Quando e como deixaremos de pagar a conta da educação moral e cívica

Quando e como deixaremos de pagar a conta da educação moral e cívica

Bolsonaro é sintoma da nossa doença: a falta de educação. Ele será superado dentro de algum tempo, com suas próprias contribuições. Mas ainda não há cura para o mal político que aflige o Brasil

O ensino técnico forma engenheiros, físicos, linguistas, contadores, advogados, médicos e também professores. Ou seja, forma mão de obra necessária ao desenvolvimento tecnológico. Mas não é suficiente para formar cidadãos. O desprezo, às vezes negação, das disciplinas que fazem perguntas em lugar de apresentar respostas, como a filosofia, a antropologia e a sociologia, entre outras, estabelece consequências na história.

É bem provável que sejam exatamente essas consequências que hoje se abatem sobre alguns países nos quais lideranças autoritárias, descompromissadas com a democracia e capazes até de negar elementos da própria ciência, alcançam apoio popular suficiente para estabelecer-se no governo. Há, evidentemente, outros elementos nessa composição, mas não cabe ignorar a condição alcançada pelo Brasil, que pode ser descrita, numa expressão popular, como mera “falta de educação”.

Simplificando: Bolsonaro seria um problema limitado a sua própria biografia se não houvesse em torno dele uma sociedade em que uma parte considerável de eleitores, suficiente para compor a maioria num determinado pleito, sofre de uma disfunção social produzida em larga medida pelo processo educacional adotado décadas atrás.

Ainda simplificando: a partir do momento em que a educação moral e cívica – com fundamentos na estreita visão de caserna do que seja cidadania – incrustou-se nos currículos escolares, nas fendas deixadas pelas matérias que questionam conceitos de autoridade e poder, abriu-se espaço para a produção em massa, fora do mundo militar, de gente que enxerga o mundo em branco e preto, às vezes sem nenhum meio tom.

Nessa postura simplista, democracia e direitos de todos os tipos – comportamentais, religiosos, políticos, raciais, de gênero, econômicos – são mera desordem, atraso, paralisia, infâmia, atentado aos bons costumes, aos valores tradicionais, ao progresso, à economia, à família. A tolerância, o debate e o respeito a posições divergentes não sobrevivem num ambiente com essa toxicidade.

É fato que muitas pontes passaram por cima das águas da formação educacional adotada na ditadura e que outras e saudáveis experiências foram adotadas depois dela, notadamente a partir da redemocratização. Muitas matérias que fazem pensar mais do que fazer retornaram às grades curriculares em várias reorganizações do ensino.

Mas não só a consistência e profundidade dessas reformas comprometeram-se pela descontinuidade como as raízes viscerais do projeto ditatorial cresceram por longo tempo, repercutindo em mais de uma geração, no cenário social favorável do milagre econômico dos anos 1970. A coincidência entre perdas financeiras e reabertura democrática, por outro lado, atingiu muita gente e fez nascer conexões imaginárias entre as duas coisas.

Ironicamente, assim como a educação consistente fornece, a longo prazo, bases para se alcançar uma civilização resistente ao autoritarismo, o tecnicismo desacoplado de um projeto nacional solidário e cosmopolita também pode penetrar fundo na organização social. Sem referências para lidar com a complexidade do mundo é fácil aderir a promessas vazias e paternalistas.

E chega-se a Bolsonaro, cuja visão de mundo foi formada nos quartéis, no pior momento da ditadura e ainda contaminada pelo que pode haver de pior na tolerância hierárquica a pequenas manifestações de anarquia, como os abusos de soldados sobre recém-recrutados, cabos sobre uma esquadra, sargentos sobre cabos e assim por diante.

Machismo, homofobia, violência e mesmo cumplicidade diante de ações delituosas são consideradas, nesse ambiente, componentes da camaradagem da farda. No caso do presidente, acrescentou-se a agravante da amotinação e do planejamento de ações terroristas, com subsequente punição indolor e aproveitamento da rebelião populista salarial na bandeira político-eleitoral que o levou até 2018.

São, no entanto, os eleitores de Bolsonaro que interessam de verdade em primeira análise, porque o presidente e sua corte são provisórios e, como ele mesmo já observou, “tudo acaba um dia”, aí incluído o infortúnio a que sua gestão submete o país.

Decorridos mais de dois anos de vigência da desdita, restam, a se acreditar nas pesquisas, perto de um terço de eleitores brasileiros que avaliam positivamente a gestão do ex-capitão e praticamente uma maioria, ainda, disposta a votar nele novamente em 2022. São esses brasileiros, satisfeitos com a administração de miudezas e com uma pauta mais do que conservadora, retrógrada, que é necessário entender para descosturar sua ligação com o risco representado pelo presidente.

Dado que têm o genoma marcado pela tal “falta de educação” e agem com motivação egoísta facilmente orientada pelo discurso antimídia e anticomplexidades, com o reforço da informação falsa nas redes sociais e do enganoso proselitismo populista anticorrupção, há algo que se possa fazer para que enxerguem sem esses óculos da deformidade a dramática realidade?

Como fazer essa parcela se dar conta de que a economia naufraga irremediavelmente; a desigualdade prospera como nunca; a inação na saúde determina mortes evitáveis; o preconceito grassa dentro do governo; a gestão educacional evolui negativamente; a ação política reencena composições reconhecidamente parasitárias e corrosivas; e a própria bandeira contra a corrupção é usada para encobrir a tentativa de bloquear a investigação de delitos na alçada da família presidencial e, paralelamente, oferecer espaço aos cupins de sempre?

