É preciso falar mais sobre Mandetta. E, mesmo assim, ampará-lo

É preciso falar mais sobre Mandetta. E, mesmo assim, ampará-lo

Depois do artigo na Veja mostrando o absurdo de seu discurso destemperado contra a administração de um plano de saúde que atende idosos, o ministro Luiz Henrique Mandetta participou de mais algumas entrevistas coletivas e teve o bom senso de não retomar o assunto. Ficaria ainda pior nessa foto, já que o texto na revista nem lembrou que a filha de Mandetta, advogada, passou a cuidar em escritório próprio dos interesses de uma empresa do setor tão logo o pai passou a integrar o Ministério.

Antes, com o pai deputado, tinha obtido a conta dessa operadora de plano para a banca da qual era sócia. Depois, rechearia sua própria carteira de clientes com outras administradoras do ramo.

Isso tudo é muito constrangedor, mas a questão se torna ainda mais complexa porque, no momento vivido pelo país, é preciso dar sustentação ao ministro Mandetta, diante do risco de incontinência autoritária representado por Jair Bolsonaro. Com o próprio presidente já disse, enciumadíssimo, ele e seu ministro da guerra contra a pandemia do coronavírus não estão se bicando. Há relato, na Veja, de telefonema entre os personagens no qual Mandetta disse ao presidente que terá de demiti-lo. Não pedirá demissão. Para o bem do país, espera-se que não peça mesmo, ainda que os integrantes do gabinete do ódio estejam iniciando campanha contra o ministro.

O nome mais prestigiado por Bolsonaro e cotado para a substituição no Ministério da Saúde é o do diretor da Agência Nacional de Saúde, a Anvisa, o contra-almirante Antonio Barra Torres, médico que muita gente pôde ver cometendo a insanidade de acompanhar o presidente na dia em que ele quebrou a quarentena para misturar-se a manifestantes diante do Palácio do Planalto. Barra Torres era o sujeito animado que gravava em vídeo, no celular, a troca de muitos cumprimentos e sabe-se lá quantas bactérias entre Bolsonaro e seus admiradores.

O diretor da Anvisa é também, desde o dia 1º de abril, o responsável por tudo o que a Anvisa faz em relação ao coronavírus, incluindo ações sanitárias nos aeroportos. A agência, que tomava decisões num colegiado, agora não precisa mais ter quórum em suas reuniões. Vale lembrar que, no dia 22 de fevereiro, sábado de Carnaval, quando as notícias sobre a disseminação do coronavírus para fora da China já eram abundantes e milhares de turistas estrangeiros desembarcavam no Brasil, o posto de atendimento da Anvisa no Aeroporto Internacional de Guarulhos permanecia fechado. Duas brasileiras que embarcaram naquela para o Peru e deram com o guichê fechado ao precisar dos serviços da agência são testemunhas desse absurdo.

Na hipótese de Barra Torres ocupar a cadeira onde está Mandetta, é fácil antecipar o que pode acontecer em relação ao combate à pandemia, conhecendo-se o recado que o diretor da Anvisa mandou quando foi questionado pelo jornal O Globo sobre sua irresponsabilidade ao acompanhar o presidente no dia da manifestação bolsonariana. “Se o anfitrião está no sol, fico no sol”, disse Barra Torres. Ou seja, todos nós corremos o risco de ficar na chuva, já que o contra-almirante não dirá jamais um ‘não’ ao chefe – ao contrário do que Mandetta vem fazendo.

O texto publicado na Veja sobre o destempero de Mandetta contra a empresa de saúde rendeu ao autor o recebimento de mais de 700 e-mails, em dois dias. A imensa maioria com depoimentos de beneficiados do plano de saúde atacado pelo ministro indignados com sua atitude. Uma dúzia de mensagens trouxe denúncias de mortes ocorridas em atendimentos nos hospitais da rede em circunstâncias consideradas inadmissíveis ou de atendimentos insatisfatórios. A resposta a estes casos tratou da necessidade de recorrer sempre às autoridades e à Agência Nacional de Saúde Suplementar quando se é testemunha ou vítima de problemas com planos de saúde.

Sabe-se que a agência tem um desempenho criticável, do ponto de vista dos usuários de planos de saúde, e considerado condescendente com os abusos das empresas. No site Reclame Aqui, a ANS nunca postou uma resposta a usuários que utilizaram o serviço para se queixar de sua inação. Sua reputação é a pior possível. No próprio relatório da ouvidoria da ANS relativo a 2019 consta que 54% dos atendidos no serviço disseram que sua reclamação não foi atendida e que 25% declararam ter sido parcialmente atendidos. Evidentemente, esses números incluem quem apelou à agência e saiu insatisfeito por não ter razão quanto à reclamação. Mas são dados significativos, aos quais será interessante voltar brevemente.

Créditos das imagens:

Mandetta: Isac Nóbrega/PR – Barra Torres: Leopoldo Silva/Ag.Senado

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