de curto prazo, objetivando resultado econômicos rápidos e sustentados no poder armado e não na conciliação diplomática – como na China;
  • Ação deliberada de ataques à imprensa, tanto por meio da propaganda quanto pelo boicote econômico – na direção do que acontece na China.

Haveria outros tópicos a apresentar, sem necessidade de forçar a mão, mas essa breve lista já permite observar que, cumprindo a velha máxima de que os extremos se tocam,  o bolsonarismo, em suas práticas, está mais próximo do regime comunista chinês do que da ordem política vigente em qualquer país democrático.

Em resumo, os radicais da direita brasileira não fazem, com seu discurso, uma crítica real ao comunismo. Fazem, isso sim, uma ode ao totalitarismo.

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