Um táxi na direção do atraso, da desigualdade e do prejuízo
Trânsito de táxis nos corredores de ônibus não melhoram o congestionamento, mas pioram a vida dos mais pobres
Os corredores de ônibus foram uma das grandes invenções do final século passado com o objetivo de melhorar as condições de trânsito nas grandes cidades e dar à maioria de menos aquinhoados alguma prioridade na disputa pelo espaço urbano.
No entanto, a admissão do tráfego de táxis nesses trechos originalmente de uso exclusivo do transporte coletivo não só destrói essa boa iniciativa como ainda leva ao agravamento da desigualdade na utilização das vias públicas, que, em princípio, deveriam ser geridas por regras que garantam mais direitos aos usuários dos tipos de trasporte que atendem mais pessoas.
Usar o argumento de que só os táxis ocupados por um ou mais passageiros podem normalmente trafegar nos corredores exclusivos não altera em nada a conclusão de que a liberação, quando adotada, teve mais caráter de campanha política junto a taxistas e seus passageiros do que motivação de interesse público.
O raciocínio que leva à conclusão contrária a essa liberação é simples: cada três táxis (com no máximo nove passageiros no total) ocupam o espaço de um ônibus comum (capaz de levar mais de 50 pessoas). Para piorar, taxistas ainda param em qualquer ponto para embarcar e desembarcar passageiros, criando represamentos que complicam fluxo de tráfego.
A afirmação de que o passageiro de táxi está pagando por um serviço expresso também não se sustenta. Além do taxista, ninguém mais, nem usuários de transporte coletivo nem o poder público, ganha um centavo a mais por essa apropriação privada da via de uso comunitário.
Num cálculo divulgado pelo G1 em 2018, realizado pelo economista Guilherme Vianna, da Quanta Consultoria, o Brasil perde anualmente R$ 267 bilhões em razão dos congestionamentos. Quase dez milhões de brasileiros gastam mais de uma hora para chegar ao trabalho nas principais capitais, quando o tempo máximo admissível deveria ser de 30 minutos.
Se, numa hipótese conservadora, a presença de táxis nos corredores exclusivos for responsável por 0,1% desse prejuízo, trata-se de uma perda 267 milhões de reais retirados do bolso dos passageiros de ônibus diretamente. Esse é um valor maior do que o PIB municipal alcançado por 3.500 cidades brasileiras.
Mas os táxis, assim como os carros que atendem por aplicativos (e que ninguém entenda isso como uma rusga pessoal), comprometem ainda mais o trânsito nas grandes cidades e, em consequência, a própria economia brasileira e é um erro considerá-los um elo da cadeia de transporte público.
Basta comparar duas situações para entender o problema: se uma pessoa sai de casa com seu próprio carro e se descola até o trabalho ou o shopping, onde deixa o veículo num estacionamento, trata-se de um cidadão que usou a via pública naquele espaço de tempo apenas. No entanto, se essa mesma pessoa vai de táxi, o carro que a atende usará a via no mínimo por alguns minutos até embarcá-la e mais algum tempo até parar num ponto ou atender outro passageiro. E há ainda os deslocamentos do táxi até o ponto inicial, todos os dias, além do retorno do motorista para sua casa.
Essa lógica não muda quando se consideram veículos com até três ocupantes e se torna ainda mais evidentemente desvantajosa para os táxis quando o carro particular tem motorista e três outras pessoas (número de passageiros que não caberia num único táxi).
Em resumo, táxis nos corredores de ônibus são mais uma daquelas perversidades inventadas em favor das minorias que detêm a maior parcela da riqueza. Simples assim.