Do bolsonarismo ao boçalnazismo – um país em marcha (à ré)

Eles são nazistas na pretensão de ser superiores, especiais, diferenciados, imbrocháveis, imorríveis e incomíveis; e são também boçais por não se dar conta de que suas certezas derivam exatamente de sua ignorância.
Há uma discussão beirando a imbecilidade a respeito da prisão do ex-deputado Roberto Jefferson. O sujeito divulga vídeos ensinando às pessoas como atirar e como espancar agentes de segurança. Se não é explícito na referência a agentes de segurança, torna-se inequívoco quando menciona inimigos munidos de spray de pimenta – um recurso das forças policiais para conter distúrbios de massa.
Em qualquer país democrático, quem age desse modo ganha o direito de passar um tempinho na cadeia, no mínimo para dar explicações sobre seus objetivos. Fosse o MST o autor dos vídeos, ou o Partido da Causa Operária, o presidente Jair Bolsonaro seria o primeiro a pedir a prisão dos envolvidos. O que se deveria esperar? Que Jefferson criasse um curso online de fabricação e instalação de bombas caseiras especificamente preparadas para os integrantes do STF?
As alegações de que há violação de liberdade de expressão quando se age contra o professor e os aprendizes de terroristas são, no fundo, a prova cabal de que o bolsonarismo, já transmutado em boçalnarismo com tudo o que o presidente fez até a pandemia, caminha, a partir dela, no rumo do boçalnazismo. Só nas proximidades do eixo das ideias autoritárias se imagina que a lei possa proteger a liberdade de atentar contra a democracia.
Na origem, o bolsonarismo servia para abrigar os eleitores, que descontentes com os governos passados, acreditaram no discurso anticorrupção e, privados de debates na campanha pela providencial facada no candidato, embarcaram na onda do candidato do PSL.
A grande mídia, com atos e omissões, deu muita força a essa gente, mas, na medida em que ela mesma começou a abandonar o presidente Jair Bolsonaro, logo depois da posse, esses eleitores passaram rapidamente a compor a curva das pesquisas que mostra o desabamento do apoio popular ao ex-capitão.
Restaram nas fileiras do presidente os boçalnaristas, num grupo que combinava, pela defesa de privilégios diversos, os ainda incapazes de perceber os riscos políticos de apoiar um governante sem projeto, sem educação e sem rumo com os que se põem nesse entorno exatamente porque desejam viver (e mandar) numa sociedade de modelo discricionário.
Mas boa parte daqueles que apoiavam Bolsonaro por sentir-se inseguros nas condições de competição estabelecidas num ambiente plural, democrático, multigênero e de viés igualitário também já deixou o barco, nas levas mais recentes, diante da constatação de que o perfil do presidente avança bem além do conservadorismo e se ancora no autoritarismo clássico – sem qualquer concessão à meritocracia.
Restaram, nas hostes presidenciais, os boçalnazistas – que são nazistas na pretensão de ser superiores, especiais, diferenciados, imbrocháveis, imorríveis e incomíveis; e são também boçais por não se dar conta de que suas certezas derivam exatamente de sua ignorância.
Muita gente já tratou do chamado efeito Dunning-Kruger, definidor, na psicologia, do fenômeno que leva os desinformados a desenvolver enormes certezas, justamente pela incompetência para enxergar e lidar com todas as variáveis. Não por acaso, mas por ter conhecimento de causa, até Olavo de Carvalho, o guru primal do boçalnazismo, já explorou o tema.
Boçalnazistas existem em todos os estamentos, mas são especialmente perigosos em alguns enclaves. Prosperam prioritariamente entre grupos que têm como ponto de coesão uma atividade de características de imaginário heroico, às vezes romântico, não raramente marginal. E aí cabem soldados, policiais militares, caminhoneiros, grupos de motoqueiros, garimpeiros, milicianos…
Bolsonaro parece saber onde procurá-los.
na mosca?