Vagas em UTIs dão a medida da retomada na economia

A crítica quanto à reabertura do comércio tem relação com mais um paradoxo da pandemia: quanto mais isso parecer ter dado errado, provavelmente mais terá dado certo
Este texto precisa começar com parênteses: (Num Brasil menos imbecilizado, de pouco anos atrás, Sara Winter seria convidada para ilustrar a capa e rechear uma revista masculina, os ex-militares que confundem pijama com farda iriam ver as fotos em vez de escrever manifestos e seguiríamos todos a debater os problemas reais, como a pandemia, a desigualdade, o abismo econômico em que já estamos caindo e milhares de graudezas do mesmo quilate).
Na agenda de questões verdadeiras, é tal o volume de demandas e de desdobramentos a analisar em cada item que aparentemente nos perdemos quase todos em certezas infundadas, desconfianças irracionais e incongruências ideológicas explicadas apenas pelo fato de que, tantas vezes traídos, já não podemos mais crer em coisa alguma sem um receio imenso de que (“eles”, sujeito indeterminado, predicados inconfessáveis, mas objetivos conhecidos e objetos muito diretos) nos enganem de novo.
A escolha do monstro a ser visto de perto poderia recair sobre qualquer mazela, mas, por questão de emergência, vamos pela sanitária, cujo coronavírus cabe bem no microscópio.
Jair Bolsonaro e Donald Trump inventaram a politização do uso da cloroquina e a questão virou uma armadilha da insensatez. Mas o tema pertence ao campo da ciência e a decisão sobre uso é um problema de médicos e, no máximo, seus pacientes.
O mesmo se dá, agora, com a discussão sobre reabrir parte do comércio em algumas regiões ou fechar mais em outras. A questão é técnica e epidemiológica, mas, com consequências econômicas, deu origem a um debate político em que até os gandulas consolidam sólidas opiniões.
Podemos fazer de conta que não sabemos ou dizer que não queremos relembrar, mas é público, evidente e, por enquanto, imutável o fato de que entre 60% e 70% da população vão contrair o vírus e desenvolver anticorpos para a covid-19.
Nisso até Bolsonaro conseguiu ter razão, quando disse, no seu idioma miseravelmente generalizador, que “todos vão pegar”.
Não há sanitarista, epidemiologista ou infectologista que diga o contrário: como não existe vacina, a contaminação avançará até que se produza a imunidade de rebanho – condição na qual os poucos não contagiados terão a chance de não ter contato com outros humanos em estágio de transmissão.
Quanto a isso, o que o distanciamento social pode fazer é esticar o período ao longo do qual as pessoas se contagiam. Testes de contágio também contribuiriam bastante para ajustar as medidas, mas eles não estão disponíveis na quantidade necessária, não há coordenação suficiente para utilizá-los e é perda de tempo imaginar que isso será resolvido logo.
Resta o distanciamento. Com todo mundo na rua, a disseminação é rápida. Com mais gente isolada, lenta. E é por isso que, no começo do processo, foi preciso, na maior parte do país, que muita gente ficasse em casa, evitando que a contaminação em massa determine a existência de mais doentes graves do que leitos em hospitais e de mais doentes gravíssimos do que acomodações de terapia intensiva.
À medida em que se consegue algum controle sobre o avanço da epidemia e, por outro lado, se aumenta a capacidade do sistema de saúde para atender especificamente os casos graves e gravíssimos, é preciso, de certo modo, abrir a comporta do distanciamento social, sem, no entanto, perder o controle da torneira.
Dada a extensão e a variedade das condições no Brasil, cada região está, agora, num momento diferente desse processo.
Lembrando que a contaminação da maioria é inevitável, nessa nova fase, pelo menos no Sudeste, deixa-se que uma quantidade maior de pessoas circule e se contamine, para, entre outras coisas, aproveitar adequadamente a infraestrutura hospitalar de emergência.
Mesmo em tempos normais, o uso de UTIs em hospitais tem de alcançar entre 60% e 85% da disponibilidade, porque esses leitos custam muito caro e não faz sentido ter os equipamentos e as equipes consumindo recursos com sobra de vagas. Se essa vacância acontece, vale a lógica das companhias aéreas: é melhor vender o avião (extinguir leitos e demitir intensivistas) do que voar sem lotação.
Num momento em que se aumentou emergencialmente a quantidade de unidades de terapia intensiva e a mobilização de profissionais para atender doentes, a lógica é logicamente ainda mais lógica e redundante: para encurtar a pandemia, devem-se levar novos doentes para os hospitais, já que eles adoecerão de qualquer modo, evitando apenas que a utilização ultrapasse o limite da rede que se conseguiu instalar.
Nessa situação ideal – que Bolsonaro, por exemplo, não consegue enxergar – morrerão todos os que não reagirem adequadamente ao tratamento possível ou forem atacados violentamente por comorbidades, mas não deverá morrer ninguém do lado de fora dos hospitais, sem atendimento.
Daí que a discussão dos últimos dias sobre eventual precipitação das autoridades quanto à reabertura do comércio, entre outras medidas, vem sendo feita num nível raso demais, por analistas que, quando houver novos fechamentos, até esperados porque a velocidade de contaminação não é controlável como se gostaria, vão dizer que tinham toda razão em suas críticas.
Isso estabelece mais um paradoxo da pandemia (veja muitos outros no texto disponível neste link): quanto mais a reabertura da economia der certo, mais ela parecerá ter dado errado.
Houve alguns casos, na semana passada, de gente que criticou a reabertura dos shopping centers em São Paulo dizendo que era uma concessão ao poder de pressão dos comerciantes, desesperados por retomar vendas na véspera do dia dos anos namorados.
Pressão de fato houve e já havia um bom tempo, assim como é mesmo preciso aumentar as vendas para manter os empregos do comércio, para citar apenas uma das relevâncias desse cenário.
Só que os tais críticos esqueceram que três semanas antes, no dia das mães, a terceira data anual mais lucrativa do comércio (atrás do Natal e da black friday), as mesmas autoridades mantiveram shoppings e comércio de rua fechados. As lojas venderam 76% menos neste dia das mães do que no ano anterior na região Sudeste.
Ninguém conseguirá calcular com a mesma precisão quantas pessoas deixaram de morrer na porta de unidades de saúde graças a essa providência, mas não há dúvida de que essas vidas valem mais do que o dinheiro perdido.
Não haverá autoridade cínica como foi Bolsonaro a certa altura, que venha agora dizer que se chegou a um momento em que as mortes deverão até aumentar, em termos relativos. O assunto é eleitoralmente desagradável.
Mas, para quem quiser manter o olho no termômetro efetivo da situação, continuarão disponíveis as estatísticas diárias sobre disponibilidade de leitos nos hospitais e nas UTIs. Se há vagas, tudo está sob controle. Pode não ser da forma como se desejaria, mas sob controle.