Serrana: efeito da vacinação em massa ainda não aparece nos números

Serrana: efeito da vacinação em massa ainda não aparece nos números

Cautela e mais tempo são necessários na análise do resultado da pesquisa de imunização do Butantan no município paulista. Mas há razões para otimismo, apesar de a pandemia já ter matado um em cada 500 brasileiros

Numa experiência singular, pesquisadores do Instituto Butantan realizaram na cidade paulista de Serrana um inquérito epidemiológico combinado com a vacinação 27 mil dos 44,5 mil habitantes, com duas doses da Coronavac, aplicadas a partir de 17 de fevereiro, num processo de imunização concluído dia 11 de abril.

Os cientistas começaram recentemente a comentar os primeiros resultados desse processo. Cautelosamente, atribuíram ao experimento uma ainda discreta redução na evolução de casos e óbitos por covid-19 registrados na cidade. Foi prometida para este mês a divulgação das primeiras conclusões do estudo. Como se verá adiante, essa cautela faz todo sentido.

Tentando antecipar algumas possíveis descobertas desse trabalho, Ora Essa! escarafunchou a base de dados sobre a covid atualizada diariamente pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (o conhecido Seade).  Analisando os números em bases comparativas, encontram-se indícios de que a vacinação já tem algum efeito, mas menos talvez do que se poderia esperar – pelo menos por enquanto.

Mas, antes que alguém considere a observação pessimista demais, cabe registrar que as conclusões dessa comparação estão longe de ser ruins. Provavelmente o caso requer apenas que se espere mais tempo para aferir o saldo da imunização em massa. E há, afinal, pelo menos uma boa novidade indiscutível a registrar em relação à letalidade da covid: ela é efetivamente bem menor do que parece.

Para chegar a esses resultados, foram comparados os totais diários de casos confirmados e óbitos por covid de cinco cidades – a própria Serrana, naturalmente, e os quatro municípios paulistas que são seus vizinhos na tabela de população do estado.

Serrana tem, para efeito dos registros do Seade, 44.434 habitantes. As duas cidades seguintes na tabela de população são Dracena, com 44.995 habitantes, e Pederneiras, onde vivem 45.570 pessoas. Os dois municípios imediatamente menores do que Serrana, nessa listagem, são Salto de Pirapora, cuja população, para o Seade, é de 44.223 indivíduos, e Paraguaçu Paulista, com 44.180 habitantes.

Cada cidade tem situação econômica, geográfica, política e até religiosa absolutamente distinta, com características diferentes de circulação de pessoas, ocupações profissionais, distribuição de renda e estratificação social – e cada uma dessas variáveis tem certamente impacto diferenciador no avanço da epidemia.

Isso não permite, então, radicalizar na interpretação dos indícios colhidos nas tabelas do Seade. Mas também não é o caso de se desprezar de antemão algumas evidências proporcionadas pela comparação. A principal delas é que não se pode atribuir à vacinação, pelo menos por enquanto, redução significativa na quantidade diária de óbitos observada recentemente em Serrana.

A cidade teve, sim, diminuição na quantidade de mortes por covid nos últimos dias, mas o fenômeno se deu também em outros municípios do mesmo porte, com intensidade semelhante e até mais pronunciadamente em Pederneiras.

Foram registrados em Serrana 16 óbitos por Covid entre 1º de abril e o dia 16 de maio. Houve registro números maiores em outras cidades (24 em Paraguaçu, 39 em Dracena e 51 em Salto de Pirapora). Mas em Pederneiras, sem vacinação, morreram de SARS-Cov-2 no mesmo período apenas 7 pessoas.

É importante registrar que a história da pandemia já vinha sendo escrita de modo diferente em cada cidade. Como cada uma tinha números distintos, a saída, para dar um mínimo de padronização à análise, é ter um comparativo de evolução da pandemia a partir dos dados específicos.

Tomando como referência o dia da primeira dose do experimento de vacinação em massa conduzido pelo Butantan – 17 de fevereiro –, o total de casos acumulados em cada município evoluiu da seguinte maneira, até o dia 16 de maio: Serrana, 63,7%; Salto, 68,6%; Pederneiras 81,5%; Dracena, 85,7%; e Paraguaçu, 90,2%.

Essas porcentagens parecem indicar um sucesso na imunização, pelo menos na redução da quantidade de diagnósticos, mas a análise da taxa de letalidade muda a dimensão do problema – e cria dúvidas que só o tempo poderá dirimir. O Seade calcula essa taxa dividindo o total de mortes acumulado até determinada data pela soma de diagnósticos positivos observada no mesmo período.

