Uma chuva no molhado para os 98% de brasileiros que afirmam ser bons motoristas

Uma chuva no molhado para os 98% de brasileiros que afirmam ser bons motoristas

Você dirige bem? Em julho de 2024, 98% dos entrevistados numa pesquisa a respeito responderam que sim. Se o Brasil é apontado pela OMS como o terceiro país em que mais morrem pessoas em acidentes de trânsito, você também pode estar na lista dos que mais mentem sobre suas atitudes ao volante, ignoram o quanto fazem de barbeiragens ou desconhecem a legislação. A cada minuto, 142 motoristas são multados no país por infrações na condução de veículos. Em 2023, apenas nas rodovias federais, foram registrados mais de 67 mil acidentes, nos quais 5,5 mil pessoas perderam a vida. No total daquele ano, as colisões mataram 34,8 mil pedestres, motoristas ou passageiros. Em 90% dos casos, a responsabilidade pelo acidente é do condutor, conforme dados do Observatório Nacional de Segurança Viária.

Para quem, mesmo dirigindo na modalidade que os especialistas chamam de agressiva, tem a sorte de não se envolver em acidentes nem receber multas por imprudência e abuso, há alguns indicadores que podem ajudar de outro modo a entender se enquadram-se ou não entre os motoristas que ameaçam a vida alheia. Começando pelas frenagens, considere os seguinte itens como pontos de atenção:

  • As pastilhas do seu carro duram menos de 30 mil quilômetros? Se sim, você não está gastando apenas com a reposição dessas peças, mas também com pneus e combustível, além de pôr em risco pedestres e outros motoristas. É bem fácil chegar a 60 mil quilômetros até trocar as pastilhas quando você dirige a uma distância segura dos outros veículos, deixa de acelerar quando vê um sinal vermelho a 200 metros, troca de faixa com antecedência para fazer conversões e reduz a velocidade bem antes das lombadas ou quando vê pessoas se aproximando de uma faixa de pedestres a sua frente.
  • Você lembra de sustos provocados por motoristas que freiam bruscamente a sua frente? Em caso positivo, a razão está no fato de não manter distância adequada dos carros na mesma faixa. Há uma proporção lógica nessa condição, dependente da velocidade. A 20 quilômetros por hora, é normal algo como três metros. Não menos. A 100 quilômetros por hora, 60 metros estão de bom tamanho. O tempo normal de reação para frear é de dois segundos, ou 55 metros percorridos nessa velocidade. Se chover, acrescente mais uns 20 metros. Será difícil se assustar novamente.

Continuando pelos faróis:

  • Você anda com os faróis apagados durante o dia? Anda? Vale saber que a chance ser visto, mesmo com sol, aumenta significativamente com os faróis acesos. Eles não vão durar muito menos por causa disso e também não vão consumir a bateria, como ainda acreditam alguns maus motoristas. E não importa se seu carro é dos modernos, com luzes de “assinatura” de led. Farol é farol, lâmpada forte. Led é led, geralmente lâmpada franca.
  • Costuma dar alertas a quem vai à frente piscando farol alto quando está na estrada e numa via expressa? Para quê? Para tirar os tartarugas da frente? Chegar antes a seu destino? Bobagens. Uma diferença, para menos, de 10 quilômetros por hora em uma via que admite 60km/h acrescenta alguns minutos no seu percurso urbano — menos provavelmente do que uma sucessão de três semáforos no vermelho. E, neste caso, sim, há uma redução considerável na durabilidade das lâmpadas.
  • Você fica indignado — e sente dificuldade de enxergar — quando cruza com um carro de faróis altos acesos, à noite, em vias de mão dupla? Pois, então, quem vem na faixa oposta também fica indignado — e tem dificuldade de enxergar — quando cruza com seu veículo e os faróis altos estão acesos.
  • A seta é parents dos faróis. Faz parte do sistema de sinalização luminosa. É aposta ganha dizer que você já mudou de faixa sem dar seta e ficou com o coração na mão com o buzinaço na orelha. E que já deu um buzinaço na orelha de um condutor que começou uma manobra sem sinalizar. Assim como a crase não foi feita para humilhar ninguém, a seta não é um sinal de fraqueza ao volante. Use sem moderação, mas apenas quando for para valer.
  • O pisca-alerta, outro parente, NÃO reforça a visibilidade do seu carro em condição de chuva ou neblina. Quer dizer que o seu veículo está PARADO. Se está parado no acostamento, é um excelente e necessário sinalizador. Se está parado na via, é a coisa mais eficiente que já inventaram para se tentar evitar um desastre enorme. Mas saia do carro; não fique ao lado do carro, não fique na frente do carro, não fique atrás do carro, não fique no acostamento perto do carro. Fique longe.

