O destroçador de gravuras

O destroçador de gravuras

A encenação de fúria de um deputado contra um cartaz dá a medida do racismo vigente na ação policial e da insanidade que ameaça a todos

Existem momentos em que é preciso fazer da soda cáustica uma limonada. Independentemente de discussões sobre a qualidade ou factualidade do cartaz destruído, o gesto do deputado federal que quebrou a placa exposta nos corredores da Câmara, gravado em vídeo para que as gerações futuras possam ver até onde chegou a ignomínia em 2019, merece agradecimentos. Não é o caso de divulgar ainda mais o nome do parlamentar, que poderia até declarar-se inimputável mostrando laudo de exame de sanidade mental sem nenhum constrangimento. Sua situação pessoal é assunto do conselho de ética da Câmara.

O gesto de quebrar a placa, porque, a seu ver, ela refletiria uma inverdade ao sustentar ação genocida da polícia contra os negros, mostra o tipo de argumento que o deputado está disposto a usar para sustentar seus pontos de vista. Sendo ele mesmo coronel da Polícia Militar, sua atitude revela ainda a qualidade do treinamento recebido por homens como ele para lidar com situações em que são contraditados. Destruir raivosamente uma gravura em público permite imaginar o que é capaz de fazer privadamente contra alguém que ele acredite ser um criminoso. O deputado mostrou ao país, graciosamente, que é urgente levar a testes psicológicos as autoridades que dirigem a polícia. Trata-se, afinal, da segurança de todos.

Mas vale também agradecer sua performance porque ela dá um sinal sobre como a polícia enxerga, institucionalmente, a questão racial – um adicional perversamente relacionado ao dia nacional da consciência negra. Se negros são a maioria da população brasileira, acredita-se que sejam maioria também nas forças policiais, exercendo o perigoso, malremunerado e principalmente maldirigido trabalho na área da segurança pública. Quando um colega da chamada bancada da bala vai à tribuna para defender o destroçador de gravuras e, na impossibilidade momentânea de usar outro instrumento, saca argumentos racistas, tem-se a noção exata da visão discriminatória que estrutura as forças de segurança.

Se é, com o máximo de sentido racista possível, “negrozinho” o “bandidinho”, conforme a qualificação utilizada pelo segundo parlamentar, o que são os policiais negros? O que é a maioria da população brasileira? O que são aqueles cuja cor desagrada a esses deputados? O que é a maior parte de seus eleitores? Alvos potenciais de sua fúria destrutiva em público e assassina em situação privada? A institucionalização do preconceito é um dos pilares do fascismo.

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