O que se pode aprender com o desprezo de Trump por organizações internacionais

O presidente americano é um déspota ignorante, confuso e presunçoso. Mas suas desavenças com as organizações internacionais servem para mostrar que elas padecem de gestões perdulárias que deixam prosperar cartórios ineficientes, castas burocráticas e elites desconectadas de suas finalidades
Vale um preâmbulo atinente à Venezuela antes de explorar a recente decisão de Donald Trump de cortar participação e financiamento dos EUA para mais de 60 organizações internacionais. Se isso parece loucura num primeiro momento, há indícios contrários de que se trata apenas de uma reaplicação de um método trumpista destinado a destruir a legitimidade dessas iniciativas e baseado em fraquezas que elas mesmas, ou seus mantenedores, deixaram acumular-se ao longo do tempo.
Numa ação criminosa, Trump mandou sequestrar na Venezuela um ditador que fraudou o processo eleitoral e — movido em parte por ineficiência administrativa, ancorado na violência e escorado em incompetência generalizada — asfixiou economicamente a população de seu país. Não é de admirar que venezuelanos em todo o mundo tenham visto a invasão americana como uma violação de soberania e, ao mesmo tempo, como uma possibilidade de redemocratização do país. Enganam-se quanto a isto, já que o propósito do assalto foi apenas conquistar os campos de petróleo do país para entregá-los às gigantes americanas do setor e Nicolás Maduro é só um troféu para exibição interna na América na Trump.
Democracia, combate à corrupção, reorganização política e legitimação popular são detalhes que não estão na pauta dos EUA e o método de ação de Trump, absolutamente ilegítimo, contém lições que talvez possam ser aprendidas por quem se preocupa de verdade com os temas que ele ignora na Venezuela. Esse sistema, como se viu, aproveitou-se da existência de um regime apodrecido para buscar vantagens econômicas e ampliar o apoio nos EUA ao controvers presidente. Com isso se estabelece uma dicotomia em que qualquer reprovação dos atos de violência contra o país caribenho precisa estar acompanhada dessas mesma observações feitas aqui: o regime chavista é um anacronismo perverso contra a população venezuelana. Daí a leitura inevitável segundo a qual o golpe contra o governante de plantão poderia ter pelo menos um aspecto positivo. Embora já se saiba que nada mudará na Venezuela agora e possivelmente as coisas podem até piorar para os venezuelanos.
Essa consequente leitura com dois vieses é o que o faz do método trumpista um sistema ainda mais perigoso, porque a âncora lançada sobre a dubiedade dos fatos utiliza a essência de problemas reais como desculpa para alcançar objetivos que, já no curto prazo, vão piorar o cenário, reforçar o poder despótico do presidente americano e enfraquecer seus adversários, tanto internos quanto no plano mundial. E chega-se, então, ao caso da ruptura ampla geral e irrestrita com organismos de cunho global aos quais os Estados Unidos deixam de fazer aportes financeiros, de um lado, e corroem politicamente, de outro. É preciso olhar para algumas das razões apontadas por Trump eximindo-se de preconceitos e com coragem para analisar os detalhes que revelam gestões perdulárias e expõem cartórios ineficientes, castas burocráticas e elites desconectadas de suas finalidades.
Não são todas essas organizações farinhas embaladas num mesmo saco, claro. Há exceções entre elas, principalmente as que mais incomodam o governo trumpista, mas justamente nessa confusão é que o presidente americano bota fé no sentido de livrar-se de adversários apontando, genericamente, falhas que contaminam o espectro dessas instituições. Ou seja, por trás de boas intenções e de objetivos nobres, muitas entidades de fato desperdiçam dinheiro com programas ineficientes, excesso de pessoal lotado nas atividades-meio e escassez de gente nas atividades-fim, gastos inexplicáveis com viagens, reuniões e seminários de resultados duvidosos e até ações que produzem agravamento dos problemas que pretenderiam resolver.
A Organização das Nações Unidas, por exemplo, frequentemente é alvo de acusações dessa natureza. Esta reportagem, de 1995, demonstra que a crítica não é recente e que diplomatas dos países membros há tempos tratam do tema no próprio plenário da ONU. Com quase 50 mil funcionários, entre efetivos e contratados, o secretariado tem um orçamento que se aproxima dos 3,5 bilhões de dólares, reconhece tacitamente a baixa produtividade e vem tentando reduzir despesas, diante de senões relacionados a sua eficiência. Burocracia, ações inadequadas e mecanismo ineficientes são temas também deste artigo, datado de 2020.
