Queiroga chegou para dizer sim a Bolsonaro e não à saúde dos brasileiros

Queiroga chegou para dizer sim a Bolsonaro e não à saúde dos brasileiros

Depois de vinte dias no cargo, o novo ministro já pavimentou o caminho de mais um vexame e segue de joelhos passando pano nos crimes sanitários do presidente

Se, por discordar de Jair Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta ganhou uma coroa de louros que acredita ser passaporte para candidatar-se à Presidência da República, não se pode esquecer, de outro lado, que estava no governo como ministro dos Planos de Saúde. Seu sucessor, Nelson Teich, percebeu que o tinham nomeado ministro da saúva e roeu a corda em velocidade inédita. Descendo a escada da fama, o presidente brindou os brasileiros na sequência com o almoxarife Eduardo Pazuello, que reforçou a logística de circulação do vírus e agora luta para ser esquecido diante da perspectiva de ter tudo o que não fez lembrado na possível CPI da pandemia.

Mas e o ainda recente Marcelo Queiroga? A que veio e como está se saindo o ministro que completa agora vinte dias oficialmente no cargo? Se há uma coisa que foi aperfeiçoada pela pandemia, esse predicado é a capacidade da imprensa em geral e de todos os brasileiros, incluindo os pacientes do sistema médico e hospitalar e os impacientes que nele não conseguem entrar, de avaliar a competência de um ministro da Saúde depois das primeiras pinceladas do dito no novo cargo.

Logo haverá uma pesquisa precisando essa avaliação. Mas desde já é possível ver muita coisa na atuação de Queiroga, um cardiologista que chegou posando de explicador mas só atua para confundir as ações federais diante da crise sanitária. Infelizmente, nada há de muito positivo na sua breve gestão, principalmente no que seria sua missão mais importante, de embridar Bolsonaro com uma máscara que o leve a dar exemplo à manada pró-covid, de um lado, e prenda a língua presidencial nos seus arroubos em favor da pandemia. Nisso Queiroga já fracassava antes de assumir, tendo assinado como presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia um manifesto de dezenas de entidades médicas a favor das máscaras – simultaneamente à divulgação de um vídeo de Bolsonaro no Facebook colocando em dúvida a eficácia desse tipo de proteção. Se era um crítico suave do presidente, o médico é agora um subalterno escalado no time negacionista que docemente passa pano em todas as atrocidades que o chefe comete.

A escalada de Queiroga está, porém, no rumo de um fracasso mais amplo, na medida em que se atribuiu, por ordem superior, o encargo de combater a mais grave crise sanitária em um século injetando platitudes numa população que precisa mesmo é de vacinas e receitando placebos, até criminosamente, como fez ao prescrever que hospitais passem a economizar oxigênio no primeiro atendimento, como forma de poupar o insumo para os pacientes que de fato precisam dele. Nem a Pazuello ocorreu, durante a asfixia do sistema de saúde do Amazonas, formular um programa federal de contenção do uso de oxigênio nos moldes propostos por Queiroga.

Mas há sinais ainda piores no diagnóstico do comportamento do novo ministro. O mais grave é seu baixíssimo nível de saturação criativa diante de problemas que exigem competência, recursos e agilidade. Predisposto a não pisar sobre os ovos que formam seu caminho até o presidente, decidiu limitar sua atuação à recomendação reiterada do distanciamento social voluntário e do uso de máscaras e álcool em gel, providências de que até as pedras estão informadas e que só não faz aos únicos brasileiros que insistem em ignorá-las.

Domingo passado, dia 11, coube a uma vendedora ambulante manter Bolsonaro em seu devido lugar – do lado de fora de uma barraca de frango assado, quando o capitão, sem máscara e cercado por uma corriola também desprotegida, pretendeu ultrapassar a fita demarcatória de restrição sanitária. Queiroga faz questão de anunciar que não colocará nenhuma fita de restrição em torno de Bolsonaro, seja de característica sanitária, como sua qualificação de ministro da Saúde autorizaria, seja de caráter político, como exigiria sua condição de responsável pela coordenação nacional contra a pandemia, ou seja ainda de natureza ética, o mínimo que se poderia esperar de um médico cujo compromisso jurado é de proteger terceiros contra as ameaças virais, bacteriológicas e higiênicas, representadas, atualmente, pelo ocupante provisório do Palácio do Planalto que o contratou para o cargo.

