Para comemorar bem discretamente… E continuar em casa

Examine o gráfico acima. Ele mostra o acumulado de mortos pela Covid-19 em relação ao total da população de sete países, num índice que considera óbitos por cem mil habitantes. Para equiparar os dados, o ponto de partida do gráfico é a antevéspera da data em que cada país ultrapassou o acumulado de 100 óbitos. Ou seja, qualquer linha vertical indica o mesmo período de tempo de epidemia decorrido para cada país.
Teoricamente, há uma excelente notícia por trás desses números: no Brasil, o acúmulo de mortes tem acontecido em velocidade consideravelmente menor do que em outros países.
Vale analisar com exemplos. No primeiro dia da comparação, o Brasil tinha 77 mortes (índice 0,03), os Estados Unidos, 63 (0,02), e a França, 91 (0,13). No 18º dia, os números no Brasil avançaram para 1.123 (0,58), nos EUA para 4.757 (1,44) e na França para 3.532 (5,27). Se a doença continuar avançando aqui nesse ritmo, pode-se acreditar que o país tende a, nas próximas semanas, manter uma relação de mortes por Covid-19 e população menor que a de todos os países utilizados na comparação. Apenas para registro da fonte, o gráfico no final desse texto mostra a evolução de mortes em cada país em números absolutos, sem nenhuma ponderação. A fonte nos dois casos é a Organização Mundial da Saúde.
A confirmação dessa conclusão favorável ao isolamento no Brasil depende, entre outros fatores, da precisão das notificações. No caso do Irã, por exemplo, houve bastante alarme quanto à evolução da doença no início da epidemia, mas o total de mortes por 100 mil habitantes está bem abaixo do registrado na Espanha, Itália ou Reino Unido, para ficar apenas em três casos bastante graves. Consideradas as condições sanitárias e a capacidade de acompanhamento das autoridades, não seria surpresa descobrir, daqui a algum tempo, que há falhas nesses números.
A vantagem de comparar mortes em relação à população é que se evita o enganoso número de casos de Covid-19 notificados em cada país, já que isso depende muito da quantidade de testes aplicados. Nos Estados Unidos, há quase 600 mil casos notificados porque há grande disponibilidade de testes. Como se sabe que a maior parte da população de cada país será infectada em algum momento, os testes tendem a apresentar mais resultados positivos na medida em que mais sejam aplicados.
No estado de São Paulo, onde há mais vítimas da Covid-19, as medidas oficiais de restrição de circulação para contenção da pandemia acabam de completar 20 dias de vigência e de muita controvérsia entre uma imensa maioria de técnicos e especialistas que defende a quarentena e uma barulhenta minoria, liderada pelo presidente da República, disposta a acabar com ela. Até carreatas contra o isolamento social foram registradas na capital.
Considerando exclusivamente os números, pode-se afirmar que a turma que decidiu transformar a quarentena em questão política perdeu tempo e gastou gasolina à toa. É fato que o governador João Dória, assim como seu colega Wilson Wietzel, do Rio de Janeiro, acha que está vivendo as prévias para a próxima campanha presidencial e dá entrevistas coletivas diárias em que procura brilhar mais do que os técnicos que o auxiliam. Mas também é fato que jamais conseguirá apagar a imagem de oportunista bolsonaresco da eleição passada. Entretanto, isso é tema para outra discussão.
Por enquanto, vale registrar o placar: isolamento 1 X Bolsonaro 0. Só que há muito jogo pela frente, como têm realçado todos os infectologistas mais responsáveis. E, infelizmente, não há como comparar casos de pessoas curadas da doença, já que os registros tanto no Brasil quanto em vários países não têm nenhuma confiabilidade.
Neste gráfico, a data adiante do nome de cada país indica o dia de referência para o quadro que abre este post. Ou seja, a antevéspera do dia em que se superou os cem óbitos.
