Ex-juiz e ex-ministro, Moro disputa uma vaga de futuro ex-candidato a presidente

Ex-juiz e ex-ministro, Moro disputa uma vaga de futuro ex-candidato a presidente

As pedras sabem que as chances de Sergio Moro vingar como candidato a presidente da República são praticamente nulas. Moro finge que não tem essa informação e segue firme para consolidar o currículo de ex-tudo no rol de esperanças da direita brasileira. A estratégia verdadeira é de longo prazo, e faz sentido, mas o risco da exposição ao cenário eleitoral precocemente é grande. Moro pode acabar candidatando-se a vereador em 2024.

Como um Midas reverso, o ex-juiz, ex-ministro da Justiça e futuro ex-candidato à Presidência construiu uma carreira assombrosa como a muralha da China, em termos de visibilidade, mas destituída de alicerces. Cada uma de suas realizações desabou, com o tempo, justamente pela falta de sustentação jurídica que se esperaria de alguém capaz de alcançar tal evidência.

Na 13ª Vara Federal de Curitiba, onde se notabilizou por conduzir o processo da Lava Jato, sua principal realização, materializada nas condenações do ex-presidente Lula, derreteu na medida em o que o Supremo Tribunal Federal pôs olhos atentos aos métodos do juiz e à forma como se relacionava com os promotores da força-tarefa encarregada das investigações.

Num caso raríssimo, Lula foi descondenado em razão da instrução errática dada a seus processos – o que, em qualquer país sério, deveria equivaler a uma condenação ao funcionário que gastou tinta, papel, tempo e recursos públicos cometendo barbeiragens judiciais.

Mas aqui a lambança fica por isso mesmo. Ou, pior, será preciso gastar tudo isso de novo para refazer os processos. Ou, ainda muito pior, acabará se consolidando o decurso de prazo – que permitirá ao ex-presidente continuar dizendo que saiu inocentado de processos que, na verdade, apenas caducaram por inépcia funcional de Sergio Moro.

No passo seguinte de sua trajetória, ao aceitar integrar o ministério bolsonarista quando os computadores de apuração do TSE ainda nem tinham sido desligados, o então ainda juiz revelou tirocínio equivalente ao de um lêmure. Como Paulo Guedes, entrou na canoa achando que assumiria o leme.

Diferentemente do ministro da Economia, que topou depois nadar empurrando a embarcação furada, Moro foi descartado como excesso de peso na primeira cartada em que tentou demonstrar poder, força e consistência maior do que a do engodo ao qual se aliou. Jogado ao mar, planta a versão de que manteria a Polícia Federal no encalço do chefe. Na verdade, pretendia usá-la para ampliar sua imagem de caçador de corruptos. Bolsonaro, que é ignorante mas não é burro, percebeu logo que seus filhos sairiam torrados da fogueira justicialista e ele mesmo acabaria cozido em fogo baixo. Concluiu depressa que o ex-juiz já tinha servido aos propósitos para os quais foi contratado.

Na antevisão da amargura do desemprego, Moro açodadamente – de novo – encontrou patrão num grupo advocatício internacional que logo demonstraria mais apreço pelo dinheiro da Odebrecht no caixa do que pela biografia moralista de seu novo sócio. Foi descartado – de novo -, dessa vez para a condição de consultor de coisa nenhuma, diante do óbvio conflito de interesses que passou a materializar para o patrão.

Agora, na candidatura a presidente, a precipitação, a ansiedade e, de certo modo, o medo de perder a boca, marcam outra vez os estratagemas de Sergio Moro. Sua negociação com o Podemos, partido que nasceu inspirado em Jânio Quadros (!), ainda nem foi concluída e ele já se imagina sentado na janelinha da agremiação, rumo à candidatura.

O Podemos, por seu lado, fechou questão há alguns dias contra qualquer apoio aos pedidos de impeachment de Bolsonaro, revelando-se bem mais perto do Centrão do que agremiações que classicamente integram o bloco. Ou seja, se obtiver a vaga para concorrer ao Planalto – o que é dúvida porque há até uma chance, bem remota, de que Bolsonaro tenha o Podemos entre os componentes de sua coligação -, Moro começará a campanha dando explicações sobre a razão pela qual seu partido decidiu apoiar o presidente que o demitiu.

Para arrematar, Moro anuncia para dia 2 de dezembro o lançamento oficial de seu novo livro, “Contra o Sistema da Corrupção”, arranjando para si mesmo uma série de pedidos de entrevistas que versarão, obrigatoriamente, sobre as, digamos, bobagens que cometeu na condução dos processos relativos a Lula.

E Lula, esse que Moro pretende enfrentar em debates televisados na campanha presidencial, também tem biografia nova na praça, mas não assinada por ele mesmo e sim pelo jornalista Fernando Morais, biógrafo de personalidades como Olga Benário e Assis Chateaubriand. Não ocorreu ao ex-juiz arrumar um testa-de-ferro editorial para contar vantagens acerca de sua trajetória.

Carreiras políticas dignas de figurar na história geralmente se referem a personagens de caráter que começaram a atuar em pequenos fóruns e cresceram como homens públicos ao longo do tempo. Casos de pessoas que começaram parecendo enormes, impolutas e estofadas de autoestima e foram encolhendo às dimensões da impostura não vão além da Wikipédia e das notas de rodapé.

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