Se começou em pizza, no que vai terminar a história do bitcoin

Ganha um fio dental de segunda mão quem relacionar o desabamento da cripto com a valorização do ouro. Num mercado totalmente especulativo, agora estrelado também pelas organizações Trump, incautos entram em pânico e o risco das moedas virtuais vai além das perdas financeiras
Em 22 de maio de 2010, programador Laszlo Hanyecz comprou duas pizzas na Papa John’s de Jacksonville, na Flórida, na transação que inaugurou o uso comercial do bitcoin. Pagou 10 mil bitcoins, equivalentes na época a US$ 41, ou R$ 76 reais pelo câmbio daquele momento. Pela cotação de 5 de outubro do ano passado, as pizzas custaram US$ 1,26 bilhão – ou R$ 6,7 bilhões. Em valores de hoje, seria possível comprar as mesmas pizzas de 2025 por metade do preço. O bitcoin acumula 47% de desvalorização desde sua alta máxima – e há risco concreto de que não vai parar por aí.
Juros altos nos EUA, ofertas de investimentos rentáveis no curto prazo, inversão na tendência de compra de fundos de criptos e aversão a risco por parte de grandes investidores são algumas explicações encontradas no mercado para o desabamento. Mas a principal razão está relacionada à natureza da moeda virtual, que é sua aplicação específica para a especulação. Como não tem lastro nem utilidade comercial ampla, o bitcoin e seus assemelhados servem para o trânsito de recursos para quem usa o mercado financeiro como um cassino.
Especuladores impulsionam os preços comprando na baixa, atraem outros investidores com a alta derivada da procura e saem do jogo como manada quando determinam a hora de realizar lucros. Os recém-chegados ao mercado veem um mico nas mãos, saltam fora para reduzir prejuízo e produzem o pânico que leva ao efeito tobogã. Não é um caso muito diferente dos vales encontrados nos índices das bolsas, mas, com criptos, a verticalidade é ainda maior porque, dado o histórico e a insegurança generalizada quanto ao futuro da moeda em questão, é notável a escassez de compradores. As chamada hienas, que venderam antes, posicionam-se com ofertas ridículas, forçando cada vez mais as quedas.

Ora Essa! | – Ora Essa!
Na prática, o preço cai até mesmo sem negociações relevantes, porque investidores em pânico fazem um leilão reverso de ofertas de venda umas sobre as outras. Como subiu astronomicamente ao longo dos últimos três anos, depois de uma descida prodigiosa na virada de 2022 para 2023, o bitcoin provavelmente tem ainda um consistente caminho a percorrer – negativo. Na contramão, o ouro, que desde 2023 vem atraindo investidores que buscam segurança diante de instabilidades no mundo todo, subindo quase 65% no ano passado, já acumula este ano, em 45 dias, 15% de valorização. Ganha um fio dental reciclado quem fizer a relação entre os dois fenômenos.
Ouro e bitcoin, apesar da diferença da existência física de um diante da eteridade do outro, guardam relação quanto à invariabilidade como investimento. Enquanto outras possibilidades podem sofrer valorização ou depreciação diante de si mesmas, como o dinheiro que rende juros, o imóvel que sobe de preço diante de outros e o carro que perde valor com o tempo, um quilo ouro será sempre e apenas suficiente para comprar um quilo de ouro. Do mesmo modo, um bitcoin serve para comprar um bitcoin.
Por isso, em parte, são considerados reserva de valor, dada a escassez e dificuldade de mineração de ambos – com a moeda virtual tendendo a ser ainda mais rara, já que só poderá ser “produzida” até o total de 21 milhões de unidades, das quais restam apenas 5% a extrair dos computadores que geram códigos alfanuméricos em série até encontrar os que podem ser validados num blockchain. Por outro lado, o que ainda separa amplamente um do outro é a conversibilidade para ampla negociação.
O bitcoin se expande nesse sentido, mas está longe de ser aceito em qualquer tipo de transação. E ainda guarda o estigma de ser útil para traficantes e contrabandistas, diante de dificuldade de rastrear negociações. Como curiosidade, vale registrar que dois parentes dele, o Monero e o Tether, são amplamente utilizados nesses mercados e na venda ilegal de armas, por exemplo, porque são ainda mais difíceis de ter as transações identificadas. O Monero utiliza tecnologia que esconde o remetente, o destinatário e o valor da transação. O Tether, que pareia com o dólar e por isso tem estabilidade, é apreciado na lavagem de dinheiro.
As organizações controladas pelo presidente americano Donald Trump também têm moedas digitais – entre elas o $Trump e o USD1. O objetivo de sua criação do primeiro, há um ano, era ser item de colecionador e símbolo cultural. Tão instável quanto outros ativos sem lastro, oscila conforme o ambiente político e já causou prejuízos – lançada a US$ 0,18, evoluiu para US$ 75 e está cotada, agora, em torno dos US$ 4. O USD1 tem referência o dólar e, com ele, Trump espera se referência em transações internacionais baseadas em cripto.
Uma possibilidade – mas não exatamente uma especulação – é o financiamento de partidos e organizações paralelas de direita mundo afora com USD1. Mas a cripto é considerada um risco em termos de corrupção financeira e eleitoral, desestabilização de bancos centrais e estímulo de conflitos sob anonimato.
Para o bitcoin, a projeção pessimista é de que ainda desabe até os US$ 50 mil na atual derrocada. O banco JPMorgan e a consultoria Bernstein sustentam, no entanto, previsões de que o preço atual (US$ 67 mil) pode ser o piso da queda e que no final de 2026 a cotação chegará perto dos US$ 160 mil. Nessa visão, seria um bom momento para comprar a cripto. O JP Morgan foi um dos bancos que mais perdeu por subestimar a crise das hipotecas de 2008 e previu uma recessão que não ocorreu em 2023. A Bernstein, famosa por contrariar consensos, condenou a Tesla ao fracasso durante anos em que a companhia acumulou sucessos e subestimou o boom da inteligência artificial.
O dinheiro é seu. O risco de comprar pizza nova na alta e vender estragada na baixa também.