Uma lógica repulsiva para os gestos de Bolsonaro desde o início da epidemia

Uma lógica repulsiva para os gestos de Bolsonaro desde o início da epidemia

Na conta de perdas e ganhos, o combate ao coronavírus pode atrapalhar os planos políticos do presidente. Só assim se compreende seu comportamento

Desde o começo da crise do coronavírus, é visível que Jair Bolsonaro e seu escudeiro (ou vice-versa) Paulo Guedes preocupam-se mais com a repercussão econômica da epidemia do que com as medidas profiláticas. Faz sentido, em princípio, porque um é o presidente de todos, incluindo os que sobreviverão, e tem de pensar no dia seguinte à catástrofe, e o outro, sendo encarregado da economia, olhe antes para o seu quintal, ainda mais quando outros ministros parecem determinados a saquear-lhe os bolsos e tornar ainda mais flagrante o fracasso de sua gestão à frente da pasta.
O que não parece fazer sentido, num primeiro olhar, são as declarações de Bolsonaro minimizando as dimensões da pandemia, a convocação que fez para as manifestações do dia 15 de março e o comportamento irresponsável registrado quando se atracou aos seus admiradores na porta do palácio. Tudo isso parece mera ignorância, indiferença, despreocupação e desdém, além de destrambelhado cálculo político. Mas pode não ser nada disso.
O presidente, como se sabe, esforça-se para enxergar o mundo pelo ângulo militar e se considera um estrategista capaz de criar alternativas de confronto, da guerrilha ao pleno combate, suficientes para destroçar qualquer inimigo. Depois que conseguiu vencer uma eleição graças à circunstância de uma facada no abdômen que lhe deu o salvo conduto para não ser moído na TV pelos adversários, aí foi mesmo que se convenceu da própria genialidade. Não é por outra razão que vai jogando do caminhão governamental aliados que importaram muito na sua campanha e que agora defendem ações diferentes das que concebe sua autossuperestimada pertinácia.
Daí que, calçado nos coturnos de sua napoleônica visão militar, Bolsonaro aparenta estar fazendo contas semelhantes à de um general que estima previamente as baixas decorrentes de uma batalha. E, assim, analisada com essa perspectiva matemática, burocrática e insensível, a questão do coronavírus vira um fenômeno necrológico cujas variáveis são relacionadas apenas ao tempo.
Num esforço de nariz tapado para a dose de iniquidade embutida nessa análise, pode-se acompanhar o raciocínio do seguinte modo. Especialistas dizem que praticamente toda a população terá contato com o vírus, mais cedo ou mais tarde. Calculam que mais de 80% dos infectados não apresentarão sintomas. Dos que chegarem a adoecer, a maioria não ficará em estado que demande procurar hospital ou realizar o teste de contaminação. Com base no histórico de outros países, a taxa de mortalidade entre os que chegam a ser tratados fica ligeiramente abaixo de 4%, com possibilidade de alcançar 15% nos grupos mais idosos com portadores também de outras doenças.
Não China, para 1,3 bilhão de habitantes, foram notificados até agora 81 mil infectados. Na Itália, com 60 milhões de habitantes, houve 35 mil notificações até o dia 18 de março. O cálculo mais dramático conhecido sobre a situação brasileira, divulgado pelo site Intercept e realizado por pesquisadores britânicos (confira aqui), indica que podem morrer até 478 mil pessoas contaminadas pelo vírus.
Então, reflete quem utiliza esse suposto mas não improvável método bolsonariano de abordagem epidêmica, independentemente do que se faça, quase todos serão infectados, até 40 milhões de brasileiros podem apresentar a doença, com internações em volume muitíssimo menor, e a fatalidade, na mais dramática das hipóteses, atingirá meio milhão de brasileiros, com predominância brutal, nessas mortes, de cidadãos acima dos 60 anos de idade.
Feitas essas contas, o investimento necessário para esticar o impacto da epidemia ao longo do tempo e os prejuízos decorrentes da paralisação praticamente total das atividades econômicas de fato compensam o resultado previsto? Deve-se lembrar que o presidente, já em campanha para a próxima eleição, perde apoio consistentemente e depende de resultados econômicos que ficam ainda mais distantes com o quadro de combate à pandemia.
Por tudo o que disse Bolsonaro até agora e pela forma que se comportou, sua conclusão pode ser de que o gasto e o custo não valem a pena. Ainda mais quando se considera que a mortalidade epidêmica, atingindo idosos e, provavelmente, também doentes crônicos, significa um alívio tanto nas contas tanto do sistema de saúde, a longo prazo, quanto da previdência. Talvez o melhor para os adeptos do cartesianismo baseado na avaliação militar de perdas e ganhos seja simplesmente deixar o vírus colher livremente as vidas que poderá levar de qualquer jeito, resguardando os cofres públicos e as perspectivas políticas do atual governo.
A reflexão chega a ser repulsiva. E só é possível diante de uma não menos repulsiva realidade estabelecida no país desde a posse de quem tem a capacidade de pensar desse modo.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
0
Sua opinião é importante. Comente!x