No meio dos buracos de vez em quando se encontra um caminho

No meio dos buracos de vez em quando se encontra um caminho

A cidade de São Paulo tem tal quantidade de buracos e remendos malfeitos em locais públicos que é praticamente impossível andar em qualquer lugar sem encontrar um deles esperando pelo carro ou pelo tropeço de um pedestre

Definitivamente, o percurso mais curto entre o ponto A e o ponto B não é uma linha reta quando se trata de transitar na cidade de São Paulo. Os buracos das ruas interferem até na geometria. Na rua Borges Lagoa, altura do número 230, os paulistanos da Vila Clementino começaram a cruzar, neste sábado, 10 de janeiro de 2026, com um curioso adereço fincado no asfalto: um cabo de vassoura encimado por um pedaço de plástico amarrado na ponta, à guisa de bandeira, sinalizando mais um, entre milhares de buracos que surgem todos os dias nas vias do município. Dez metros antes, a cicatriz de um remendo malfeito para tapar outro buraco produz solavancos nos carros que passam, assim como outro obstáculo se apresenta 20 metros adiante, a menos de 30 do conserto seguinte… e assim por diante.

São Francisco, Nashville, Minneapolis, Los Angeles e Nova York são conhecidas, nos Estados Unidos, pela quantidade de buracos nas ruas. Mas os moradores dessas cidades certamente nem imaginam o que a capital paulista seja capaz de produzir em termos de concorrência. Os números oficiais a respeito contêm contradições de todos os tipos: ora a prefeitura diz que tapa 300 buracos por dia, ora informa que fecha 500, depois diz que tem capacidade de fazer até mil intervenções diária do tipo diariamente, mas a verdade é que as crateras ganham com folga essa disputa, conforme a experiência de mais de 80% dos paulistanos, conforme números do Datafolha. Ninguém se atreve a fazer uma estimativa dos prejuízos relacionados ao problema, mas uma reportagem da Jovem Pan, feita há dois anos, indicava que as reclamações sobre buracos nas ruas haviam crescido 96%.

A revista eletrônica Crusoé noticiou recentemente que pesquisados ingleses desenvolveram um tipo de asfalto capaz de curar-se sozinho de rachaduras, evitando que as infiltrações e a passagem de veículos transformem pequenas trincas em buracos. A questão é que, em São Paulo, esse avanço tecnológico é inútil diante da voracidade buraquística com que atuam as concessionárias de serviços públicos, como Sabesp, Comgás e companhias de eletricidade e telefonia — de longe as mais eficientes na hora de abrir crateras na cidade e as menos cuidadosas na hora de fechá-los. De 2018 a 2022, conforme reportagem do G1, a prefeitura da capital paulista registrou 48 mil irregularidades em obras realizadas na cidade por concessionárias. A Sabesp — sempre ela — foi responsável pelo problema em 80% dos casos.

Quem não tem carro nem anda de ônibus enfrenta esse tipo de problema numa dimensão igual ou pior. Isso porque buracos, remendos e bueiros mal encaixados são presenças constantes tantos nas faixas de pedestres quanto nas calçadas, nas quais também é comum encontrar desde largas fissuras no calçamento até degraus instransponíveis, pisos deteriorados e postes, mesas de bar, lixo e montanhas de detritos. Mauro Calliari, doutor em Urbanismo, frequentemente assina artigos tratando do tema. Vale conhecer suas ideias, publicadas ao longo dos anos neste endereço, neste outro ou no Facebook.

Existe até mesmo um manual público sobre a forma ideal de tratar o problema, disponível neste link, mas não se encontra, por enquanto, nenhum lugar em que essas teorias sejam aplicadas na vida real.

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