O suicídio do Sicário de Vorcaro é improvável, senão impossível

O suicídio do Sicário de Vorcaro é improvável, senão impossível

Enforcar-se usando uma camiseta tem alta dose científica de improbabilidade e a folha corrida do capanga do dono do banco Master indica que Luiz Phillipi Mourão não teria nenhuma razão para realizar sozinho a queima de arquivo que interessa tanto ao banqueiro fraudador

Dar o apelido de Sicário ao sujeito encarregado de ações violentas, como quebrar dentes de jornalistas ou ameaçar adversários, e de trabalhos adicionais como o pagamento de propinas e subornos, não é uma ironia nem uma piada pronta, como vem sendo tratado o caso na maior parte da mídia. É um escárnio, isso sim, e também uma demonstração do nível mafioso a que chegou a gangue de Daniel Vorcaro, nela incluídos seus sócios, ocultos e explícitos, como o ministro Dias Toffoli.

O termo sicário deriva de um pequeno punhal, a sica, que era usada pelos zelotes, integrantes de um movimento radical judaico do século 1, os quais usavam essas adagas escondidas sob a roupa em missões de assassinato de inimigos. A palavra ganhou historicamente o significado de matador assalariado. No século 11, os sicários do líder da seita Nizari Ismaili, no Oriente Médio, matavam a serviço de Hassan-i Sabbah. Do nome dele deriva a designação assassino. Sabe-se agora que o sicário vorcariano foi precisamente cognominado no bando de comparsas do banqueiro – conhecidos em tempos de WhatsApp como “A turma”, conforme demonstraram as investigações da Polícia Federal.

Toffoli, Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Nunes Marques, Hugo Motta e, destacadamente, Ciro Nogueira são alguns dos nomes já conhecidos como contatos na agenda de Vorcaro, mas sabe-se que muitos outros figurões da República ainda serão descobertos nos próximos dias e terão muito a explicar sobre jantares, reuniões e conspirações em favor dos interesses pessoais e do banco Master. O banqueiro, como revelam as investigações e parte de suas mensagens via aplicativo – além das de seus asseclas –, estendia tentáculos financeiros também na direção de funcionários do Banco Central, de um site noticioso e de um “figurão” do governo ainda por ser identificado.

Num esquema mafioso de tais proporções, não espanta que o tal Sicário, Luiz Phililpi Mourão, titular de uma ficha policial dantesca, venha a morrer logo depois de ser preso na Operação Compliance Zero. Queimas de arquivo fazem parte da rotina de organizações criminosas. O que não faz sentido é uma tentativa de suicídio por parte de um sujeito que já respondia à Justiça por crimes como formação de bando, lavagem de dinheiro, participação em pirâmide financeira, agiotagem, intimidação, coerção violenta e ataques cibernéticos. Para Mourão, ser descoberto como braço armado clandestino do banqueiro especializado em fraudes e corrupção seria apenas mais um item biográfico.

Além disso, a afirmação de que ele teria se enforcado nas dependências da Polícia Federal usando a própria camiseta, amarrada à grade da cela, tem um nível de improbabilidade científica que beira a ficção. Vá lá que isso seria possível usando as pernas das calças. Mas camiseta branca de mangas curtas que usava ao ser detido – com a qual foi fotografado ao chegar à Superintendência da PF – não parece ferramenta boa o suficiente para um suicídio. A corporação não fornece nenhum tipo de uniforme aos presos, mas, na hipótese improvável de que tenha feito Luiz Phillipi trocar de roupa ou permitido que o fizesse, seria uma demonstração de incompetência absoluta dar ao prisioneiro qualquer peça com utilidade suicida. Cintos, cadarços e assemelhados, como um cachecol ou pulseiras, são, por precaução rotineira, retirados de qualquer detento.

Num caso análogo de 2019, no município de Taquara (RJ), a polícia estadual sustenta que Marcos Vinícius Gouvea Gomes, detido depois de uma briga, teria usado uma camiseta para cometer suicídio na cadeia. Família e advogados contestaram, houve exumação para nova perícia e até hoje não se conhece a conclusão da investigação. A suspeita, mais do que óbvia, é de que, como ocorrer com certa frequência, o homem foi assassinado e forjou-se a cena de suicídio.

No misterioso enredo envolvendo Sicário, a PF afirma ter vídeos que gravaram sem pontos cegos toda a permanência do detido na Superintendência. Quando for exibido, se for exibido, esse material terá mais espectadores do que o filme brasileiro oscarizável “O agente secreto”. Não será surpresa alguma descobrir que o banqueiro capaz de aliciar ministros do STF, corromper outras autoridades, negociar atos violentos e ter um sicário apelidado de Sicário tenha providenciado, de algum modo, o “suicídio” de seu capanga.

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