A má temática da aritmética – ou o desencanto estatístico

O governo diz que se guiará pelos testes e estatísticas para combater a pandemia. Mas ninguém controla os exames, faltam dinheiro e fornecedores e nem o número de mortes no Brasil é confiável
O título era irresistível. Mas não é preciso muita ginástica para demonstrá-lo verdadeiro.
O novo ministro da Saúde, cuja feição deixa dúvidas sobre estar cansado, entediado ou assustado, tem um discurso monocórdio segundo o qual só a existência de dados estatísticos, obtidos a partir de testes, há de guiar a adoção de rumos para o combate à pandemia do coronavírus, principalmente no que diz respeito às orientações federais sobre o distanciamento social e a paralisação de atividades.
Sabemos todos que isso é conversa fiada. Não há a menor certeza sobre a quantidade de infectados pelo vírus Sars-CoV-2 no Brasil e jamais se terá esse número com qualquer nível de precisão.
Primeiro, porque não há dinheiro para adquirir testes para uma parcela estatisticamente relevante de brasileiros. Depois, se houvesse dinheiro não haveria fornecedor capaz de entregá-los no volume necessário. Por fim, se houvesse dinheiro e fornecedor, seria impossível calcular a quantidade a ser usada, já que, em princípio, todo sujeito cujo resultado der negativo teria que voltar a ser testado depois de algum tempo, de modo a se fixar a velocidade de expansão da pandemia.
E há ainda uma bagunça completa no meio da escassez de testes, com laboratórios privados realizando exames até em domicílio, prefeituras com drive thru em que a identificação do testado é um mistério e, agora, até a liberação para farmácias venderem o serviço. Num programa de TV, chegou-se ao cúmulo de mostrar ao vivo a coleta de material de um dos apresentadores, com o anúncio, depois de algum tempo, do resultado. Deu negativo.
Enquanto isso, reportagens na televisão mostram que boa parte do material coletado, principalmente no caso de óbitos, vem sendo descartada por irregularidade no transporte e no armazenamento.
Ou seja, ninguém sabe nem saberá como evolui o coronavírus aqui no Brasil. Referências como os Estados Unidos, que já divulgam mais de um milhão de diagnosticados, só servem para mostrar que a Covid-19 será tanto mais encontrada na medida em que mais gente seja testada.
O The Covid Tracking Project, que acompanha com dificuldade a evolução dos testes naquele país, aponta hoje, dia 29 de abril, a realização de 5,8 milhões de testes até agora. Mas mesmo os analistas envolvidos no projeto admitem que os dados são parciais, já que há estados e entidades que reportam apenas a quantidade de diagnósticos positivos, sem informar o total de testes realizados.
Não há controle sobre quem fez o teste mais de uma vez, como acontece com profissionais de saúde que precisam ser monitorados em intervalos regulares para que não se tornem fonte de contaminação, em lugar de esperança de cura. De certo modo, há uma bagunça à brasileira também no monitoramento americano da epidemia.
O Reino Unido, cuja população é de 66 milhões de habitantes, tem a meta de realizar 100 mil testes por dia. Por enquanto, faz menos de 60 mil, embora anuncie a capacidade de realizar 75 mil. A prioridade neste momento são os sintomáticos com mais de 65 anos e aqueles, também com sintomas, que têm de deixar sua casa diariamente, para trabalhar, apesar da quarentena. Quem mora com essas pessoas também entra na lista de prioritários.
É fácil concluir que, no Reino Unido, o objetivo da testagem não é a definição de ampliar ou reduzir a quarentena e sim detectar doentes com a maior antecipação possível, diferentemente do que prega aqui o ministro Nelson Teich. Arrematando a insensatez, a deputada Carla Zambelli, do PSL paulista, afirmou hoje, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, que 4,8 mil municípios brasileiros não têm casos da doença e poderiam estar livres das restrições da quarentena.
O fato é que ninguém sabe quantas cidades estão de fato em quarentena, assim como não há a menor certeza de que muitas não estejam perdendo vidas por falta de diagnóstico. Há mais de 200 municípios brasileiros que não têm nenhum médico num raio de quilômetros. Na verdade, considerando o número de profissionais pagos pelo governo federal para atuar em regiões remotas, houve redução de 4 mil médicos nas cidades distantes dos grandes centros desde 2018.
Sobrariam, então, na busca de algarismos que possa nortear a coordenação federal de combate à pandemia, as estatísticas que contam mortos. uma vez que pelo menos esses casos é possível contar. Mas até aí há problemas. Em Manaus, o pior retrato possível da ação da Covid-19, o total de mortos comunicado diariamente avançava na casa de 30, 40 no máximo, enquanto o cemitério Tarumã informava ter triplicado o total de sepultamentos e as funerárias pediam ajuda militar para transportar caixões para reposição dos estoques locais.

O quadro acima mostra a evolução de mortes por cem mil habitantes no Estado de São Paulo, no Brasil e em outros países, dia a dia, em porcentagem. Os dados da capital paulista, onde a quantidade de óbitos é maior, são relevantes o suficiente para ser destacados. Não se destacam outras regiões do país porque a série histórica desses locais ainda não é representativa. As fontes são Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde e Seade-SP.
As linhas têm comprimentos diferentes porque representam a quantidade de dias decorrida desde que se chegou ao centésimo óbito registrado como resultado da Covid-19. Cada linha registra quanto por cento avançou o número de mortos a partir dessa data. Tecnicamente, o gráfico revela, com oscilações que devem ser consideradas exceções, que o avanço do coronavírus no Brasil segue a curva decrescente observada em outros países. Seria uma boa notícia, se fosse possível confiar na aritmética oficial.