Uma lição para o presidente: mantenha distância, respeite as restrições sanitárias

Pelo contrário, o ministro assumiu a função ajoelhado como o antecessor – “um manda o outro obedece” –, já adiantando que “evitar o lockdown é a ordem” e renunciando de antemão a uma ferramenta que foi eficaz para outros países em diversos momentos da pandemia.

É certo que, num país pobre acometido por níveis estratosféricos de desemprego e desassistência, pode ser crime obrigar pais de família a cultivar a fome trancados em barracos, mas nada impediria Queiroga de, em ação concatenada com governadores e prefeitos e combinada com outros ministérios, estudar a efetividade de paralisações parciais e de escalonamentos no funcionamento das atividades econômicas. Só nos lugares em que a redução de aglomerações no transporte público deu certo houve diminuição rápida e consistente nos índices de contaminação pelo Sars-CoV-2.

O dramático na recusa a medidas na restrição de circulação é que elas se tornam inevitáveis e precisam ser mais duras conforme a doença se dissemina amplamente. O ministro da Saúde sabe disso, mas se recusa a agir – aceitando o risco de ser cúmplice de um fracasso que ceifará pelo menos meio milhão de vidas até o mês de junho. É um paradoxo que tenha aceitado o poleiro no ministério movido pela vaidade e concordado com um nível de autonomia delimitado pelo presidente num patamar que o condena a ser comparsa num genocídio.

Do mesmo modo, Queiroga está cientificamente informado de que o chamado “tratamento precoce” defendido pelo seu chefe é uma solução não comprovada para a covid que pode agravar a condição de saúde das pessoas que o adotam. Pode-se até compreender que, como médico, privadamente, respeite a opção de colegas que decidem, em acordo com alguns pacientes, arriscar a prescrição sem bula, já que também não existe um procedimento efetivo de sucesso para combater a infecção. Mas só um exercício explícito de viverra sacculos explica que o ministro tenha subido ao palanque em Chapecó, há uma semana, para elogiar médicos locais que aderiram ao protocolo municipal à base de cloroquina e ivermectina, distribuídas gratuitamente pelo poder público.

“Aqui em Chapecó, no estado de Santa Catarina, nós pudemos ter o exemplo de que é possível conciliar a autonomia do médico com a recuperação dos nossos pacientes”, discursou o ministro, em afirmação que contradiz os fatos. Dezoito pessoas morreram de covid em Chapecó nos sete dias anteriores à visita de Bolsonaro e Queiroga à cidade e vinte nos cinco dias posteriores. Os diagnósticos confirmados mais do que duplicaram desde que o prefeito pró-cloroquina assumiu, em janeiro, e as mortes foram multiplicadas por quatro. O total de hospitalizados cresceu quase três vezes, assim como o de internados em UTIs. E, sim, a cidade passou por um período de fechamento do comércio entre 22 de fevereiro e 8 de março.

Enquanto vai ganhando essas anotações vermelhas em seu currículo, o ministro deixa, por outro lado, de agir na direção de medidas efetivas para aliviar uma pandemia que já faz o Brasil campeão mundial da média de vítimas fatais do coronavírus. Com 4.195 mortes no pior dia da pandemia observado até agora, o país está a um passo de tornar-se também o recordista de óbitos no período de 24 horas. E, infelizmente, com os impulsos do ministro, caminha adiante.

Há menos de uma semana, ele usou toda a energia acumulada na cadeira ministerial para dizer que a compra de vacinas pela iniciativa privada é um fato positivo, embora seja cético sobre essa possibilidade. A afirmação mostra que Queiroga ignorar ou finge ignorar que a agilidade e o poder financeiro de empresários poderiam criar uma competição desigual na compra de vacinas, o que, na prática, deixaria para trás não só os interesses da população brasileira, mas também as de países mais pobres. Com um governo que defende patentes mesmo diante de calamidades planetárias, a sorte incrível do Brasil é que os próprios laboratórios dizem que só venderão as vacinas contra a covid para instituições públicas – única razão para o ceticismo do titular da Saúde.

Num resumo simples de seu desempenho desde a espera humilhante para uma posse quase clandestina, é possível dizer que tudo o que Queiroga fez foi dobrar a espinha diante dos crimes sanitários de Bolsonaro e criar desculpas para cada um deles. No arremate dessa atividade, afirmou no domingo que será falha dele se o presidente não for convencido a adotar as melhores práticas para combater a pandemia. Ou seja, ao completar em 20 dias oficialmente no cargo, já descobriu que sua gestão tende a ser um novo vexame, mas tem menos pudor quanto a isso do que teve Nelson Teich, que demorou menos de um mês para pedir demissão. Seguirá, portanto, sob as rédeas da infâmia.

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