“O Agente Secreto”: o cinema brasileiro encontrou o caminho do lobby

O filme iraniano “Foi Apenas um Acidente” é excepcionalmente bom. Merece um Oscar. Merecia o Globo de Ouro, mas foi suplantado por uma produção brasileira que, entre muitas qualidades, navegou com sucesso no labirinto que leva à decisão dos jurados
A premiação do Globo de Ouro, da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, foi definida por aproximadamente 400 eleitores. Quase 10% são brasileiros, segundo a Folha de S.Paulo. Um terço dos jurados são latinos. E essas informações dão uma pequena medida sobre a vantagem que pode ter um filme da América do Sul diante de uma produção iraniana, como “Foi Apenas um Acidente”, obra magnífica do diretor Jofar Panahi premiada com a Palma de Ouro em Cannes. O site Tehran Times — cujo acesso anda bastante instável nesses tempos de protestos no Iran — informa que apenas cinco jornalistas votantes no Globo de Ouro são naturais do país.
Os méritos da produção nacional “O Agente Secreto” são mais que evidentes e, certamente, não houve o que se poderia chamar de patriotada na escolha do melhor filme em língua não inglesa, assim como não se pode falar de injustiça na premiação de Wagner Moura como melhor ator dramático. Mas talvez caiba colocar o resultado em seus devidos trilhos porque o cinema, para os espectadores, é entretenimento e cultura, enquanto para os realizadores é um negócio que demanda alto investimento e, para dar retorno, precisa de marketing e muita plateia.
Enquanto comemos pipoca na cadeira do cinema, tendo chegado lá com a motivação de críticas, indicação de amigos, busca de programação ou mero chute, uma máquina avassaladora se move para qualificar o trabalho com premiações e ampliar a venda de ingressos mundo afora. Ela funciona à base de contratação de influenciadores globais, divulgação maciça de narrativas situando as produções em contextos positivos, exibições privadas com tratamento VIP para convidados, criação e envio de malas diretas contendo DVDs, livros, folhetos, currículos e pareceres qualificados. Enfim, nada diferente do que se faz para vender automóveis ou creme dental. Mas ninguém investe tanto se o produto é reconhecidamente medíocre ou busca apenas um retorno financeiro que justifique gastos modestos. A conjunção de qualidade num patamar elevado com investimentos bem direcionados é que leva um filme para a prateleira de premiáveis.
No caso da produção de Cleber Mendonça, que dirigiu “O Agente Secreto”, os pontos básicos foram cumpridos à risca e a campanha de marketing seguiu uma boa cartilha. A referência de sucesso estabelecida por “Ainda Estou Aqui”, que levou dezenas de prêmios há um ano — aí incluído o Oscar de melhor filme internacional e a indicação de Fernanda Torres como melhor atriz — abriu um caminho que foi bem mapeado e possivelmente servirá também para criações futuras. Até o contexto das histórias, as duas ambientadas no período da ditadura militar brasileira da segunda metade do século passado, contou pontos, já que casos políticos reais ou verossímeis têm demonstrado força nas bilheterias e prestígio nas avaliações especializadas.
É, portanto, uma grande vitória do cinema nacional essa dupla premiação do Globo de Ouro e é também possível que haja uma consagração inédita no Oscar, a ser entregue em 15 de março de 2026. Mas há caroços na azeitona dessa empada que podem complicar um pouco as coisas. Bem realizado, “O Agente Secreto” contém também inconsistências que poucos apontam — com coragem para fugir da quase unanimidade — e esses pequenos senões deixam muitos espectadores algo insatisfeitos quando os letreiros finais surgem na tela. Uma perna cabeluda vingativa surrealista, ritmo arrastado em que muitas ações não se concluem, diálogos redundantes, atuação implausível de alguns personagens e os mistérios da vida do protagonista que não se revelam para justificar seus problemas são alguns desses pontos. A revelação da quase octogenária atriz coadjuvante Tânia Maria é uma compensação pequena e, ainda que não se negue seu talento para uma interpretação natural, tem exageros de avaliação.
O detalhamento disso tudo é função de críticos de cinema. Mas cabe apontar que “Foi Apenas um Acidente” não tem fragilidades dessa natureza, é também um filme com contexto político, foi dirigido magistralmente e convence do começo ao fim. Não será surpresa se esses detalhes fizerem a diferença na escolha do Oscar. E não haverá injustiça.