Os imbecis estão nas ruas e são um perigo real para a democracia

Os imbecis estão nas ruas e são um perigo real para a democracia

Chega de subestimar as matilhas bolsonaristas. Elas compõem a minoria, mas são raivosas e burras o suficiente para criar grandes problemas para o Brasil. Só a imbecilidade epidêmica explica o fervor da ignorância

De Bolsonaro, não se podia esperar menos do que o que disse e fez ontem ao revelar parte de seus pensamentos diante das multidões desmascaradamente aglomeradas na Esplanada dos Ministérios e na Avenida Paulista.

Insano e estulto, grosseiro e covarde, estúpido e idiossincrático, misógino e homofóbico, o que o presidente pensa da democracia, do equilíbrio dos poderes, do respeito à prática política e dos seres humanos já se sabia quando ele era apenas um pequeno trapaceiro incrustado no legislativo, dedicado à rapinagem de salários de assessores e ao vivandeirismo tardio diante da força que o excretou.

Era também conviva, provavelmente bem mais que isso, das forças milicianas que assolam o Rio de Janeiro. E ninguém ignorava que eram essas as qualidades do candidato de 2018, mas houve quem nele votou exatamente por isso e quem o escolheu por se acreditar mais esperto do que o escorpião. Deu no que deu – ele, se mudou, foi para pior.

O que desanima, constrange, desacorçoa, desespera, acabrunha e desestimula aqueles que adotaram o preciso mas inútil “ele não” é o que ainda sobra de apoio a um apedeuta tão desprovido de competência que não realizou nem mesmo as promessas menos absurdas, elementares, de sua campanha e ilude esses seguidores reendereçando a responsabilidade pelas atitudes com as quais se comprometeu.

Isso vale para o preço do gás, a reforma administrativa, o comércio internacional, o controle da inflação, a contenção da corrupção, unificação e redução de tributos e uma lista interminável de ações que não saíram dos panfletos pré-eleitorais. Adicionalmente, há a desídia com a questão ambiental, os vexames diplomáticos, o descaso com direitos humanos, o retrocesso cultural, a medievalização comportamental, o proselitismo da usura evangélica, a catástrofe na gestão da pandemia e uma lista igualmente interminável de agressões ao erário, ao judiciário, à sociedade civil e aos interesses da população.

Ainda assim, com tudo isso, foram impressionantes as imagens dos rebanhos bolsonaristas em muitas cidades, cuja soma possivelmente resultou na maior manifestação pública registrada no país desde a campanha pelas eleições diretas, ocorrida há quase quatro décadas. Num cenário em que a grande mídia, como sempre, mescla seus pontos de vista com a cobertura informativa, faltou a honestidade de apresentar essa constatação e de situá-la contextualmente, em vez de apenas adjetivar a análise dos protestos.

É correto informar que as pautas de Bolsonaro são anticonstitucionais e, pior que isso, procuram confundir seu interesse de evadir-se da lei com as necessidades verdadeiras até daqueles que de verde e amarelo agacham-se diante de um discurso que junta ódio com boçalidade. Mas seria ainda mais correto apresentar a dimensão real de um fenômeno que já alcança o nível de culto à personalidade – mesmo porque vídeos e fotos negam a possibilidade de subestimar o ardor dessa massa.

É fato que o bolsonarismo, em queda, mobiliza hoje apenas 12% dos brasileiros. Mas é incontestável, também, que nesse núcleo duro do compromisso com o atraso há um grau de fervor que ultrapassa o comprometimento regularmente visto na militância política. O ex-oficial do exército que desejava liderar motins, por muitas razões, conquistou afinal uma tropa para convulsionar.

Já se estabeleceu bem o perfil desses liderados – perdedores da economia, ressentidos dos costumes, fracassados do processo educacional, ignorantes da política, reprimidos sexuais, intelectualmente despeitados, malformados de caráter, vítimas de abusos diversos e mesmo alguns teimosos cuja arrogância embaça a capacidade de autocrítica, ao lado dos meros portadores do transtorno da personalidade antissocial, que podem chegar a 2% da população.

Em resumo – e já é hora de dizer isso com clareza -, Bolsonaro é seguido por uma grande legião de imbecis pronta a sair do discurso para a ação na defesa das imbecilidades pregadas por seu pastor. Se há muito tempo qualquer cidadão de bom senso já sentia vergonha ao ver na imprensa de outros países a cobertura dos atos antidemocráticos liderados pelo presidente, neste 7 de setembro a necedade dos manifestantes levou-os a constranger a nação poliglotamente, com cartazes em vários idiomas defendendo uma ditadura, nem sempre com a melhor grafia ou a exata sintaxe.

É necessário advertir para o risco que essa corja representa, dada a fidelidade religiosa de seu ativismo. Como bem demonstram a propagação do discurso de ódio via redes sociais, a linguagem agressiva usada contra adversários, a pregação de atitudes criminosas e os ataques afrontosos à legislação, esse coletivo de parvos está disponível para atos concretos contra a legalidade e contra os que nomeiam inimigos por ordem do baderneiro provisoriamente no exercício da Presidência da República.

Como a ralé das organizações criminosas, esse bando de alucinados está disponível para a beligerância ativa ao mais singelo comando do chefe da quadrilha. Levado às dimensões do país, esse risco se torna gigantesco para a própria sobrevivência da democracia. Existiria força policial capaz de conter bárbaros que efetivamente investissem contra os prédios do legislativo e do judiciário? Haveria mortos? A mobilização em sentido oposto, ainda que representando a maioria dos brasileiros, teria força para reagir? Quem seria o líder incontestado dessa reação?

Considerando que a estratégia de Bolsonaro inclui insuflar policiais militares contra governadores, corrompe as forças armadas com privilégios nos soldos, nas pensões e na distribuição de cargos públicos e protege milicianos, além de ser agravada pelo afrouxamento na regulação de compra de armas – aliás, incentivada pelo presidente -, a possibilidade de um golpe com atos violentos não é um hipótese a desprezar.

Os imbecis deixaram bem claro ontem que estão disponíveis para imbecilidades ainda maiores.

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Walter Bergues
Walter Bergues
4 anos atrás

Dramática e tristemente perfeito! Devo dar os parabéns pela matéria… (e dou) mas muito gostaria (e não consigo) me iludir pensando que você possa estar completamente errado..

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