Sobre os perigos da criação de animais no quintal e de militares nos quartéis

Por que criamos e tratamos com tantos cuidados uma fera que consome altos recursos e, na primeira oportunidade, morde a mão do dono, aterroriza a família, destrói o que está a seu alcance e abana o rabo para o inimigo?
As forças armadas lembram a um sujeito, no Rio de Janeiro, sua história com um pitbull.
Uma jovem família carioca mora num bairro nos limites de uma área conhecida pela insegurança.
Mesmo com orçamento apertado, o chefe dessa família resolve adotar um elemento de segurança e, em vez de comprar um alarme, adota, de fato, um filhote de pitbull.
O cachorrinho demanda inicialmente alguns investimentos, mas – vá lá! – são gastos que devem garantir a tranquilidade da família: casinha, caminha, cobertor, veterinário, vacina, ração, pet shop.
E brinquedos. São muito importantes os brinquedos.
O proprietário do animal até faz uma analogia com os militares: quartéis, alojamento, uniforme, rancho, transporte, salários.
E medalhas. São muito importantes as medalhas.
Sai caro, mas não se pode fazer economia quando se trata de um assunto tão relevante quando a seguridade.
E, aí, o pitbull cresce. A expectativa do dono é que a fera garanta a inviolabilidade do seu quintal e a integridade da família.
Mas sobrevêm algumas decepções, em poucos meses, porque a despesa aumenta muito.
O pitbull é um esganado, entope-se de ração e não aceita qualquer uma. Só come a premium a mais dispendiosa do mercado, vendida em pacotes pequenininhos e caros, muito caros. Sem essa, não come e late a noite inteira.
Passa um tempinho e nem essa ração ele quer mais. Agora só come carne. Bifes grandes, sem osso e levemente passados no azeite. Tentaram óleo de soja. Recusou, chorou e latiu. Voltaram para o azeite.
E precisa passear, o danado, exercitar-se, porque já está ficando gordo.
As crianças não podem com ele, a mulher não tem confiança e ao marido falta tempo para isso.
Contrataram um passeador profissional. Mais uma despesa.
O bichinho – agora um bichão na verdade – rói uma casinha por mês. Detonou a roupa da família estendida no varal, comeu os chinelos de todo mundo, destruiu dois pneus do carro e urinou numa roda, que enferrujou.
É dado à baderna, a revoltas e a revoluções.
Também arrebentou a mangueira de água e, com a farta produção de fezes, provocou um entupimento do ralo do quintal resolvido a custo – e que custo!
Um encanador fez um novo e reforçado sistema de esgoto. Um pedreiro construiu uma casa de cachorro em alvenaria com piso ladrilhado, à prova de infiltração de urina. E um serralheiro montou grades isolando o destruidor de qualquer objeto flexível.
Acreditando que apenas precisava delimitar uma área de ação para seu cão de guarda, antes que ele terminasse de rasgar o sofá e emporcalhar os tapetes, o dono planejou o novo alojamento de modo a mantê-lo entre o portão e a porta principal da casa.
Foi preciso derrubar um pedaço da sala e vender o carro para pagar a conta, mas, afinal, trata-se de proteger a mulher e as crianças. E o carro tinha ficado inútil sem roda e pneus.
O cidadão filosofa, ampliando sua analogia: as forças armadas também têm necessidades que não saem barato. Devem ter, e usar, pelo menos em treinamentos, alguns tanques, navios, aviões, metralhadoras. Precisam também de muito exercício. Custa muito, mas é o preço a pagar pela firme vigilância.
O pitbull, mesmo assim, ainda não parece contente.
Agora chora alto e late forte se não há alguém com ele. O tempo todo.
Mordeu o primeiro passeador; nem deixou o segundo chegar perto.
Sem passeios, está gordo e entediado. Odeia a empregada e já atacou dois vizinhos.
Descobriram que ele gosta mesmo é de dormir na cama do caçula. E, num rearranjo em prol da casa segura, deslocaram o menor para a cama do maior e este para a casinha ladrilhada lá no quintal.
Nosso personagem acha que exagera de vez em quando nas suas comparações. Porém vem a sua cabeça, às vezes, um paralelo com a mania dos militares de se instalar no centro do governo, demandando promoções, cargos, salários duplicados, aposentadoria precoce.
Mas ele não desistiu da ideia de manter a fera.
Pelo menos até o dia em que a casa foi roubada, enquanto a família estava na igreja.
A câmera no muro do vizinho registrou o pitbull aceitando um biscoito canino da mão do ladrão, que ele lambeu carinhosamente antes de cair no sono e deixar passar o invasor.
Aí, finalmente, o dono decidiu livrar-se do cachorro. Só que não encontrou quem o quisesse.
Levou-o ao veterinário. Queixou-se do comportamento do bicho e o doutor apresentou a solução:
– Arranja uma fêmea para ele. Está precisando procriar. O temperamento do cão talvez não melhore, mas vocês vão ficar bem felizes com uma matilha para cuidar da segurança.
Coitados dos pitbulls.
👏👏👏👏👏