Haja coincidência! Bolsonaro precisa explicar o que disse sobre Marielle

Haja coincidência! Bolsonaro precisa explicar o que disse sobre Marielle

No vídeo de destemperos contra a Globo, o presidente afirmou que soube da existência da vereadora, “por coincidência”, no dia em que ela foi executada

Preste atenção a este trecho de vídeo e diga se não é intrigante, preocupante, a afirmação do presidente:

Se você tem alguma dúvida sobre possibilidade de edição fraudulenta, confira a íntegra na página de Bolsonaro no Facebook, neste link.

Foi tão longa e tão encenadamente destemperada a sessão de ataques em vídeo divulgada por Jair Bolsonaro no dia em que a Globo noticiou a existência de depoimentos do porteiro de seu condomínio que o envolviam no caso Marielle que não se deu a devida atenção a um trecho que merece muitas explicações.

No período de gravação entre as marcas de 10’40” e 11’05”, o presidente diz que nunca teve razão para matar ninguém no Rio de Janeiro e acrescenta que teve notícia da existência de Marielle, “por coincidência”, no dia em que ela foi morta, “no próprio 14 de março”.

Bolsonaro se queixou bastante, nessa gravação, do que considera uma perseguição contra ele e seus familiares, recordando uma coleção de reportagens com denúncias que precisam ser esclarecidas, fofocas irrelevantes e também casos em que editores bem poderiam, de fato, ter feito ponderações éticas antes de publicar. É óbvio que o presidente fez essa confusão de caso pensado, discursando para correligionários que pretende manter enredados em sua legião. Tão óbvio quanto as falsas indignação e surpresa anunciadas naquele vídeo, gravado de madrugada no Oriente Médio, pouco depois do encerramento da edição do Jornal Nacional que veiculou a notícia sobre o porteiro.

Afinal, de madrugada, “aproximadamente 3h50 da manhã” na Arábia Saudita, como registrou o ex-capitão no seu pronunciamento, lá estava ele, aparentemente na sala de uma suíte de hotel, barbeado, de terno, com alguém disponível para gravar, quase com qualidade de estúdio, a peroração contra a imprensa, embasado num roteiro lógico e visivelmente planejado com folga de tempo. (Justo o presidente que não se incomoda de dar entrevista praticamente de pijama em outras situações.)

Como ficaria bem claro num comunicado divulgado depois desse caso pela direção de jornalismo da TV Globo, tudo demonstra que uma armadilha foi montada para justificar ataques à emissora. O advogado de Bolsonaro, por exemplo, até já havia gravado com a reportagem da TV. Seria demitido, certamente, se não comunicasse ao cliente sobre isso. Além disso, há o fato de que a família Bolsonaro já havia naquele momento até se mobilizado para checar informações na portaria de seu condomínio.

Em toda essa história, apesar do esforço diversionista, restaram pontas a esclarecer. Uma é a compra de passagem aérea pelo gabinete do então deputado Bolsonaro de Brasília para o Rio de Janeiro no dia em que Marielle foi morta, cujos detalhes se podem conhecer neste link. A outra, que o próprio presidente fez questão de trazer a público é essa afirmação de que “tomou conhecimento” da existência de Marielle, “por coincidência”, no dia da morte da vereadora. Não vale responder que falou isso porque soube do assassinato. Isso não seria “coincidência” nenhuma.

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