Da série: Poema numa hora dessas! “O espetáculo passageiro”

Este poema é uma tradução da primeira parte de “The passing show”, de Ambrose Bierce (1842-1914), incluído no livro “Shapes of clay” (Moldes de argila), sem registro de publicação no Brasil. A acidez e perspicácia do autor caem bem neste momento de estupor dos brasileiros diante da desfaçatez dos poderosos
O ESPETÁCULO PASSAGEIRO
I
Não sei se foi um sonho. Mas vi, radiante,
A cena de uma cidade de multidão vibrante,
Entre o abismo do leste e o do ocidente,
Erguendo medonha estrutura gigante.
Palácios colossais coroavam cada monte;
Torres subiam dos vales bloqueando o horizonte.
Sobre as casas a seus pés, cúpulas douradas
Tiniam no azul, bárbaras como o sol sobre a fonte.
Mas agora cintilava um novo dia,
Acinzentando as massas negras com harmonia.
As cumeeiras dos templos do deus daquela gente
Pontilhavam as alturas em dilatada vigia.
Bem guardavam os tetos um segredo do mundo,
De vida e morte na trégua do sono profundo.
Era tempo de despertar os adormecidos:
O tolo para a esperança, o sábio para luto fecundo.
Os jardins verdejavam nas colinas construídas
Acima dos trovões das fábricas, forças contidas,
Com eixos inativos à espera do trabalho
De domar a torrente das águas vertidas.
Uma encosta cortada, em trégua de momento,
Em obras, fitava no entorno os blocos de cimento,
E expunha o peito ferido como estigma que gritava:
“Cortem! Meu destino é dar ao povo assentamento.”
“Há pouco o mamute por aqui pastava.
Em minhas encostas e cavernas eu dava
Abrigo a seus pais, homens nus e peludos.
Com vísceras do inimigo a horda banqueteava.”
Navios de longe povoavam a baía.
Nos porões de imenso ventre seguia
A fortuna do mundo. Em frotas animadas,
Para o distante Cathay, a riqueza partia.
Ao lado da cidade dos vivos se estendia
A dos mortos — estranho convívio, agonia!
Perguntava-me, acerca do contraste, o que o povo,
Humilde, de lares tão rústicos, então diria.
Mas toda habitação era firme e sadia,
De base larga e livre de madeiras baldia.
No fundo em granito e no alto em bronze
Os eminentes gravaram seus nomes um dia.
Percebi: “Quando o ouro e o poder ditam o norte,
Pelo encanto ou pelo soldo da má sorte,
Homens de outros continentes vêm para este lugar
Quando pretendem fama que vença a morte.”
Do oriente vermelho, o sol — em rito solene —
Coroou com chama lá no alto a cruz perene
Acima dos mortos. E então, com todo vigor,
Feriu de estrondosa luz a cidade infrene!