Golpista, Donald Trump usa a guerra como plataforma eleitoral

Golpista, Donald Trump usa a guerra como plataforma eleitoral

Para “fazer as coisas acontecerem” na direção de um terceiro mandato e do que de melhor puder abocanhar depois, o presidente americano faz a guerra, ignora tratados, privilegia os amigos, entrega-se ao populismo e sabota organizações internacionais

A história de Donald Trump como apresentador do programa O aprendiz tem componentes didáticos, que contribuem para a compreensão da personalidade e dos objetivos do presidente americano. Quando foi criada pela emissora NBC, a atração previa uma temporada com Trump e sequências com Richard Branson, criador do Grupo Virgin, e Marta Stewart, apresentadora de TV e empresária de mídia e merchandising. Mas o então empreendedor imobiliário que se apresentava como bilionário — embora suas empresas tivessem dívidas estimadas em US$ 1,8 bilhão e suas declarações fiscais de anos anteriores fossem um corolário de prejuízos — deu um golpe na produção adquirindo 50% da propriedade do programa e tornando-se a única estrela a conduzi-lo.

Isso não é muito diferente do plano pelo qual pretende comprar popularidade junto ao público americano a ponto de obter do Congresso a alteração da 22ª emenda da Constituição dos EUA, que determina unicamente dois mandatos para qualquer presidente. Um projeto a respeito já está em curso, com a assinatura do deputado republicano Andy Ogles. A proposta admite três mandatos, desde que somente dois sejam consecutivos. Se aprovada, precisa ser ratificada pelo Legislativo de 38 dos 50 estados ou em assembleias específicas, por delegados constitucionais, também em três quartos das unidades federativas. O caminho é complicado, porque visa alto nível de consenso político para a mudança, mas não é impossível.

É esse trajeto que Trump imagina trilhar a partir de ações espetaculosas e até inconstitucionais e internacionalmente condenáveis, como a invasão da Venezuela para capturar Maduro e os ataques ao Irã. De um lado, por atacar inimigos que francamente castigam a população de seus países como regimes autoritários e violentos — mesmo contrariando o direito internacional –, ele acredita estar construindo a base de apoio popular de que precisa para alcançar o terceiro mandato. De outro, como a política americana é feita à base de financiamentos privados, o presidente acredita que, favorecendo empresas de seu país, cria o cenário necessário para que as contribuições para fundos eleitorais fluam exclusivamente para si e seus aliados explícitos. Favorecer a atividade de petroleiras americanas no exterior – como consequência das mudanças de regime nos dois países – é um capítulo desse roteiro.

Do mesmo modo, a despeito das consequências inflacionárias, o circo da taxação de importações, a desregulamentação ambiental, as alterações nos acordos comerciais com México e Canadá, os incentivos de capitalização para pequenas empresas e a perspectiva de reproduzir a histórica marcha para o Oeste (desta vez na direção oposta, rumo à Groenlândia) são iniciativas que impactam positivamente o caixa dos empreendedores americanos. Se o efeito é de curto prazo, em boa parte dos casos, não importa a Trump. Ele só precisa que seja suficiente para que as doações sejam fartas na direção do Partido Republicano e escassas para os adversários. Na cultura política predominante nos Estados Unidos, aliar-se a um loser (perdedor) gera impactos negativos aos olhos das comunidades. Portanto, mesmo sem apoiar a direita, quem discorda dela pode sentir-se desincentivado a combatê-la.

A construção da imagem de Trump, por sinal, é espertamente calcada em características culturais que se consolidaram nos EUA a partir de uma história de colonização e construção de um país sempre a partir de perspectivas de individualismo, independência, enfrentamento de condições ambientais precárias, defesa absoluta da propriedade, ação violenta contra os adversários (transformados em inimigos) e associação comunitária apenas pela ordem e disciplina em favor desses valores. A forma pela qual o atual presidente forjou sua persona pública usando a televisão – mídia onipresente até os anos 10 deste século – está primorosamente explicada na análise How Trump became a TV star before The apprentice, publicada em 2017 no site da BBC. Não é necessário reproduzir aqui o que ela pontua. Mas cabe observar como sua tática midiática migrou para a internet e as redes sociais posteriormente e estudar em particular o programa que consolidou a máscara trumpista.

Como se sabe, como muitos outros reality shows, O aprendiz não foi um programa que estimulava ações em grupo, em prol de objetivos comuns. Pode-se dizer, aliás, que o objetivo nunca foi vencer uma competição, mas sim derrotar os oponentes. Não premiava o melhor projeto, mas sim aquele que suplantava o de outros concorrentes por atender ao mercado, gerando retorno maior para o investidor. A filósofa de origem russa Any Rand, que sistematizou essa lógica capitalista, chamava esse processo de objetivismo, mas fica melhor nome popular de egoísmo racional – a ideia segundo a qual, ao buscar o melhor para si, o empreendedor contribui para a riqueza geral (independentemente da má divisão). Gerar impostos, dar emprego e gerar salários seriam consequências. Aperfeiçoada, a proposta implica em lutar pela redução de impostos, minimização de empregos e diminuição de salários.

Marginalização social, concentração de renda, danos ambientais, antirregulação, corrupção e uso pessoal do aparato legal e estatal são consequências naturais dessa postura, mas, para o empreendedor, os interessados nessas questões são inimigos a combater. Não por acaso, a fortuna de Donald Trump foi amealhada no setor da construção civil, cuja lógica é esse individualismo metodológico, disciplinado exclusivamente pela mão invisível do mercado de Adam Smith. O livro “The Power Broker: Robert Moses and the Fall of New York”, publicado em 1974 por Robert Caro, narra em detalhes a história de gentrificação, corrupção e abuso de poder na construção da cidade mais rica do mundo. O empreiteiro Fred Trump, o pai do presidente, era um entre vários parceiros  do chamado “mestre construtor” Robert Moses, que dominou a burocracia municipal de edificações ao longo de 44 anos. Oliver Stone planeja filmar uma série baseada no livro.

Trump redesenha o mundo
IA: ChatGPT

O presidente Trump aperfeiçoou a visão de Moses, de “fazer as coisas acontecerem”, assumindo ele próprio, como personagem político construído com o uso da mídia, a condição de gestor cujo propósito é enriquecer, cevar os parceiros e entregar ao populacho as migalhas necessárias para a sobrevivência. Não é o único no mundo. Pelo contrário. No entanto, sentado na cadeira mais poderosa do globo – o que não seria tão grave se fosse um problema criado apenas pelos e para os americanos -, cria um risco planetário com sua ambição. Nada indica que Trump pretenda parar depois de violar tratados entre nações com ações na Venezuela e no Irã, alcançar eventualmente o controle da Groenlândia e sabotar entidades de regulação internacional para chegar a um terceiro mandato.

A cada passo, ele deixa óbvio que sua visão coincide com a do escritor futurista George Orwell, que previu, no livro “1984”, um planeta dividido em três continentes, em termos de dominância – Oceania, Eurásia e Lestásia. A Rússia-Eurásia e a China-Lestásia, poderosas e armadas demais para que as possa combater, são as únicas forças que podem sobreviver, nessa concepção, à medida que se empenha em consolidar uma América-Oceania. Trump pretende “fazer as coisas acontecerem”

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