Como o presidente sairá da pandemia, da crise e do palácio

Existem várias alternativas para o futuro de Jair Bolsonaro. Todas estão contempladas na história das 22* vezes em que, anteriormente, os brasileiros entregaram mandato ao presidente da República em pleitos diretos. Em quinze ocasiões, os eleitos cumpriram o mandato até o final – dois deles também o da reeleição. Outros dois, Jânio e Collor, renunciaram ao cargo. Afonso Pena morreu no exercício da Presidência. Rodrigues Alves faleceu antes de assumir o segundo mandato. Getúlio cometeu suicídio. Dilma, também reeleita, perdeu o cargo na segunda gestão após processo de impeachment.
Entre a luta pela reeleição e os caminhos imprevisíveis que podem levar a qualquer outro desfecho, o presidente parece disposto a cavar uma sepultura política com os próprios pés. No episódio mais recente, foi fazer fusquinha diante da patuleia golpista e acabou enquadrado até pelos militares que seus admiradores enalteciam na manifestação. No dia seguinte, com aquela cara de quem tomou uma carraspana e precisa virar a casaca, tornou-se um paladino da democracia, do estado de direito e do equilíbrio entre poderes. Falso como uma nota de R$ 3,33, Bolsonaro temeu claramente, e não pela primeira vez, perder a sustentação dos generais que levou para povoar o Palácio do Planalto.
Assustado com a certeza de que o combate à pandemia da Covid-19 levará o Brasil à maior recessão de sua história, Bolsonaro decidiu pôr a culpa nos governadores, que estariam exagerando nas medidas de restrição de circulação. Da crise, ele sabe que não escapa. O fato, porém, é que a paralisação determinada pelos titulares dos governos estaduais acelera, sim, a pancada na economia, enquanto desacelera a disseminação da epidemia.
Mas a hipótese oposta, que Bolsonaro finge preferir, dá exatamente na mesma no longo prazo: acelera-se a contaminação e, como resultado, a pressão sobre a rede de saúde transforma as cidades em cenários de guerra e insegurança. Para piorar, como o mundo todo está em quarentena, o reflexo recessivo sobre a economia brasileira terápraticamente o mesmo tamanho, depois de algum tempo. O jogo do presidente, portanto, é apenas para a plateia, na busca de um culpado para o que é certo que vai acontecer. A epidemia não tem porta de saída sem ônus.
No entanto, confrontar o distanciamento social é a manobra que restou a Bolsonaro para salvar a hipótese de reeleição em 2022. Até já escolheu o adversário, na figura de João Dória, que ele acha que derrotaria chamando de traidor do bolsonarismo e destruidor da economia. O governador de São Paulo, por seu lado, lisonjeado com a atenção, topou a aposta, mas sabe que a pecha de traidor vai pegar. O sonho de Dória seria não ter Bolsonaro diante de si num segundo turno – o que é bem provável, dada a evolução da popularidade do presidente e o rumo de seu relacionamento com Judiciário e Legislativo.
Não é segredo para ninguém que a mesa do impeachment de Bolsonaro está posta e, com a faca nas mãos de Rodrigo Maia, seria muito fácil fatiar o ex-capitão num processo por crime de responsabilidade, tão larga é a folha corrida que vem escrevendo. O problema é que tocar adiante a decapitação política do presidente, nas circunstâncias pandêmicas atuais, levaria sua pequena base de apoio popular a uma radicalização que, sem impedir o impeachment, seria suficiente para complicar a vida eleitoral dos adversários do bolsonarismo. Maia prefere que o presidente sangre ainda mais em público. Muito mais. O nó político que arrumou o presidente não pode ser desfeito.
Restarão a Bolsonaro, se o plano para a reeleição não der certo e o impeachment não acontecer, poucas alternativas. Sobram apenas a possibilidade de renúncia ou de um evento que inviabilize sua permanência no cargo, o que não seria de estranhar, já que o presidente decidiu se mostrar como invulnerável diante do vírus Sars-CoV2. Disse que adoecer seria uma gripezinha para seu histórico de atleta, mas a superposição recente de cirurgias que enfrentou mina a condição física num limite que tornaria mais aconselhável usar máscara e álcool gel por cima de uma armadura. Brincar com a possibilidade de enfrentar uma UTI, como faz, é uma roleta russa.
E a renúncia? Seria possível? Aí é preciso comparar seu perfil com o de quem já deu antes esse tipo de presente ao eleitorado. Jânio e Collor tiveram carreiras semelhantes, ambos montados em discursos falsos e populistas, incapazes de compreender a economia no longo prazo e pusilânimes o suficiente para correr da raia para tentar salvar patrimônio e carreira. Os dois conseguiram voltar à vida política e nada indica que tenham perdido muito do que amealharam na trajetória anterior à renúncia.
Bolsonaro suplanta esses personagens na ampla ignorância política, no índice de preconceitos, na desonestidade cívica e no desconhecimento histórico, cultural, geográfico e social. Seu universo não ultrapassa o magro conjunto de conhecimentos do manual do soldado e, por isso, a renúncia não seria uma decisão sua. Se um superior mandar, um soldado faz a retirada. Entrincheirado com generais no palácio, o presidente deu sinais recentemente de ter recebido ordens para mudar o curso. E mudou.
Deve-se observar, entretanto, que sua visão sobre a hierarquia da farda é distorcida por devaneios de heroísmo egoístico, como se viu nos episódios que o levaram a sair da tropa e migrar para o mundo mais difuso da disputa política. Naquela ocasião, levou vantagem com a troca. Agora, não há chance de que consiga uma barganha vantajosa. O único a ganhar com ela seria o general Mourão, uma caixa preta e escorregadia.
Esse é o maior drama relativo à eleição de Bolsonaro, em 2018. A tragédia que é seu governo dói mais para os brasileiros do que para ele. Seja qual for o caminho que ele siga ou tenha de seguir – disputa da reeleição, impeachment, renúncia ou Covid-19 -, a conta, altíssima, será paga pelos que o elegeram e por todos os outros eleitores.
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* O número foi alterado para correção. Por erro aritmético, o autor tinha anotado 23.