Notas, informações e palpites sobre a imprensa e os dias que correm

Notas, informações e palpites sobre a imprensa e os dias que correm

Vítima de pirataria nas redes sociais, a grande imprensa dá corda à trolagem pró-Bolsonaro na cobertura da CPI da Covid e deixa de abordar o massacre no Jacarezinho pelo ângulo que menos interessa à polícia

A realidade anda tão veloz que a maioria desistiu de gastar tempo discutindo longa e fundamentadamente qualquer questão. Além disso, o debate anda tão raso que qualquer profundidade já desperta, no autor, a sensação de desperdício e, na audiência, impaciência misturada com incompreensão e intolerância.

Então, vamos adotar, pelo menos brevemente (porque ninguém é obrigado a escolher nada para sempre), o método breve e quase inconsequente das redes sociais, para tratar de alguns temas.

Imprensa e violência policial

BBB X Massacre no Jacarezinho. Se alguém se der ao trabalho de fazer um balanço sobre a extensão da cobertura online sobre a final do Big Brother Brazil (é com “Z” ou “S”?) e da ação policial na favela provavelmente descobrirá qual o tipo de assunto que mais interessa aos editores dos sites brasileiros de informação. Não vale neste caso a desculpa de fazer jornalismo que atenda aos anseios do leitor. Trata-se, na verdade, somente de periodismo caça-cliques.

O que é periodismo caça-cliques? Como os veículos de internet são em parte remunerados por anunciantes na medida em que mais páginas contendo propagandas são exibidas, editores e redatores são instruídos a fazer chamadas que levem os usuários a perder-se num labirinto de cliques, geralmente instigados pela curiosidade sobre a vida alheia ou mórbida. Por isso, parte destacada da cobertura sobre o Jacarezinho foi a dos vídeos sanguinolentos, que, mesmo rendendo muita visualização doentia, não foram páreo para o BBB.

A raiz da questão nas favelas. Se a polícia carioca aceita bolsonarianamente a discussão sobre operação de extermínio no Jacarezinho certa de quem tem apoio do “cidadão de bem”, cabe debater o problema e os resultados da ação em seus próprios termos. Segundo se informou, o objetivo era cumprir 21 mandados de prisão de integrantes de uma facção criminosa. Pois bem. Só foram presas seis pessoas e apenas três delas estavam entre os originalmente buscados. Entre os mortos, havia outros três que estavam na lista de mandados. Não vem ao caso, ao contrário do que tenta demonstrar a chefia policial, se os mortos eram ou não bandidos (seria apenas sorte se todos fossem). O que se pergunta é onde reside o sucesso de uma operação que mata 27 para prender três. Onde?

Imprensa e pirataria social

O PDF envenena o jornalismo. Se os veículos impressos não estavam dando conta de matar-se sozinhos com a opção preferencial pela cobertura medíocre proporcionada por baixos salários, redução de equipes e desinvestimentos absoluto em reportagem e originalidade, as redes sociais dão seu empurrão para o caminho da extinção com o compartilhamento de textos integrais e até PDFs de edições inteiras de jornais e revistas via WhatsApp, Telegram e assemelhados. Cada receptor desses arquivos é um assinante em potencial a menos e o fenômeno, com outros formatos, atenta também contra sites noticiosos, alvo de compartilhamento de senhas ou do mero copy e paste.

Imprensa e uma CPI de coisa nenhuma

Debater cloroquina é perda de tempo. Uma em cada 15 CPIs chega a conclusões que levam a alguma mudança relevante no Brasil. Não será o caso da CPI da Covid, já transformada numa bobagética CPI da Cloroquina, que se arvora a condição de revista científica e passa o tempo discutindo a inelegibilidade do medicamento para a Sars-COV-2. Bolsonaro desviou a atenção do país para o tema – que é assunto específico entre médico e paciente – e conseguiu enrolar junto os senadores, os depoentes e (surpresa!) a imprensa nacional. Um eventual veredito de ingenuidade, por acreditar num remédio inútil, não serviria para punir o presidente por coisa nenhuma.

Uso eleitoral da pandemia. Um ângulo inexplorado da questão é a campanha à reeleição que Bolsonaro vem fazendo junto aos economicamente mais atingidos pela paralisação de atividades comerciais, com seus minicomícios sem máscara e os estímulos pró-covid em seus pronunciamentos. Ou seja, enquanto a maioria busca confrontar uma ameaça sanitária, o presidente enxerga na epidemia uma oportunidade política para se contrapor a governadores e prefeitos que estarão ao lado de seus adversários na próxima eleição.

As provas materiais do crime. Foi também para elevar seu nível de popularidade que o presidente jogou truco com o Congresso na definição do valor do auxílio emergencial no ano passado, chegando a um benefício alto demais para as disponibilidade financeiras reais do governo e, além disso, distribuído sem controle efetivo. Conclusão: dinheiro e beneficiados além da conta num primeiro momento; dinheiro e beneficiados de menos agora, quando a pandemia persiste. No rol de atitudes criminosas – e puníveis – está também a má gestão de Pazuello, que, aparentemente, tinha o propósito de complicar a vida dos governadores para reforçar a tese do chefe segundo a qual o distanciamento social e a redução da circulação de pessoas matariam a economia mas não dariam conta do vírus.

Os caras errados nos lugares errados. Nada melhor para ajudar Bolsonaro do que a presença de Renan Calheiros na relatoria da CPI e de Omar Aziz na presidência. Em uma semana de atividade, não resta mais dúvida de que ambos estão encenando um teatro cujo único objetivo é passar (muito) pano nas próprias (sujíssimas) biografias, com atuações histriônicas que nada contribuem para o esclarecimento de fatos relevantes. O verdadeiro objetivo, porém, foi atingido: atrair a cobertura ampla da imprensa para o lado desimportante do problema. Exemplo mais recente foi a polêmica inquirição de Fábio Wajngarten, cujo depoimento na CPI, assim com a entrevista à Veja, mira criar uma cortina de fumaça para proteger o presidente – com plena contribuição dos dois senadores e de vários outros integrantes da comissão.

O que, enfim, caberia investigar? Em lugar de dar voltas sobre a cloroquina e em vez de pressionar as testemunhas como se fossem elas os criminosos a investigar, a CPI bem poderia buscar esclarecer que dia, por exemplo, Bolsonaro foi informado da falta de oxigênio em Manaus, já que tudo indica que o governo demorou para agir embora o presidente tenha sido informado do problema com antecedência. A omissão do presidente pode ser caracterizada como crime de responsabilidade, assim como suas atitudes públicas relativas à saúde da população. Por isso, também caberia encaminhar ao Planalto um questionário perguntando por que o presidente não usa máscara em situações de aglomeração e como justifica suas manifestações contra as vacinas gravadas em vídeo. Isso levaria a uma CPI bem menos espetaculosa e muito mais eficiente. Mas não parecem ser esses os objetivos de Renan e Aziz.

 

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