Há sinais de que ele considera a hipótese de renúncia

É melhor já ir pensando nisso. Está provado que o governo é inviável. Sem cacife para um golpe e diante dos riscos posteriores a um processo de impeachment, Bolsonaro junta moedas para uma negociação
Tem muita gente apostando que Jair Bolsonaro vai tentar um golpe, e até quem pareça acreditar que isso seria bom para acirrar contradições e redimir o PT da responsabilidade pela construção de boa parte do cenário que levou o capitão ao Palácio do Planalto – uma quimera. (Vale lembrar que o partido esteve fora da composição que elegeu Tancredo, liderou a recusa de assinar a Constituição de 1988 e rechaçou o Plano Real, num sinal de que sua reação muitas vezes indica o caminho oposto ao da maioria democrática.)
Há, porém, outra maneira de ler os movimentos do presidente e, mesmo que nada se possa apostar quando se trata da possibilidade de piora no quadro político brasileiro, esses sinais merecem ser considerados.E eles indicam que Bolsonaro joga com a hipótese da renúncia, com ações, neste momento, que demonstram a tentativa de juntar cacife para negociar a saída com redução de danos. Esses indícios são:
1 – A retórica violenta contra o STF. Por mais que se apontem problemas formais na ação da corte na investigação de notícias falsas e mesmo no bloqueio da indicação do presidente para cargo que ele tinha o direito de escolher quem bem entendesse, o que o preocupa de fato são as descobertas a que as os respectivos inquéritos vão conduzir, com todo o recheio de crimes de responsabilidade e de envolvimento dos filhos e apoiadores mais próximos. Bolsonaro age na construção de uma desculpa para apontar injustiças e perseguição na hora em que vier a pedir o boné. Apertado pelas investigações, pode propor a própria saída em troca de alívios nos processos contra a prole e naqueles que poderiam restaram também para ele mesmo.
2 – O estímulo às manifestações. O presidente precisa de um mínimo de gente nas ruas para sustentar-se até o ponto em que tenha condições de negociar a saída. Sem apoiadores, a evidência da fraqueza política o faria refém de decisões do Congresso muito mais rapidamente. Observar que a principal linha de defesa popular de Bolsonaro está nas mãos de desqualificados como Sara Winter, maníacos uniformizados e meia dúzia de blogueiros – menos do que tinha Dilma quando tentou a mesma estratégia – serve para entender o quanto o governo está próximo do fim da linha.
3 – Pão de queijo, helicópteros e cavalgadas. Quanto mais precisa transformar em espetáculo suas aparições públicas diante de apoiadores, mais Bolsonaro deixa evidente a troca de atitudes executivas por ação circense. O repertório de propostas do presidente – preconceituosas, contra radares, a favor de armas, pelo desmatamento, pró-cassinos, hipocritamente conservadoras , anticultura e eletivas no combate à corrupção – tem alcance curto e não compõe uma plataforma ideológica consistente. Sua base demanda um compromisso antidemocrático a que ele, mesmo concordando, não tem como atender, porque apressaria sua inviabilização. Resta entreter a patuleia para que ela, em algum momento, dê a ele a legitimidade mínima de que precisa para negociar a saída.
O futuro não existe nem como assunto de reunião ministerial
4 – Perda da agenda. O foco nas críticas a governadores e pequenas injustiças, ainda que absurdas, na gestão das regras do isolamento social, combinado com a mercantilização de cargos com o Centrão e a choradeira contra Sergio Moro, que tomou o lugar do PT no alvo das críticas, indica que o plano de governo de Bolsonaro tornou-se coisa nenhuma. A regra é sobreviver a cada dia, nem acalentando mais a esperança de que Paulo Guedes opere algum milagre. Quando perguntado sobre seus planos, a única resposta do presidente tem sido reeleger-se em 2022, mas o mandato nem chegou à metade e ele não tem projeto algum para tantos meses de governo. A reunião ministerial de 22 de abril deixa claro que o futuro não existe para o presidente nem como assunto. Sua proposta mais enfática foi implorar apoio para não defender-se sozinho da mídia e da opinião pública.
5 – O medo da oposição nas ruas. Bastou uma pequena reunião de opositores na Avenida Paulista para assustar definitivamente o presidente. Para os apoiadores, sugeriu reservar o domingo aos adversários, temeroso de comparações diretas sobre o volume de cada ato. Apegou-se também à reclamação sobre a ação de baderneiros, uma situação que se vê mundialmente quando a manifestação é contra qualquer coisa. Protestos sempre estão sujeitos a esse tipo de situação. A ameaça de violência policial é um recurso desesperado. Historicamente, isso só eleva o potencial destruidor dos eventos e encurta o mandato de autoridades, ainda que a alto custo.
6 – A busca pelo Centrão. Collor, no seu governo encurtado, tentou montar um ministério “ético” e Dilma buscou uma composição até com banqueiros. Muito antes deles, Jânio nem teve tempo de tentar recompor o desastre de uma gestão assíncrona com as demandas da população. Se o pragmatismo dos políticos que Bolsonaro tenta agradar serviu para Michel Temer, manobrista experimentadíssimo, vale recordar que essa mesma cáfila abalou profundamente o governo Lula e deixou sua sucessora a pé na votação do impeachment. Na escada que desce rumo ao fim do mandato, essa turma está sempre perto dos últimos degraus.
Descontados os dinossauros, ninguém dá sustentação a Bolsonaro
7 – Apoio militar. Se encheu o governo de gente uniformizada, Bolsonaro o fez por duas razões. A primeira era acreditar que a disciplina de caserna é ferramenta segura contra seu medo desesperador de escândalos de corrupção, que poriam abaixo a única bandeira que empunhou na campanha e que o ajudou num segundo turno em que o oponente não tinha como explicar o passado de seu partido. A segunda era a tentativa de agradar as Forças Armadas, na expectativa de que elas o salvassem da própria incompetência, na medida em que seu mandato pudesse ir, como está indo, para o brejo. O fato, porém, é que, descontados os dinossauros autoritários que já estavam a seu lado na campanha, esse apoio não vem de parte nenhuma. Pelo contrário, nos quartéis, cada vez mais se percebe o desastre de bater continência a um capitão banido da farda por terrorismo e se consolida a hipótese de civilizar, em todos os sentidos, o general Hamilton Mourão, para que conduza uma transição que livraria o país de um vírus e os militares de um vexame.
Faz mais sentido, diante desse conjunto de sinais, acreditar que Bolsonaro renunciará, na medida em que seu governo desaba, do que supor que tentará um golpe. Um processo de impeachment, combinado com um desastre sanitário, estaria muito além do que merecem os brasileiros, mesmo aqueles que contribuíram para que o ex-capitão chegasse ao governo, seja com votos, seja por omissão, seja por ter ajudado criado a criar o cenário em que essa excrecência prosperou.