Quando os partidos vivem talvez sua maior desorganização programática desde a Constituinte e se revelam incapazes de assumir protagonismo, como seu viu no processo eleitoral para o comando do Legislativo, e as organizações não-governamentais se mostram pouco enraizadas socialmente e diminutas diante da pauta extensa, aparentemente propositalmente despistadas com o pipocar de despautérios ambientais, sociais e culturais, de onde pode surgir uma resposta que esclareça os obscurecidos?

Não é simples nem fácil, mas há instituições a se mobilizar rapidamente com esse objetivo. Primeiro, e já em ação, existe o Judiciário, poder disponível, estruturado e competente para principalmente desmontar alicerces falsos dos chamados muros de honestidade, fortes de competência e edifícios de desinteresse.

A Justiça é lenta, tem passos e contrapassos, deixa escapar ratazanas, mas no longo prazo não tem razão para manter compromisso com o atraso. Há articulistas que fazem exames apressados do Judiciário, com estetoscópio, e vendem seu resultado como se fossem tomografias. Vale buscar os interesses maiores (ou menores) que motivam esses diagnósticos.

Mais rápida que a da Justiça pode ser a ação de instituições que, não por acaso, dão arrepios em Jair Bolsonaro. As universidades e as associações profissionais de relevo histórico nacional têm permeabilidade social suficiente para alcançar os indivíduos componentes da massa. Campanhas funcionam para motivar incautos, como se viu na ascensão nazista, mas dão pouco resultado na mão inversa.

A opinião daqueles que são considerados seus iguais influencia muito mais uma pessoa do que qualquer vizinho ou carreata. OAB, ABI, sindicatos e entidades congêneres podem ter papel relevante na opinião pública se agirem articuladamente.

O mesmo vale, aliás, na situação oposta, como se pode ver, por exemplo, na curiosa posição do Conselho Federal de Medicina quanto à utilização da cloroquina e ivermectina no tratamento precoce da Covid – situação que se explica em parte pelo pavor da classe médica, em sua maioria, diante da possibilidade de afrouxamento nas regras do Revalida, que dá a profissionais formados no exterior a possibilidade de clinicar no Brasil. Aceita-se o curanderismo para manter o corporativismo.

Exemplo adverso também está no púlpito de seitas evangélicas que vivem da exploração dos miseráveis e alimentam um projeto político próprio, às vezes golpeado, a exemplo do caso do ex-prefeito do Rio, Marcelo Crivella, mas longe de sofrer abalos verdadeiros.

Kristin Laurin, pesquisadora da Universidade de Colúmbia Britânica, no Canadá, fez pesquisas que demonstram que as pessoas podem, sim, mudar de opinião, principalmente quando constatam por si mesmas que uma nova situação tem condições que não enxergavam antes. Mas isso não autoriza acreditar que essas pessoas mudam em sua personalidade quando mudam de opinião.

Ou seja, diferentemente do que parece, há, sim, maneiras de aumentar o regimento de ex-bolsonaristas com a insistência em teses menos enganosas tratando-os informativamente – nunca depreciativamente. Para dar um exemplo concreto, o twitters do ex-prefeito de São Paulo e ex-candidato Fernando Haddad, que ironiza, ridiculariza e confronta a militância do presidente, na prática, funcionam como pregação para convertidos e desaforo para os adversários. Valem o mesmo que os desaforos de Ciro Gomes.

Mas fatos como a oportunística guinada do governador João Dória para a oposição – em causa própria, mas oposição –, a defecção e o comportamento crítico do general Santos Cruz e o bombardeio de ex-aliados do presidente como Joyce Hasselman, Major Victor Hugo e Alexandre Frota fazem furos no casco no navio bolsonarista, e a água vai se acumulando nos porões.

Isso, sem contar os tiros no pé que Bolsonaro dispara por conta própria. Milhares de pessoas perderam familiares que desacreditaram de máscaras e distanciamento por seguir o presidente. Caminhoneiros já sabem o quanto foram hipocritamente usados em 2018. A China e a Índia tornaram-se problema unicamente por iniciativas do governo. O trumpismo deverá custar caro ao país.

Essa coleção inteira serve para recordar apenas alguns exemplos e deixa para o final a mais recente das atitudes que mesmo os mais radicais entre os eleitores do presidente estão com dificuldade para digerir: a aliança com o Centrão e o esforço para fazer de Arthur Lira o comandante da Câmara dos Deputados.

Com o tempo e a chegada das faturas que o grupo político cobrará pela sustentação do governo, aqueles filhos do golpe militar vitimados pela “falta de educação” serão irremediavelmente traídos na sua convicção mais sólida, a que os levou a correr atrás de um discurso anticorrupção. Se tinham uma válvula de emergência em Sérgio Moro, ela ameaça falhar na medida em que o ex-juiz torna-se a cada dia um candidato a réu por abuso de autoridade.

O drama, para a democracia, é que esses brasileiros podem mudar de opinião sobre o ex-capitão, mas não mudarão em sua essência e na disponibilidade para ouvir e dar crédito a novos discursos populistas. Só um projeto que respeitasse as aspirações econômicas e até culturais de grupos diversos como ambientalistas e madeireiros, banqueiros e assalariados, ateus, católicos e evangélicos, entre milhares, daria conta de pacificar o debate. Não há agente com credibilidade nesse nível, infelizmente.

Descobrir como sair da radicalização instalada no Brasil é bem mais difícil do que superar um capítulo do processo. Bolsonaro, que passará, provavelmente em poucos anos, é um sintoma. Não é a razão da doença. Ele será superado. Mas a vacina para o grande mal autoritário ainda não foi descoberta, embora seja correta a suspeita de que ela passa pela educação.

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