Lula vive a hora de já ir?

Lula vive a hora de já ir?

Presidente tem 107 dias para decidir. Derrubada do veto à dosimetria será mais um problema

“Está na hora de Jair já ir embora”, cantavam os militantes petistas antes do segundo turno das eleições de 2022. E, agora, com a popularidade em ruinas, pesquisas adversas em relação a uma nova candidatura para a Presidência, um cardápio de realizações distante do prometido e uma relação com o Congresso que resulta em derrotas fragorosas – incluindo quase inédita votação contrária na indicação de um ministro para o STF -, é hora de Lula pensar em já ir também?

Talvez o não a Jorge Messias, por uma diferença de 20% em relação à votação necessária para a vaga no Supremo, e também a derrubada do veto presidencial à redução de penas dos golpistas de janeiro de 2023 sejam a oportunidade que o presidente precisa para repensar como pretende encerrar sua carreira política. É verdade que os eleitores nem mesmo entendem o que essa derrota no Senado significa; que dirá considerarem esse fiasco na hora de votar? O que importa é que, para a oposição, esse feito equivale à possibilidade de tomar conta definitivamente da cena política, criando, a partir de agora, ainda mais dificuldades para os últimos meses da terceira gestão do petista e moendo no voto as iniciativas que Lula ainda poderia tentar para alterar um quadro eleitoral que indica enorme dificuldade para chegar ao quarto mandato.

São vários os problemas. O primeiro é que, apesar de não ter havido uma vitória bolsonarista, e sim uma demonstração de força de uma oposição mais ampla, será essa narrativa de triunfo que filho do ex-presidente e atual presidiário levará para a campanha. Na guerra contra o Supremo, que já reunia munição fornecida pelos próprios magistrados flagrados em atitudes incompatíveis com o decoro de suas funções, a extrema direita apresentará a derrota da indicação presidencial como vitória contra a conjunção governo-STF que Lula se esforçou tanto nos últimos meses para demonstrar inexistente. Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. No entanto, nas campanhas eleitorais, o que vale é mostrar uma coisa como outra e outra coisa como uma. Um eleitorado malformado, mal informado e maltratado aceita a enganação.

Em segundo lugar, aumenta o risco de que o Congresso não aprove medidas nas quais o governo aposta fortemente como itens de campanha. O fim da escala 6×1, a regulamentação do trabalho por aplicativos, a PEC da segurança pública (que depende ainda de duas votações no Senado) e outras propostas que o governo poderia apresentar como trunfos eleitorais têm grande chance de ser analisadas apenas no fim da legislatura, depois dos dois turnos da eleição, ou ter votações adiadas para o ano que vem.

Para arrematar, hoje, dia 30 de abril, o Congresso pode analisar o veto de Lula ao chamado projeto da dosimetria, que reduz penas de condenados da tentativa de golpe de janeiro de 2023 e beneficia diretamente Jair Bolsonaro. O governo já sabe que o veto cairá, a questão acabará indo para a pauta do STF e essa judicialização é exatamente o que quer a oposição para reforçar a tese da ação condominial entre Executivo e Judiciário – um prato cheio para a campanha presidencial.

Nada disso contribui para alguma melhora na perspectiva reeleitoral de Lula e já há quem aconselhe ao presidente a possibilidade de retirar a candidatura, para não encerrar sua trajetória política com uma derrota nas próximas eleições. Seis vezes candidato a presidente, com três êxitos e ainda duas eleições vitoriosas como patrono de Dilma Rousseff, Lula tem uma biografia a zelar. Mais do que a derrota, insistindo na candidatura, poderá ainda ser responsabilizado por adubar uma possível vitória da extrema direita, encarnada por Flávio Bolsonaro. Sem Lula no páreo, parte da polarização que o favoreceu no passado e o ameaça no presente pode ser diluída, mas novas dificuldades se apresentariam.

A questão principal é, se Lula desistir, a quem seria passada a vaga à esquerda de candidato – ou ainda a quem ele poderia apoiar. A frondosa personalidade mercurial do líder petista fez tanta sombra nas fileiras de seu partido ao longo de décadas que praticamente não há um candidato viável na sua legenda. Fernando Haddad, o único a reunir alguma viabilidade, tem uma imagem cristalizada de perdedor desde que foi derrotado na reeleição da prefeito de São Paulo e já está em campanha para o governo paulista com a sólida perspectiva de novo fracasso diante da recandidatura de Tarcísio de Freitas. Rui Costa e Camilo Santana, lembrados por alguns, não têm folego, dimensão política nem consistência e visibilidade ampliáveis no curto prazo.

Se olhasse para os lados, o que nunca fez, Lula poderia surpreender o processo eleitoral convencendo Geraldo Alckmin, que é filiado ao PSB, a se candidatar em seu lugar, em vez de acompanhá-lo novamente como postulante a vice. No entanto, essa hipótese tem enorme resistência nas fileiras petistas e enfrenta a inapetência do próprio ex-governador paulistano. Ele já era a melhor opção para enfrentar, por exemplo, Tarcísio de Freitas em São Paulo com apoio do PT, mas nem considerou essa possibilidade. Uma chapa Alckmin-Haddad seria viável eleitoralmente, mas não se conhecem pesquisas que a tenham testado.

As candidaturas à Presidência podem ser registradas até 15 de agosto. Lula tem 107 noites para refletir e 107 dias para esperar por uma mudança no quadro eleitoral. Por enquanto, as que pode prever não são positivas.

 

 

 

 

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