Anotações importantes sobre as vacinas aprovadas pela Anvisa

Saber que uma vacina tem 50,38% de eficiência e outra apresenta índice de 70,42% nesse quesito é uma informação importante, considerando que boa parte dos imunizantes existentes no mundo oscila nessas mesmas faixas, mas há outros detalhes bastante interessantes mostrados nos estudos protocolados na Anvisa, principalmente sobre a quantidade e a qualidade dos testes de imunização realizados até agora.
Foram analisadas duas vacinas. O imunizante conhecido como resultado dos estudos da Universidade de Oxford com o Laboratório AstraZeneca utilizado nos ensaios conduzidos no Brasil pela Fiocruz foi fabricado sob licença pelo laboratório indiano Serum e recebeu o nome comercial de Covishield. O estudo do Instituto Butantan, com a vacina Coronavac, utilizou doses recebidas do laboratório chinês Sinovac, que desenvolveu o produto.
Ambas – AstraZeneca e Sinovac – solicitaram e receberam autorização para uso emergencial de suas vacinas. Comprometeram-se também a agregar novas informações com o prosseguimento dos estudos, que ainda estão longe do final. Nenhuma das quatro vacinas que têm testes sendo realizados no Brasil está com pedido de registro definitivo solicitado na Anvisa.
No caso de uso emergencial, cada solicitação vale apenas para uma quantidade específica de imunizantes. O Butantan recebeu liberação para 6 milhões de doses que já foram importadas. A AstraZeneca pode utilizar 2 milhões de doses, mas o governo federal, comprador do produto, não obteve ainda autorização das autoridades indianas para fazer a importação.
Até solicitar o uso emergencial, o Butantan consolidou dados envolvendo 6 057 voluntários que receberam duas doses da vacina e 6 058 que receberam duas doses de placebo, todos maiores de 18 anos, em 16 centros de controle espalhados pelo país. Essa população foi recrutada entre profissionais envolvidos com o atendimento de pessoas infectadas pela Covid-19, maneira encontrada para acelerar o processo de exposição ao vírus.
O estudo coordenado pela Fiocruz envolveu no Brasil 2 063 pessoas que receberam a vacina e 2 025 no grupo de controle, todas também com mais de 18 anos. Para efeito de análise, foram apresentados também resultados referentes a 3 744 vacinados no Reino Unidos em comparação com 3 804 indivíduos que compuseram o grupo de controle.
No total, desconsideradas intercorrências não significativas de encerramento antecipado da participação de voluntários, entre os vacinados com a Coronavac registraram-se 85 casos de pessoas que contraíram a doença, todas com baixa gravidade. No grupo que recebeu placebo, registraram-se 166 casos – um grave, seis moderados e 159 leves. Nenhum dos voluntário precisou ser entubado ou mesmo receber terapia com oxigênio.
Em relação à Covishield, considerando a soma de testados no Brasil e no Reino Unidos (5 807), houve 30 casos de Covid-19 entre os que receberam a vacina, independentemente da dosagem, que variou em alguns momentos, e 101 contaminados na população de controle (5 829). Não houve nenhum voluntário vacinado que tenha precisado de hospitalização. Considerando apenas os que faziam parte do grupo de controle, numa tabela com universo ampliado para 6 297 pessoas, contaram-se 141 doentes, nove hospitalizados, um em estado considerado grave, um que precisou de oxigênio e um que faleceu.
O que todos esses números revelam é que, como concluíram os especialistas da Anvisa, são vacinas que, diante das circunstâncias de crise, podem ser utilizadas e devem contribuir para a redução de infecções se combinadas com a manutenção do distanciamento social e de outras medidas preventivas, como as de higiene. Ambos os estudos, porém, precisam ser ampliados, porque para menores de 18 anos e para mulheres grávidas, não têm nenhuma utilidade.
Em relação a idosos, os dois trabalhos também utilizaram totais de voluntários insuficientes para considerações específicas, embora os números observados sejam comparáveis aos obtidos na avaliação geral. Mas é importante anotar que, nos dois estudos, as curvas de contaminação tendem a se estabilizar para os vacinados e a continuar ascendentes para os grupos não imunizados – o que permite inferir que se poderá descobrir, no comparativo de proteção, uma condição ainda melhor para quem toma a vacina. A conferir.