Pazuello só pensa naquilo: ir para a reserva remunerada do Exército

Conclusão a partir de evidências: acordo do presidente com o ex-ministro da Saúde previa blindagem de Bolsonaro na CPI e, depois, a transição do general para a reserva, com boa remuneração e candidatura em 2022
Não. Não houve nenhum acaso ou deslize por parte de Jair Bolsonaro e seu escudeiro, Eduardo Pazuello, nem no confuso depoimento na CPI da Covid e muito menos quando o general subiu no palanque político do presidente, durante a manifestação que se tornou conhecida como delivery de vírus, tal a quantidade de motociclistas e de gente sem máscara, no Rio de Janeiro.
Este artigo e estas afirmações não se baseiam em fatos, mas sim nas evidências detectáveis tanto pela observação dos movimentos de ambos os personagens quanto pela experiência no relacionamento com políticos. Trata-se de um roteiro bem fácil de acompanhar, principalmente se forem considerados os pressupostos que justificam as atitudes dos dois envolvidos.
O presidente e o ex-ministro da Saúde combinaram tudo desde muito antes da ida do militar à CPI. Nas conversas entre eles, valendo o “um manda e o outro obedece” de sempre, Bolsonaro decidiu que seu comparsa assumiria tudo o que fosse necessário diante dos senadores e, nos dias seguintes, apareceria ao lado do ex-capitão em alguma grande manifestação.
O objetivo era, de um lado, blindar o presidente em relação à desastrada gestão de combate à pandemia durante o período em que Pazuello esteve à frente do Ministério e, de outro, criar condições para que o general, como oficial da ativa, seja afastado do Exército por indisciplina, recebendo a indecorosa punição da reforma com direito a todos os vencimentos regulares mais a incorporação dos benefícios que acumulou no exercício de funções especiais ao longo da carreira.
Trata-se da melhor saída que encontraram para garantir um futuro para o general, sem risco financeiro e ainda com veleidades políticas. Bolsonaro também convidou o general para candidatar-se a um cargo legislativo nas próximas eleições, pelo Rio de Janeiro ou pelo Amazonas, no mesmo partido ao qual vier a se filiar o presidente. Roberto Jefferson, que se esforça para ter o atual ocupante do Palácio do Planalto estrelando o PTB como candidato à reeleição, não desaprova a ideia. Seria capaz, como estrategista político, de propor a Pazuello essa possibilidade.
Para Pazuello, trata-se de uma solução perfeita, já que mesmo antes de depor na CPI tinha uma situação insustentável entre os colegas de farda. Suas fartas demonstrações de incompetência à frente do Ministério e o comportamento de sabujo em relação ao presidente causaram constrangimento enorme entre os colegas da ativa e, depois disso, não havia como alocar o general em qualquer posto no qual a tropa não demonstrasse descontentamento.
A exposição pública da baixa qualificação de um general e até seu evidente excesso de peso sempre foram vistos com reservas pelos militares mais discretos e preocupados com a imagem da Arma. Reclamam de sua incapacidade oratória, de erros logísticos cometidos como ministro, mesmo sendo apresentado como especialista no tema (embora não tenha formação específica na área), e também do fato de, tendo dificuldade para manter-se magro, aceitar que o presidente Bolsonaro o chame em público pelo apelido de “Gordo” – o que não fica bem para um militar que deve dar exemplo de moderação e disciplina em todos os sentidos, incluindo o comedimento à mesa.
Vale recordar que é na própria caserna que mais é lembrada a relação do nome de Eduardo Pazuello com um caso de desvio de munições ocorrido em 2005, quando o agora general comandava o Depósito Central de Munição do Exército Brasileiro, em Paracambi, no Rio de Janeiro. Nunca houve acusação ou denúncia contra ele, mas o caso ficou na história como uma situação mal resolvida. Caso venha mesmo a candidatar-se a deputado, como é bem provável, o ex-ministro já entra na vida partidária com um currículo semelhante ao de muitos outros apoiadores do presidente.