Por esse critério e no mesmo intervalo de tempo contado a partir da aplicação da primeira dose da Coronavac no estudo do Butantan, a letalidade em Serrana manteve-se estabilizada em 0,021. Em Dracena, subiu dos mesmo 0,021 para 0,046. Em Paraguaçu, foi de 0,019, para 0,024. Em Salto, cresceu de 0,036 para 0,048. E, em Perderneiras – recorde-se, sem vacinação –, reduziu-se de 0,022 para 0,024.

Nas próximas semanas, o instituto divulgará o resultado de seu trabalho comparando dados exclusivamente dentro do grupo de controle, em princípio sem relacionar os dados com os números gerais de Serrana. É possível que, visto a partir desse corte, o experimento demonstre um sucesso que é invisível ao olhar a partir do acompanhamento feito pelo Seade.

O estudo pode demonstrar, por exemplo, que a epidemia se agravou e foi muito mais violenta na parte não vacinada da população, enquanto o grupo vacinado teve um nível de preservação bastante alto. Não seria impossível uma situação como essa num cenário de pandemia que mostra, em muitos casos, cidades com perfil populacional muito próximo e quadros de disseminação da doença completamente diferentes.

Deve-se notar, por sinal, que, no inquérito epidemiológico realizado em Serrana, quando foi recenseada e testada para covid toda a população envolvida no estudo,  já se descobriram novidades sobre a presença do coronavírus nem imaginadas anteriormente. Uma dessas descobertas tem contorno muito positivo. É preciso seguir um raciocínio um tanto longo para chegar a essa conclusão. Mas a descoberta, ao final, compensa a aspereza do caminho.

Ao divulgar o primeiro resultado do inquérito epidemiológico, o Butantan informou ter descoberto que 8,75% da população envolvida no projeto já teria tido contato com o coronavírus, segundo demonstrava a testagem em massa que realizou. Ora Essa! verificou que esse número estava bem longe do total de diagnósticos positivos até então registrado pelo Seade para toda a cidade. Essa porcentagem de casos só foi atingida, nas notificações oficiais, em abril desde ano.

O número oficial era, então, muito menor e isso dava uma indicação de grande subnotificação. A explicação para isso está no fato de que uma grande parte da população é assintomática ou tem apenas sintomas muito leves quando infectada, o que não leva as pessoas a realizar nenhum teste, conforme explica o pesquisador Marcos Borges, do Butantan.

Na realidade, conforme o processo foi aprimorado, descobriu-se que um quarto dos habitantes de Serrana pode ter tido contato com o SARS-Cov-2, mas a imensa maioria nem sabia disso. E dessa informação resulta a confirmação de que a letalidade da covid-19 é, na verdade, muito menor do que a que aparece nas estatísticas oficiais.

Numa conta feita com estatísticas atualizada até o último domingo, dia 16, o índice de letalidade da doença estaria abaixo de 0,007. Ou seja, em torno de um terço dos 0,021 calculados com base nos casos diagnosticados, conforme faz o Seade.

É tentador expandir esse cálculo para todo o Brasil, tanto para ter uma perspectiva otimista quanto à mortalidade como para determinar um ponto de aceleração da epidemia que não aparece nas estatísticas oficiais. Se um quarto dos brasileiros já tivesse tido contato com o coronavírus, estaríamos muito mais próximos da imunidade coletiva do que parecemos estar nas condições atuais.

Mas a extrapolação não é correta nem possível, dada a imensa quantidade de variáveis envolvidas. É necessário contentar-se, por enquanto, apenas com a certeza de que a letalidade da pandemia é bem menor do que parece.

Dois novos estudos vão colaborar para aprimorar brevemente esse trabalho realizado pelo Butantan. O Ministério da Saúde começou esta semana um grande projeto de mapeamento da covid-19, com entrevistas que deverão alcançar mais de 200 mil brasileiros.

Em outra iniciativa, iniciada domingo, serão vacinados com o imunizante da AstraZeneca  cerca de 60% da população adulta do município de Botucatu, em São Paulo – mais de 100 mil pessoas. Nos mesmos moldes do projeto do Butantan, a pesquisa acompanhará a evolução da pandemia na cidade e o efeito da vacinação em massa.

São boas notícias. Pena que não compensem nem de longe os fatos que se confirmam na CPI da covid, quanto à incompetência e desídia do governo federal diante da gravidade da pandemia. Pena também que estejam sendo iniciadas depois que o Brasil ultrapassou o número de 200 mortes por 100 mil habitantes.

Traduzido numa expressão mais compreensível, essa proporção demonstra que morreu até agora de covid um em cada 500 brasileiros. E os números continuam subindo, enquanto os dois laboratórios que produzem vacinas em território nacional estão parados por falta de matéria-prima.

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