A Sabesp é mesmo uma empresa que faz água e deixa os clientes na seca

A Sabesp é mesmo uma empresa que faz água e deixa os clientes na seca

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não gosta desse assunto, mas a verdade é uma só. Vai faltar água em São Paulo, haverá um racionamento doloroso para a população e a culpa de tudo isso é dele mesmo e da Sabesp privatizada

A questão vem sendo tratada praticamente na surdina. Um dia a Sabesp aconselha os consumidores a economizar, no outro reduz a pressão da distribuição e, nas próximas semanas, finalmente, vai anunciar um racionamento.

Não é uma tentação de apostar no pior cenário. É simplesmente uma questão lógica. As chuvas no Estado de São Paulo estão muito abaixa da média, os reservatórios baixíssimos e os vazamentos são enormes.

Só não está havendo uma ação efetiva no sentido de começar já um racionamento, que seria menos traumático do que o que vai acabar acontecendo, porque 2026 é ano eleitoral e Tarcísio prefere acender velas para São Pedro, na esperança de que ele contrarie meteorologistas e a própria mudança climática para salvá-lo do vexame das explicações.

São Paulo não precisaria, no entanto, passar por esse perrengue se as regras da privatização tivessem sido mais bem trabalhadas. Além da universalização da distribuição, o contrato deveria, evidentemente, prever uma ação emergencial e definitiva da nova Sabesp, a privada, contra os vazamentos.

Segundo dados da própria companhia, mais de 30% da água tratada se perde nos encanamentos furados ou — acrescenta a empresa — em ligações clandestinas. Essas “ligações clandestinas” são apenas um adendo destinado a confundir informações, já que, no ano passado, de janeiro a agosto, conforme esta reportagem, foram localizadas 19 mil dos chamados gatos de água. Como a Sabesp tem 10,3 milhões de clientes, nota-se que o roubo de água é praticamente irrisório.

Mas os vazamentos, esses sim são um problemão reclamando prioridade. O Japão perde apenas 7% da água tratada e em em Tóquio seu ponto de excelência com apenas 2% de perdas. E lá acontecem terremotos que, como qualquer um é capaz de imaginar, rompem os canos sem pedir licença. A média de perdas de água tratada em países desenvolvidos é de 15%. A Bolívia tem índice de desperdício na casa de 27%, conforme dados do Instituto Trata Brasil.

A estratégia de reduzir pressão é um benchmark mundial para o combate de vazamentos. Com menos pressão na tubulação, as conexões, mesmo antigas, resistem mais tempo. Só que, em São Paulo, a redução de pressão funciona como um racionamento patrocinado exclusivamente pelos mais pobres, que estão na ponta das redes, muitas vezes em locais altos, e, por isso, passam dias sem que suas torneiras sejam abençoadas com algumas gotas. Para entender melhor o problema, vale ler este artigo, no site do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento.

Para piorar o quadro, volta e meia o esgoto encanado vai parar em um dois grandes rios da capita paulista. Acontece a toda hora no rio Pinheiros, nas proximidades da Estação Elevatória de Pinheiros, e aconteceu, em volume assustador, em meados do ano passado, quando se rompeu uma tubulação profunda nas imediações do rio Tietê e os dejetos tiveram de ser bombeados para o córrego Mandaqui, tributário do principal curso d’água do Estado.

Tudo isso com o patrocínio da Sabesp, cuja privatização rendeu ao Estado  14,8 bilhões de reais. 30% desse valor foram destinados a um fundo que, teoricamente, financiará a universalização do abastecimento e promoverá abatimento de tarifas para os consumidores. 70% foram destinados a obras de transporte — essas que Tarcísio pretende inaugurar e anunciar festivamente até a data da eleição. Se a campanha não acabar fazendo água por causa da seca ou cheirando mal por causa do esgoto.

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