A Polícia Rodoviária faz uma operação descida ao contrário na Anchieta

A Polícia Rodoviária faz uma operação descida ao contrário na Anchieta

As blitze realizadas para flagrar motoristas alcoolizados, verificar condições de conservação de veículos e conferir documentos de condutores são muito bem-vindas. Mas o que se faz na rodovia Anchieta nas manhãs de sábado é um abuso inexplicável

Acontece com frequência aos sábados, começando por volta das 6h: as duas faixas da rodovia Anchieta no sentido do litoral são fechadas no comecinho da estrada, o trânsito é desviado para a marginal direita e, ali, três das quatro pistas também são bloqueadas para que, na única restante, um comando da Polícia Militar Rodoviária supostamente pare veículos suspeitos e submeta os condutores a procedimentos de fiscalização. A consequência é um transtornante congestionamento que atrasa a viagem das famílias que imaginaram chegar à praia cedinho. “Supostamente” porque, muitas vezes, os policiais nem parecem interessados na ação. Quando muito, param um ou outro motociclista, muito raramente um carro, para checar documentos. Em resumo, fazem uma operação descida ao contrário, valendo lembrar que na operação descida feita pela Dersa, a administradora das estradas que vão para a Baixada Santista põe todas as pistas da Imigrantes e uma da Anchieta à disposição dos veranistas, reduzindo os congestionamentos. No posto da Anchieta acontece o oposto.

Nos sábados que prometem mais sol — os preferidos dos agentes rodoviários — ônibus, automóveis e caminhões podem perder até uma hora entalados nessa incursão policial cujo único objetivo parece ser esse mesmo — infernizar o trânsito, transformando numa chateação o que poderia ser uma descida tranquila da serra tanto para os que procuram lazer quanto para os que têm negócios a resolver, entregas a realizar ou compromissos marcados na Baixada Santista. Para piorar o quadro, o local onde se fazem essas blitze é contornável para quem, já acostumado a essas operações, desvia do bloqueio algumas centenas de metros antes, tomando à direita a avenida Padre Arlindo Vieira e fazendo um percurso de minutos que permite retornar à marginal logo à frente do posto policial. É o que fazem, naturalmente, condutores espertos cujos documentos, o veículo ou a ficha pregressa estejam em condições comprometedoras. Ficam no congestionamento os desavisados — aí incluída a maioria inocente.

O que acontece nessas manhãs sabatinas é, sem dúvida, um absurdo, tanto pelos transtornos que provoca quanto pela ineficiência. Primeiro, porque o local pode ser evitado facilmente por quem, informado ou desconfiado, tem algum risco de ser flagrado pelo comando. Segundo, porque o horário torna um tanto improvável encontrar nesse trânsito criminosos ou bêbados ao volante. Terceiro, porque, como já se descreveu, o empenho dos policiais atuando no local é, como se descreveu, geralmente quase inexistente. No dia 10 de janeiro, por exemplo, quando se realizou mais uma dessas operações, até havia homens fortemente armados fazendo cara feia para os passantes, mas é difícil imaginar como essas expressões malévolas contribuem para a segurança. Afinal, um cidadão que nada deve espera, de agentes da lei, fisionomias corteses, prestatividade e ação contra engarrafamentos de trânsito. Não o contrário.

Pode-se até supor que as blitze matutinas da Anchieta sejam realizadas por iniciativa de um comandante que não gosta muito dos plantões de fim de semana e preferiria estar ali na via com a família, a caminho da praia. Também se pode supor que elas sejam resultado de um burocrático cronograma de ações policiais desenhado por uma malpreparado agente de escritório, sem vivência das ruas e sem aperfeiçoamento em questões de segurança. Outra possibilidade é que se deva alimentar alguma estatística de comandos rodoviários e seja cômodo realizar algumas num posto praticamente urbano, sem a inconveniência de deslocar soldados para longe da base. E também se pode especular, por fim, que haja muita ciência indesvendável nessa escala de fiscalização rodoviária e que centenas de graves problemas estão sendo evitados graças ao comando no quilômetro 10 da estrada.

Caso seja essa última a hipótese correta, os comandos são feitos, no mínimo com um uma técnica consideravelmente imperfeita. Se esse local é, por insondáveis motivos, especialmente bem escolhido, há uma boa alternativa para fazer comandos que incomodem menos os cidadãos que esperam viagens seguras, para isso pagam impostos e, com eles, bancam os salários dos policiais. Nessa opção, aproveitando que o posto da Polícia Rodoviária naquele ponto fica no canteiro entre a rodovia propriamente dita e sua via marginal, a blitz pode ser feita duas centenas de metros adiante, evitando a evasão pelas ruas secundárias. Além disso, o comando pode ser dividido em duas partes, com uma faixa bloqueada na estrada e as duas centrais na marginal. Assim, sobrariam três faixas livres para a passagem dos veículos, sempre com policiais em ação à direita e à esquerda deles.

Para os chamados cidadãos de bem, que desejam uma cidade segura, qualquer comando policial é bem vindo e não há dúvida de que eles são eficientes quando feitos em boas posições, locais bem pesquisados e horários adequados. Perto de 90% dos entrevistados em pesquisas a respeito respondem que consideram importante a realização das blitze, principalmente quando o objetivo é a fiscalização relacionada à chamada Lei Seca. A partir deste ano, uma orientação geral das autoridades de trânsito determina que essas ações sejam feitas com foco em infrações graves, como excesso de velocidade, dirigir sob efeito de álcool ou transitar com veículo com alto risco de acidente. A proposta é ótima, mas parece que não chegou ainda aos comandantes que determinam os bloqueios na Anchieta.

A Polícia Rodoviárias Federal tem um anuário que, entre outros dados, revela que vem realizando 2,8 milhões de testes anuais de alcoolemia desde 2022, para uma média de 10 milhões de veículos fiscalizados. Os dados estão disponíveis neste endereço. Há informações sobre apreensões por tráfico de drogas, veículos roubados ou adulterados, crimes ambientais, contrabando, armas e munições ilegais e até porte suspeito de moeda estrangeira. É uma boa iniciativa, com informações muito úteis para o planejamento das fiscalizações por atacado. No caso da Polícia Militar Rodoviária do Estado de São Paulo, que organiza as fiscalizações na Anchieta, o link divulgado para quem deseja informações (este aqui: http://www4.policiamilitar.sp.gov.br/unidades/cprv/) não estava funcionando no final de semana. Se voltar a funcionar brevemente, esta postagem poderá ser complementada.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
0
Sua opinião é importante. Comente!x