Mas vale examinar especificamente alguns dos colegiados que Trump listou na medida que encerrou a participação americana em 66 deles. Isso depois de suspender apoio, do mesmo modo, a entidades como a Organização Mundial da Saúde, a Agência das Nações Unidas para a Refugiados da Palestina, o Conselho de Direitos Humanos e a Agência das Nações Unidas para a Cultura (Unesco). A mera relação de organizações ligadas à ONU revela que muitas se sobrepõem em termos de objetivos e conflitam nas suas intenções com organismos maiores, mais atuantes e com representatividade legitimada por fóruns regionais que envolvem diretamente os países interessados. Nem é preciso detalhar os propósitos de cada uma. Os nomes, e a semelhança entre diversos deles, dizem tudo:
- Aliança das Civilizações da ONU;
- Centro de Comércio Internacional;
- Colégio do Sistema das Nações Unidas;
- Comissão de Consolidação da Paz;
- Comissão de Direito Internacional;
- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento;
- Conselho de Chefes Executivos do Sistema das Nações Unidas para Coordenação;
- Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC) — Comissão Econômica para a África;
- Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima;
- Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais;
- ECOSOC — Comissão Econômica e Social para a Ásia e o Pacífico;
- ECOSOC — Comissão Econômica e Social para a Ásia Ocidental;
- ECOSOC — Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe;
- Entidade da ONU para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres;
- Escritório do Assessor Especial para a África;
- Escritório do Representante Especial do Secretário-Geral para Crianças em Conflitos Armados;
- Escritório do Representante Especial do Secretário-Geral para Violência Sexual em Conflitos;
- Escritório do Representante Especial do Secretário-Geral para Violência contra Crianças;
- Fórum Permanente sobre Pessoas de Ascendência Africana;
- Fundo da ONU para a Democracia;
- Fundo de Consolidação da Paz;
- Fundo de População das Nações Unidas;
- Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa;
- Mecanismo Residual Internacional para Tribunais Criminais;
- ONU-Água;
- ONU-Energia;
- ONU-Oceanos;
- Programa Colaborativo da ONU para a Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal em Países em Desenvolvimento;
- Registro das Nações Unidas de Armas Convencionais;
- Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos;
- Universidade das Nações Unidas.
Em relação às entidades abandonadas pelos EUA não pertencentes à ONU, as questões se colocam com a mesma evidência:
- Centro de Ciência e Tecnologia na Ucrânia;
- Secretaria do Programa Regional do Meio Ambiente do Pacífico;
- Acordo Regional de Cooperação para o Combate à Pirataria e ao Roubo Armado contra Navios na Ásia;
- Agência Internacional de Energia Renovável;
- Aliança Solar Internacional;
- Centro Europeu de Excelência para o Enfrentamento de Ameaças Híbridas;
- Centro Internacional para o Estudo da Preservação e Restauração de Bens Culturais;
- Coalizão pela Liberdade Online;
- Comissão de Veneza do Conselho da Europa;
- Comissão para Cooperação Ambiental;
- Comitê Consultivo Internacional do Algodão;
- Compacto de Energia Livre de Carbono 24/7;
- Conselho de Cooperação Regional;
- Conselho do Plano Colombo;
- Educação Não Pode Esperar;
- Federação Internacional de Conselhos de Artes e Agências de Cultura;
- Fórum dos Laboratórios Europeus de Pesquisa Rodoviária Nacional;
- Fórum Global de Contraterrorismo;
- Fórum Global sobre Especialização em Cibersegurança;
- Fórum Global sobre Migração e Desenvolvimento;
- Fórum Intergovernamental sobre Mineração, Minerais, Metais e Desenvolvimento Sustentável;
- Fórum Internacional de Energia;
- Fundo Global de Engajamento Comunitário e Resiliência;
- Grupo Internacional de Estudos sobre Chumbo e Zinco;
- Instituto Interamericano de Pesquisa sobre Mudanças Globais;
- Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral;
- Instituto Internacional para a Justiça e o Estado de Direito;
- Instituto Pan-Americano de Geografia e História;
- Organização Internacional de Direito do Desenvolvimento;
- Organização Internacional de Madeiras Tropicais;
- Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas;
- Parceria para a Cooperação Atlântica;
- Plataforma Intergovernamental Científico-Política sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos;
- Rede de Políticas de Energia Renovável para o Século XXI;
- União Internacional para a Conservação da Natureza.
Assim como os governos tendem a expandir suas camadas burocráticas e criar departamentos corporativos que custam caro aos contribuintes e acabam produzindo cada vez menos com cada vez mais gente, as entidades internacionais se arriscam permanentemente a tornar-se enormes armários recheados de cabides de emprego sob baixa ou nenhuma fiscalização e quase nenhuma possibilidade de cobrança por parte dos cidadãos que, no fim da linha, pagam os impostos, em parte, destinados a sustentá-las. No Brasil, são bem conhecidos os problemas do tipo tanto no Judiciário, com seus salários astronômicos e basicamente ilegais, à luz da Constituição, quanto no Legislativo e no Executivo de qualquer cidadezinha. Um mantra um tanto excessivo do setor privado reza que custos são como as unhas, crescendo diariamente, e precisam de um administrador que faça cortes permanentemente. No setor público e em organizações de cunho mundial, essa figura raramente existe.
Trump não esconde o objetivo de livrar-se de fiscalização e cobrança tanto em atitudes danosas ao meio ambiente quanto nas ações de favorecimento a grupos privados que, em resumo, garantem os recursos de sustentação para seu Partido Republicano. Quando rompe fragorosamente com entidades em que consegue apontar falta de objetividade e de controle financeiro, posa de gestor eficiente diante de seu público interno, assopra a bandeira do America First e, no pacote, tenta livrar-se das acusações legítimas contra sua administração. O combustível para isso, infelizmente, ele encontra boa parte dessas instituições.
Para piorar, ao ressaltar as falhas de diversos organismos, Trump acaba por empalidecer também a imagem de organizações não governamentais que nada têm com o peixe e vivem esmolando recursos para programas de impacto positivo. Médicos Sem Fronteira, Greenpeace, Anistia Internacional e dezenas de outras iniciativas são propositalmente confundidas, por governos autoritários, com entidades em que se observa descontrole. O próprio presidente americano estimula essa cofusão. E o faz de propósito.