É melhor não ter grandes expectativas com as aulas em escolas quartelizadas

Erros de português de monitor da PM em escola cívico-militar chama a atenção. Não seria mais adequado gastar com a qualificação dos professores e melhoria de instalações nas instituições públicas? No Colégio Militar de São Paulo, o problema é com a geometria
A TV Vanguarda divulgou há quatro dias o vídeo de um monitor da Polícia Militar que escreveu as palavras “cançado” e “continêcia” — assim, com grafias erradas. Ele participava de aula em que se ensinavam aos alunos, no primeiro dia do semestre letivo na Escola Estadual Profa. Luciana Damas Bezerra, os movimentos de ordem unida, aquela série de sinais, comportamentos e posturas que recrutas aprendem no quartel e devem apresentar quando estão em atividade profissional ou, mesmo nas folgas, quando cruzam com um superior. Integrado ao modelo de escolas cívico-militares que o governador Tarcísio de Freitas vem espalhando como piercings eleitorais para reforçar sua força política junto ao público ultraconservador, o estabelecimento fica em Caçapava, no interior paulista.
Isso dá uma indicação de que talvez as aulas de português não sejam exatamente o primor que se espera na carreira militar ou nas escolas quartelizadas. Mas o Ora Essa! traz também uma informação que deve baixar as expectativas também em relação a outra disciplina. Recém-inaugurado, ainda com diversas instalações por concluir, o prédio definitivo do Colégio Militar de São Paulo, obra o Exército ao lado do Campo de Marte, já recebe os alunos que antes frequentavam instalações provisórias no Solar dos Andradas, no bairro de Santana. No frontispício da enorme portaria, o nome da instituição não tem nenhum erro de português, mas apresenta um desalinhamento gráfico notável a olho nu. A situação é apenas constrangedora, embora indique que a geometria talvez não seja também o forte na área do ensino militar ou pelo menos entre os que fiscalizam a construção.
Centradas na disciplina, as escolas militarizadas seguem padrões de comportamento das carreiras das Forças Armadas. Se ensinar esse regulamento para estudantes civis tem aparência de coisa fora de moda, vale saber que os regimentos disciplinares são mesmo antigo. Wenceslau Braz assinou um decreto a respeito — para militares — em 1915. Chamava-se “Regulamento de continencias, signaes de respeito e honras militares” — e, não, não tinha erros de português como parece indicar o nome. De lá para cá houve pelo menos quatro revisões ortográficas importantes. Mas “cansado” nunca teve “ç” e “continência” — ainda que não tivesse acento circunflexo — sempre teve o “n” engolido pelo monitor em Caçapava.
As escolas das Forças Armadas nasceram no período do Império e sua origem está relacionada a necessidades específicas de filhos de militares, que mudam de base frequentemente. Hoje, funcionando em vários estados, elas recebem também alunos cujos pais nada têm a ver com as carreiras fardadas, mas são alimentadas com verbas da Defesa. A instituições cívico-militares são diferentes. Foram criadas na virada do milênio, a partir de Goiás, em projetos compartilhados com a PM, para atender o público geral. Ganharam grande impulso no governo Bolsonaro, que instituiu em 2019 o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares.
Esse programa foi revogado no governo Lula, mas governadores de direita, como Tarcísio, mantiveram e ampliaram o sistema em seus estados, o que coloca duas questões importantes.
O primeiro problema é o dinheiro que paga os monitores, que são policiais militares da reserva. Se sai das verbas da Educação, o financiamento acaba por discriminar outras escolas e estudantes, piorando uma carência de investimentos notória. Se sai dos recursos da Segurança Pública, contribui para reduzir investimentos naquilo que seria a atividade-fim das polícias.
O segundo problema está na própria atenção do governo estadual ao que ele mesmo classifica como uma elite entre os estudantes. Se o ensino nessas instituições merece algum cuidado especial, o projeto acaba por reduzir oportunidades de formação para alunos das escolas regulares.
Ou seja, com menos recursos e com menor qualidade em instituição que não são contempladas no projeto tendem a ter alunos com desempenho diferente dos aquartelados. A gestão Tarcísio sustenta que a prioridade cívico-militar é para escolas de áreas carentes e com estudantes de baixo índice de aproveitamento. A pergunta que resta é: eles precisam mesmo bater “continêcia”.