Pneus:

  • Os seus duram 40 mil quilômetros? Menos que isso? Um pouquinho mais? Provavelmente você trata mal deles e pode se tornar um perigo no trânsito. Há várias razões para não chegar a 60 mil quilômetros de durabilidade — ou mais de 80 mil quilômetros, como consegue aquele seu vizinho tranquilão. Calibragem inadequada é uma delas. Arrancadas fortes e frenagens bruscas são mais duas. Alinhamento e balanceamento também contam. Tudo isso pode acabar pesando no seu bolso e, pior, na sua segurança e nas do que compartilham estradas e avenidas com você.
  • Rodízio regular de pneus é uma questão que merece atenção especial. Os pneus vão se desgastar por igual e até o consumo de combustível será menor. Cabendo recordar que, ao contrário da crendice popular, pneus com desgaste menor devem ser usados no eixo traseiro. Quando enfrentar uma situação com risco de aquaplanagem você entenderá por que. Se a frente do carro escorrega, sua tendência é continuar indo para a frente. Se isso acontece com a traseira, o veículo vai rodopiar e será muito mais difícil, senão impossível, retomar o controle. Tem muito acidente acontecendo por causa disso.
  • Adendo relevante: nunca faça a troca, por desgaste, de um único pneu. Isso causa problemas de estabilidade bem graves e, por consequência, de segurança.

Combustível:

  • Álcool é melhor do que gasolina para o desempenho e para o ar que respiramos. Autoridades no assunto também dizem que é melhor para o próprio motor, sobretudo no uso urbano, porque suja menos alguns componentes. Mas isso não vale para o álcool baratinho do posto sem bandeira nem escrúpulos ali da esquina. Esse vai deixar você na mão — espera-se que não seja num lugar que possa provocar acidentes.
  • Se a sua defesa da gasolina se baseia na maior autonomia em viagens, recorde quantas vezes rodou 400 quilômetros sem parar para esticar as pernas, tomar um café ou ir ao banheiro. Aproveite para abastecer. Cansaço ao volante é um perigo. Há quem atribua mais de metade dos acidentes à fadiga dos condutores.
  • Argumento mais forte — que entra aqui como um Pilatos no Credo, mas é irresistível — é o do lucro absurdo garantido aos produtores de álcool com a vinculação praticamente automática do preço em torno dos 70% do que é cobrado pela gasolina. Aí, sim, porque uma coisa é uma coisa — o álcool. E outra coisa é outra coisa — a gasolina. É verdade que transporte e impostos pesam no preço da bomba, mas é curioso que se cobre mais pelo álcool quando os usineiros veem vantagem financeira em produzir açúcar e não cai proporcionalmente quando a commodity desaba no mercado internacional. Bem diferente disso, o que acontece é se estabelecer aumento da mistura de álcool na gasolina.
  • Não dá para falar sério quando o condutor é que é movido a álcool. Se você bebe e dirige, imagine o risco que correm sua mãe ou seus filhos quando cruzam com um motorista que bebe e dirige.

Velocidade:

  • Primeiro, leia novamente o item dos sustos em frenagens bruscas.
  • Agora imagine que tem gente que faz doutorado em assuntos de trânsito antes de estabelecer os limites de velocidade nas rodovias, notadamente nas curvas. Você não entende do assunto. Admita.
  • É verdade que um limite de 30km/h acompanhado de radar numa alça rodoviária parece um caça-níqueis inventado pelas autoridades. Mas é preciso reconhecer que esse radar protege você do caminhão de 40 toneladas cujo motorista está um pouquinho atrasado e só se contém porque existem radares.
  • Se a via está 100% segura, o que não é tão comum, 10% na velocidade parecem não fazer diferença. Mas, ainda que não faça para você, sozinho, de preferência num autódromo,  imagine o quanto pode fazer para o motorista de fim de semana que está ao seu lado, à sua frente, e que vai ficar intranquilo, inseguro e por vezes desesperado escutando seus pneus cantando na curva, vendo seus faróis altos piscando no retrovisor, olhando para o espelho angustiado com o para-choque que se aproxima. Tomara que ele não escorregue para o seu lado, tomara que ele não freie.

Mas você, integrante dos 98% que dirigem bem, já sabia de tudo isso e esse post apenas choveu molhado. Lembre-se, por favor. Se chove, choveu ou vai chover, reduza a velocidade.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
0
Sua opinião é importante. Comente!x