Hábil na redes sociais, Nikolas é um artífice do vale tudo eleitoral

Hábil na redes sociais, Nikolas é um artífice do vale tudo eleitoral

Lembrando Jânio e Collor, o deputado mineiro ignora problemas dos aliados, faz política atacando adjetivos e sonha chegar à Presidência pavimentando o caminho com gestos de suposto apoio a Bolsonaro

Se tudo correr como previsto pelo organizador, neste domingo, dia 25, o deputado mineiro Nikolas Ferreira chega a Brasília liderando a caminhada que, a pretexto de contestar a prisão de Jair Bolsonaro, sobe mais alguns degraus na escada que leva o jovem parlamentar à candidatura presidencial em 2030. Esse rapaz, é fácil perceber, é hoje uma das mais destacadas lideranças conservadoras no país, pelo menos em termos de discurso. É legítimo que ele se imagine, um dia, na Presidência da República, desde que trilhe esse caminho pela via democrática, respeite a Constituição e siga uma trilha institucional.

Sua estratégia, porém, tem detalhes curiosos, que lembram figuras exóticas da política brasileira, como Jãnio Quadros e Fernando Collor, entre outros. Seu discurso, por exemplo — amplificado hoje pela proficiência com que lida com as redes sociais e pela facilidade com que vem garantindo financiamento e apoio para pavimentar essa candidatura –, realmente fere os adversários do chamado campo progressista, embora nada tenha de propositivo.

Uma explicação para isso é sua adesão ao que se pode denominar de irresponsabilidade parlamentar adquirida. Uma característica que se manifesta na loquacidade fácil do deputado, desamarrada de qualquer compromisso. Ele simplesmente critica os adversários, apontando pontos fracos que não são difíceis de encontrar. No entanto, além não indicar alternativas, ignora fragilidades evidentes de seu próprio campo político. Se os governadores Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Ratinho Jr., Jorginho Mello, Tarcísio de Freitas ou Cláudio Castro surgem comprometidos com qualquer movimento suspeito, Nikolas está à vontade para se desvincular desse aspecto específico.

Excetuado o contexto das questões normais da política, não há notícia de que o deputado tenha se manifestado para defender qualquer um desses coirmãos ideológicos diante de acusações de rachadinha (Ratinho Jr.), agressão sexual (Zema), prevaricação em caso de homicídio (Caiado), cooptação política (Jorginho), corrupção (Castro) e contratos suspeitos (Tarcísio). Ou seja, Nikolas está com os próceres da direita e não abre, mas apenas em circunstâncias genéricas.

Ele solta o verbo tão facilmente apenas quando tem oportunidade de acusar adversários de quaisquer práticas irregulares. A seu favor diga-se que o comportamento falastrão não é exclusividade sua. Parlamentares de esquerda agem do mesmo modo. A diferença é que, quando comprometidos com a situação, passam pelo constrangimento de ser cobrados e, organicamente, saem em defesa dos correligionários, enquanto o parlamentar mineiro passa batido por qualquer assunto incômodo.

Nikolas, como outros radicais de direita, envolve-se, condena e faz proselitismo sobre adjetivos, não sobre substantivos. Ou seja, ataca e condena os criminosos, que atentam contra o patrimônio e contra a vida,  mas nada tem a sugerir sobre como evitar o crime. Sugere que a punição do agente de uma circunstância seja suficiente para mudar o cenário. A vingança, nessa perspectiva, é mais importante do que a paz social.

O estupro, pensam Nikolas e seus seguidores, será resolvido com a punição ao estuprador e não com a fatoração de uma sociedade que embute em si estímulos a esse tipo de violência. Nessa visão, existe o femélico, mas não importa a estrutura que o levou a essa condição. O desempregado é produto de si mesmo, não do desemprego. O pobre não integra um sistema que o condena à pobreza. O injustiçado pode ter atenção, mas, quanto à Justiça, o que há a ser feito é torná-la ainda mais injusta.

Pouco se importa, por sinal, se as armas digitais que utiliza têm contexto de verdade ou são notícias falsas. Já chegou a ter as contas em redes sociais bloqueadas pela Justiça e enfrenta também processo que pode levá-lo à inelegibilidade. É um artífice do vale tudo eleitoral que desfaz política fazendo de conta que a realiza. Seu protagonismo na tomada da Mesa da Câmara Federal é um bom exemplo do desrespeito espetaculoso às instituições. Esperto, estava longe de Brasília no 8 de janeiro de 2023.

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Adenilson Carmelo Santos
Adenilson Carmelo Santos
1 mês atrás

Tem gente que vem ao mundo para esclarecer. Nikolas veio para confundir

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