Até onde podem chegar os reality shows? O objetivo são os Jogos Vorazes?

Há duas opções para quem não tem mais o que fazer. Uma é sentar-se para acompanhar um programa tipo BBB. Outra é candidatar-se para participar de algum deles. Mas corra porque os zoológicos estão acabando
A Costa Rica lidera no mundo o processo de fechamento de zoológicos. Os daquele país estão sendo transformados em parques ou santuários de animais. Estados Unidos e Europa têm vários casos de estabelecimentos do tipo que também estão fechando as portas, seja por pressão de defensores dos direitos dos animais, seja por flagrantes de práticas abusivas ou até por falta de público, nos países em que a população tem maior consciência ecológica. O Brasil também tem casos assim.
Num próximo passo, talvez urgente, pode-se começar a pensar na extinção dos chamados reality shows, excrescências sem roteiro nem sentido em que a estupidez viceja dos dois lados da tela. Dentro dela, uma manada de candidatos à celebridade efêmera ou ex-celebridades são enjauladas em cenários pitorescos para, nada fazendo de útil, ter a rotina acompanhada por quem, do lado de fora, nada faz. A despeito do sucesso e da perenidade da fórmula já cinquentenária, o que demonstra a farta oferta de imbecis para ocupar os dois lados, não há notícia do surgimento de um único talento televisivo cujos atributos de sobrevivência não se sustentem em apelo sexual, dislexia mental ou infantilidade interpretativa.
Esses zoológicos de pré-homo sapiens que buscam conquistar prêmios financeiros alcançáveis também pelo estudo e pelo trabalho mas aparentemente alérgicos a essa possibilidade não incomodam ninguém, costumam dizer os produtores cuja vida profissional também depende dos programas — provavelmente porque também não dariam conta de produzir nada com alguns gramas mais de inteligência. Mas o fato é que a falta de substância tem, sim, consequências.
A mais óbvia é a contribuição consistente para fazer retroagir faculdades humanas que a evolução levou tanto tempo para consolidar, como tirocínio, capacidade analítica, raciocínio crítico, inventividade e distinção lógica. A menos óbvia, ainda que mais perigosa, é a sobreposição e sofisticação do lixo dramático acumulado a cada temporada, com experimentações sociocomportamentais abusivas, próximas de ser contempladas com o título de atentados anti-humanitários.
Crimes ao vivo já houve, com injúria, importunação e assédio sexual liderando estatísticas e somando mais um caso esta semana, no Brasil. Urgências médicas não são incomuns e, no mesmo show, semana passada, um participante foi eliminado por possuir uma incapacidade física não detectada nos supostos exames que se fazem com todos os candidatos à jaula vigiada. Mortes por acidente, incluindo afogamento, ou colapso derivado de esforço físicos também já ocorreram. Descrições para os interessados, tratando até de intoxicação de crianças com água sanitária, neste link, em reportagem do jornal britânico The Guardian.
Na Espanha, um programa que tinha a insólita proposta de reunir participantes com histórico de dependência química e instabilidade emocional foi encerrado depois de nove horas de duração, tempo suficiente para cenas de brigas, intercurso sexual explícito e desmaio por abuso de substâncias. Detalhes aqui.
Como qualquer produção cujo sucesso e audiência depende de sensacionalismo, os programas desse tipo carecem cada vez mais da sofisticação e ampliação das penas a que são submetidos os concorrentes e de que a interação entre eles seja conflituosa. Para isso, necessitam, de um lado, da seleção de personalidades convulsivas e instáveis, cada vez mais próximas do incontrolável. Na produção, por outro lado, precisam criar desafios e situações capazes de fazer aflorar essas características. O que falta? Apenas homicídio ou morticínio irrestrito, à la Jogos Vorazes, uma ficção baseada em realities e, aparentemente, perseguida por muitos deles.