Abracadabra, na definição de Ambrose Bierce e do Ora Essa!

Tradução do Ora Essa! para o verbete do “Dicionário do Diabo” que Ambrose Bierce atribuiu a seu heterônimo Jamrach Holobom.
Abracadabra – s.f. –
Para Abracadabra se vem adotando
Quase toda e qualquer possibilidade.
É a resposta ao quê, ao como e ao quando,
Ao de onde, ao para onde… o significando.
É ela, com o conforto que traz, a verdade
Aberta a quem procura na noite em tormento,
Clamando pela divina luz do conhecimento.
Se a palavra é verbo ou substantivo,
Está além do meu alcance dizer.
Só sei que passa, com bom motivo,
De um sábio para outro,
De um tempo para outro.
Como parte da linguagem e do viver!
Há a história de um homem de outro tempo e cenário,
E que viveu muito, até ser dez vezes centenário,
Na encosta da montanha, numa cavidade
(Onde morreu, valha-nos a verdade).
Corria mundo a fama de sua sabedoria.
Era calvo – qualquer um já imaginaria –
E tinha uma longa barba, branca totalmente,
E olhos que brilhavam incomumente.
Filósofos de perto e de longe até ele acorriam
Para, sentados a seus pés, ouvir tudo o que podiam,
Embora jamais ninguém o tenha escutado
Recitar um único ditado
Que não fosse: “Abracadabra, abracadab,
Abracada, abracad,
Abraca, abrac, abra, ab!”
E mais nada.
Isso era tudo o que queriam ouvir; e cada um anotou
o copioso e místico discurso, que depois divulgou.
Foram publicados os textos,
Gotas de sabedoria,
Comentadas, como orvalho respingado sobre a pradaria.
Esses livros se tornaram importantíssimos
E, como as folhas de uma floresta, numerosíssimos,
reconhecidos pela maioria.
Morreu o sábio,
Como antecipei,
E, de cada discípulo, morreu também o alfarrábio.
Mas seus ensinamentos vivem como sagrada lei.
Em Abracadabra, soam solenemente
Como antiga sineta que toca eternamente.
Oh! Eu adoro ouvir
Essa palavra e sentir
Que contém a noção humana das coisas, plenamente.
(Jamrach Holobom)
A versão do Ora Essa! para o mesmo verbete:
Abracadabra – s. f. – Palavra mágica que os ilusionistas usavam para, solenemente, fazer desaparecer qualquer coisa. Caiu em desuso porque os iludidos de hoje se conformam com que qualquer coisa desapareça sem nenhuma cerimônia.
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