Tratar bem do seu próprio lixo é um sinal de adesão ao primeiro mundo

Paulistanos estão ganhando a oportunidade de comportar-se como cidadãos europeus. Ou seja, ensacar corretamente seus resíduos domésticos e caminhar até a esquina para livrar-se deles
Os privilegiados brasileiros que eventualmente viajam para a Europa adoram comentar a limpeza das ruas e elogiar os hábitos locais relativos à organização doméstica, que inclui o descarte de resíduos. Há uma exceção nos lugares com multidões de turistas, que amanhecem com cenário de festival de rock. E outra nas eventuais greves de lixeiros, porque em 24 horas acumulam-se montanhas de resíduos. Mas essas são excepcionalidades e, para esses cidadãos que se empolgam com o que veem ao viajar, começam a ampliar-se a possibilidade de agir como um verdadeiro europeu: andar até a esquina — sob sol, chuva, neve ou qualquer variação climática — para depositar pessoalmente seu lixo num grande contêiner plástico, que será esvaziado mais tarde por um caminhão com braços mecânicos.
São muitas as vantagens do sistema, entre elas a redução do penoso trabalho dos lixeiros obrigados a catar pelas ruas sacos infectos e mal fechados. Outra é que acaba, de um lado, a exposição diária nas ruas de sacos amontoados à espera da coleta com consequente obstrução das calçadas e riscos de serem levados por chuvas. E mais uma é que se torna desnecessário atender aos horários determinados pela prefeitura para deixar o lixo nas calçadas — uma condição que, desrespeitada, gera multa para o infrator. A principal das vantagens, porém, é a educação do cidadão para ensacar corretamente seus resíduos, porque será ele que terá de carregá-los até a lixeira, melhorando a saúde pública e até a qualidade do ar na vizinhança. Cabe lembrar que, em muitos países, mesmo grandes condomínios não têm funcionários para cuidar do lixo e não é incomum ver gente de idade avançada caminhando na neve para chegar ao contêiner mais próximo de seu apartamento.
Por enquanto, os contêineres em São Paulo estão sendo operados nas ruas da Vila Mariana e do bairro do Campo Belo, com o início de um sistema gradual que deverá abranger a maior parte da cidade. Não se trata, porém, exatamente uma novidade, uma vez que já houve tentativas anteriores de implantar soluções semelhantes — sem grande sucesso, dada a timidez das iniciativas. Além disso, há outras cidades que estão há muito tempo praticando esse método. Em Porto Alegre, a coleta conteinerizada funciona desde 2011. Na capital gaúcha, também foram adotados contêineres específicos para materiais reciclados. Em São Paulo, a coleta seletiva continua sendo feita por caminhões, de acordo com a prefeitura em todos os 96 distritos administrativos da cidade. Contêineres para isso só estão disponíveis em parques públicos e lugares de grande movimento.
A gestão do lixo é um enorme problema para a maioria dos municípios e sua eficiência depende, em muitos casos, mais do comportamento do cidadão do que dos órgãos públicos. Além de acondicionar mal o lixo e descartá-lo em locais e horários inadequados, boa parte dos brasileiros nem mesmo se dá ao trabalho de limpar ou mesmo separar embalagens cujo destino deve ser a reciclagem — ainda que, na Europa, comportem-se como asseados habitantes locais. Um exemplo gigante de que a cultura local dá pouca importância a uma questão tão relevante é o próprio comportamento da mídia: os 912 contêineres inicialmente adotados no programa foram distribuídos pelas ruas em outubro de 2025 e, até agora, para órgãos jornalísticos que poderiam contribuição com o processo civilizatório informativo, são um segredo não noticiado.
Toda vez que se fala de lixo em São Paulo é preciso ter cautela, considerando que a relação entre o órgão público e as empresas concessionárias que operam o sistema é um tema pantanoso e sujeito a problemas, digamos, financeiros. Vale lembrar que a Vega Sopave, companhia que realizava a coleta nos anos 1990 pediu concordata imediatamente depois de ter empréstimo de vulto concedido por banco oficial e deixou um histórico judicial marcado por acusações de superfaturamento e desvios de recursos. Atualmente as empresas Loga e Ecourbis fazem esse serviço na capital do Estado e há situações controversas em relação a gestão, contratos e cuidados ambientais.
A prefeitura investiu 84 milhões de reais para comprar os primeiros 2.950 contêineres para introduzir o novo sistema. Seu gasto anual com coleta passa de 2 bilhões de reais. Como se sabe, há grande risco de que a gestão do lixo acabe cheirando mal. Mas o processo de conteinerização da coleta é, até agora, uma boa iniciativa.