Pinceladas indispensáveis de verdade sobre as notícias falsas

“Contou que numa pequena ilha do Pacífico, onde vivera alguns meses, a mentira era considerada o mais sólido pilar da sociedade. O Ministério da Informação, instituição venerada, quase sagrada, estava encarregue de criar e propagar notícias falsas. Uma vez à solta entre as multidões, essas notícias cresciam, adquiriam formas novas, eventualmente contraditórias, gerando amplos movimentos populares e dinamizando a sociedade. Imaginemos que o desemprego atingia níveis considerados perigosos. O Ministério da Informação, ou, simplesmente O Ministério, punha a circular notícias segundo as quais fora encontrado petróleo em águas profundas, porém ainda dentro da zona marítima exclusiva do país. A possibilidade de uma eminente explosão econômica revitalizava o comércio, os técnicos expatriados regressavam a casa, desejosos de colaborar na reconstrução, e em poucos meses nasciam novas empresas e novos empregos. Nem sempre, é claro, as coisas corriam da maneira prevista pelos técnicos. Certa ocasião, por exemplo, O Ministério, que, a despeito do nome, foi sempre uma estrutura independente do poder político, lançou sobre um opositor, na intenção de lhe destruir a carreira, a suspeita de que este mantinha um caso extraconjugal com uma famosa cantora inglesa. O boato cresceu e ganhou força, de tal forma que o opositor se divorciou da esposa, casou com a cantora (que antes nem sequer conhecia), e com isso alcançou enorme popularidade, vindo a ser eleito, anos depois, presidente do país.”
José Eduardo Agualusa, em “O vendedor de passados”