Cuidado com a Bolsa de Valores. Essa história de recordes é um perigo

A B3 bate recordes sucessivamente e volta a atrair para mercado acionário os incautos que fazem a alegria dos especuladores, sustentam as comissões de corretores e gerentes e banco e perdem quase sempre quando a euforia e a ganância superam a racionalidade
No dia de hoje, 9 de fevereiro de 2026, a Bolsa de Valores de São Paulo abriu com alta expressiva, de 1,28%. Manchete de um site especializado em economia anuncia que o recorde pode ser quebrado novamente. A chamada informa que as ações estão subindo e indica que o índice da B3 pode até ultrapassar os 187 mil pontos a que chegou no dia 3. No ano passado, a ações no Brasil tiveram seu melhor resultado desde 2016, com 34% de crescimento. Neste ano, em 40 dias, a valorização já chegar a 13%. “Quanto mais alto, maior o tombo”, diz um ditado que vale a pena recordar.
A atual euforia em torno das ações e dos recordes sucessivos do Ibovespa exige cautela redobrada, sobretudo de investidores com pouca experiência que entram no mercado embalados por manchetes otimistas e pela promessa de ganhos rápidos. O fato de o índice alcançar novas máximas históricas cria a sensação enganosa de que o risco diminuiu, quando na verdade ocorre o oposto: quanto mais esticados os preços, maior a chance de correções bruscas, que costumam atingir com mais força quem chegou por último e sem preparo.
Um ponto central para entender o momento atual reside no fato de boa parte dessa onda positiva decorre da forte entrada de capital estrangeiro no mercado brasileiro. Esses recursos migram para o Brasil principalmente por causa do elevado diferencial de juros, da busca global por rendimento em um cenário de desaceleração em economias centrais e da percepção de que ativos brasileiros estavam relativamente baratos em dólar. Hoje, por exemplo, há queda nas bolsas americanas e, portanto, disponibilidade de recursos originada nas vendas realizadas por lá.
Isso deixa claro que não foi a atratividade estrutural da bolsa que melhorou de forma decisiva, mas sim a maior disponibilidade de capital externo, que eleva os preços pelo simples aumento da procura por ações. O problema é que esse mesmo capital estrangeiro pode sair com a mesma velocidade com que entrou, seja para realizar lucros de curto prazo, seja para aproveitar oportunidades melhores em outros mercados ou reagir a mudanças no cenário internacional.
A história recente do mercado brasileiro está repleta de exemplos que reforçam esse alerta. Cabe recordar tanto os casos extremos, explicados por súbita mudança de conjuntura, quanto episódios menos traumáticos — menos traumáticos para o mercado, claro, e muito traumáticos certamente, para quem perdeu parte de seus investimentos.
Em 2008, após anos de forte valorização, o Ibovespa acumulou uma queda próxima de 41%, refletindo o impacto da crise financeira global. Muitos investidores pessoa física, atraídos pelas altas anteriores, viram seu patrimônio encolher rapidamente. Em 2020, no início da pandemia de COVID-19, o índice despencou de cerca de 119 mil pontos em janeiro para pouco mais de 63 mil pontos em março, uma queda de aproximadamente 47% em poucas semanas, um choque que expôs a fragilidade de quem buscava ganhos rápidos sem estratégia. Claro que outras bolsas caíram no mesmo período — mas nenhuma com as mesmas velocidade e intensidade da brasileira.
Mesmo em períodos mais recentes, o padrão se repete. Em 2021, após tocar a região dos 130 mil pontos, o Ibovespa entrou em um ciclo de queda e terminou 2022 acumulando recuo em torno de 12%, frustrando expectativas de quem acreditava que a alta era irreversível. Em 2023, o mercado chegou a registrar uma sequência histórica de mais de dez pregões consecutivos de baixa, mostrando que movimentos prolongados de correção podem ocorrer mesmo sem uma grande crise internacional explícita. Especialistas estão sempre prontos a explicar o passado. Mas fazem isso, naturalmente, depois que a tragédia acometeu os mais entusiasmados recém-atraídos para o mercado.

Uma coleção enorme de episódioa deixa claro que o mercado acionário brasileiro é marcado por ciclos de euforia e depressão, nos quais os ganhos se concentram em períodos curtos e as perdas podem ser rápidas e profundas. Investidores experientes e especuladores conseguem, às vezes, tirar proveito dessa volatilidade, mas o pequeno poupador geralmente entra quando o otimismo já está elevado e sai após sofrer prejuízos relevantes.
Diante do nível atual da taxa de juros praticada pelo Banco Central, não há razão objetiva para que poupadores que não são especuladores financeiros se aventurem na bolsa buscando ganhos de curto prazo. Se o BC sinaliza que os juros vão cair, esse é um sinal importante, mas que não determina a mudança impensada de investimentos. Afinal, ele AINDA não caíram. Aplicações em CDBs e, principalmente, no Tesouro Direto, com destaque para o Tesouro Selic, oferecem rendimento muito próximo à taxa praticada pelo Banco Central, com liquidez, previsibilidade e risco consideravelmente menor. Para quem busca preservar patrimônio e obter retorno real, essa relação risco-retorno é claramente mais racional.
Por fim, vale reforçar que quem realmente ganha no mercado acionário ao longo do tempo são dois perfis bem definidos: os investidores de longo prazo, focados em empresas sólidas, geração de caixa e dividendos consistentes, e os especuladores profissionais, que sabem lidar com risco elevado. Para o restante, convém lembrar a velha máxima: gerente de banco trabalha para o banco e corretor de ações trabalha para a corretora. O interesse do cliente, na melhor das hipóteses, é a segunda prioridade. Não por acaso, há tanto esforço para levar investidores inexperientes a negócios de alto risco justamente nos momentos de maior euforia.
Para investidores que não são profissionais nem têm tolerância a riscos elevados, alocar recursos exclusivamente buscando ganhos de curto prazo em ações pode resultar em frustração, perdas e desgaste emocional — e, por isso, é frequentemente mais prudente optar por estratégias conservadoras e alinhadas ao perfil de risco pessoal.
Já vimos essa história muitas vezes. A Bolsa é um cassino controlado pelos mais espertos.