Na epidemia de paradoxos, um abraço pode matar

Na epidemia de paradoxos, um abraço pode matar

A primeira e maior vítima da pandemia do novo coronavírus é, evidentemente, o ser humano que morre em decorrência da contaminação. A segunda é o bom senso, mas não porque a doença afete a capacidade mental das pessoas.

Na verdade, o que ataca a capacidade de realizar julgamentos sensatos são os vírus dos paradoxos. Infecciosos, contagiosos e desconcertantes, esses agentes patogênicos podem ser mais letais do que a Covid-19.

Eles se disseminam ainda mais depressa do que o causador da pandemia, tanto pelo ar quanto pelo WhatsApp, e, ao embotar o juízo, fazem pacientes em número também mais significativo.

Mas atenção: os paradoxos nãos são os vírus. Os germes contaminantes são os efeitos de cada situação desconexa estabelecida no cenário pandêmico.

Dá para listar os principais paradoxos de uma lista que tende ao infinito. As consequências de cada um deles são fáceis de deduzir. Saiba quais são os principais:

1 – Paradoxo da afeição
Um beijo, um abraço, um aperto de mão e até um “olá” dito a menos de um metro podem matar. A distância passa a ser sinônimo de afeto.

2 – Paradoxo da profilaxia
Quanto mais as medidas de isolamento social derem resultado, mais parecerá, depois, que elas foram desnecessárias.

3 – Paradoxo da inatividade
Para o homem comum, fazer menos é fazer mais no combate à pandemia. Esconder-se do vírus é a forma mais eficaz de atacá-lo.

4 – Paradoxo da opinião
Quanto mais distante dos fatos, mais a maioria dos cidadãos tende a ter opiniões radicais sobre o assunto. A questão da cloroquina é um exemplo; não o único.

5 – Paradoxo da disseminação
Quanto mais testes um país realiza, pior parece a contaminação, porque ninguém tem anticorpos e todos podem ter resultado positivo em algum momento.

6 – Paradoxo da letalidade
O índice de mortalidade será tanto menor quanto maior for a aplicação de testes na população. A taxa real se saberá ao fim da epidemia, se todos os óbitos tiverem diagnóstico

7 – Paradoxo da informação
Quanto mais se disseminam dados sobre a evolução da epidemia, menos nos sentimos informados. O conhecimento é a ampliação da consciência da ignorância.

8 – Paradoxo da terapêutica
A sobrevivência futura de parte da população sofre maior ameaça na medida em que se tomam atitudes visando a sua sobrevivência imediata.

9 – Paradoxo da imunidade
Adoecer é condição inescapável para tornar-se imune. Pelo menos até que se tenha uma vacina contra a doença.

10 – Paradoxo da irrelevância
Quanto menor a importância econômica de uma região, mais pode demorar para que o vírus a alcance e maiores suas chances de aplicar o que se aprendeu antes.

11 – Paradoxo da mídia
A crítica à falta de boas notícias impede que se perceba o quanto são boas as notícias que visam a proteção de todos.

12 – Paradoxo ministerial
Quanto mais o ministro Luiz Henrique Mandetta se afasta do presidente, que tem o poder de autorizar o que é preciso fazer, mais se deve apoiá-lo.

13 – Paradoxo presidencial
Quanto mais o presidente se afasta da ciência, com apelos religiosos ou populistas, mais se fortalece o ministro que ele quer enfraquecer e demitir.

14 – Paradoxo político fatal
Isolado do e pelo presidente, o ministro se arrisca a ignorar propostas corretas apenas porque elas passaram antes pelo gabinete de Bolsonaro.