Paulo Guedes enterra o Brasil na crise mas pode ser um herói da democracia

Paulo Guedes enterra o Brasil na crise mas pode ser um herói da democracia

O Posto Ipiranga era notícia falsa. A maioria de analfabetos políticos estaria feliz se a economia fosse bem. Mas o fiasco enfraquece Bolsonaro. Um dia o ministro poderá ser condecorado também por suas trapalhadas

O presidente Jair Bolsonaro está patrocinando um perigoso teste de popularidade para saber se suas pretensões golpísticas terão chance de atrair a chancela das forças armadas, como deseja, ou se terá ainda alguma viabilidade eleitoral depois da hecatombe produzida por Paulo Guedes na gestão econômica.

Guedes, afinal, só fez progredir a economia do pessoal fardado, que nesta quarta (25 de agosto), deu-lhe, pela mão do Exército, a medalha do Pacificador.

É uma ironia e tanto que ele seja condecorado agora por uma gestão despropositada a ponto de ser, logo, a razão pela qual o país conseguirá livrar-se da maldição bolsonariana.

Bolsonaro quer saber, medindo em ruas e praças, o tamanho real do apoio que acredita ter a partir do que vê nas redes sociais. Apenas para isso está dando corda à infame manifestação na qual os organizadores anunciam ter a pretensão de tomar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Nem Jânio Quadros tentou algo parecido, embora também ele acreditasse que as massas acorreriam para empossá-lo, após a renúncia e a denúncia das forças ocultas.

Embora os bolsonaristas radicais pensem que sim, seu líder não imagina consolidar sua aventura autoritária dia 7 de setembro. Ele sabe que militares de pijama, iludidos de coração nazista e PMs de alma miliciana não são suficientes para, mesmo com apoio de organizações criminosas, aguentar a reação pela democracia que já se avoluma antes até desse arremedo de sedição.

Sua estratégia é de mostrar aos militares, indispensáveis a seus planos, que tem o apoio real de uma quantidade substancial de brasileiros para, aí, sim, em 15 de novembro ou noutra data de sua preferência, convocar uma nova e, acredita, avassaladora manifestação pró-ditadura, desta vez com o suporte militar que gostaria de tornar inequívoco. Daí se consolidaria o golpe.

O Brasil terá mesmo uma convulsão no dia 7, talvez a mais grave e vergonhosa situação política já vivida pela nação. Mas nem o tamanho dos atos nem os eventos deles decorrentes, que certamente nos farão passar vexame indescritível diante de países democráticos, serão suficientes para desenrolar o roteiro que o presidente pretende escrever.

É que falta a esse enredo a essencial promessa crível de retomada econômica, hipótese tornada absolutamente impossível e até hilária se ancorada no que fez até agora e no que poderia fazer Paulo Guedes. A decepção do próprio Bolsonaro com a administração econômica realizada pelo seu ex-Posto Ipiranga só não é menor do que a de todos os outros brasileiros.

O detalhamento desse fiasco segue logo abaixo, mas vale, antes, anotar que, sem um mínimo de perspectiva para a economia, nenhuma entidade empresarial, nenhum sindicato, nenhuma associação profissional, nenhum clube de biriba se alinhará aos milicianos, perdedores, espertinhos, aproveitadores e charlatães leigos e religiosos que perfilam diante de Bolsonaro apesar de saberem que estão vivendo no falso universo criado pelas chamadas fake news.

Fake new é notícia falsa. Notícia falsa é mentira.

Mentiras são a verdade dos mentirosos.

Depois deste artigo, leia “O segredo do bonzo” 

Caminhoneiros que precisam trabalhar já viram como fez água a promessa de redução do preço do combustível com aquela mexida na Petrobras que só serviu para enriquecer especuladores.

Produtores rurais sabem que todo o seu bom faturamento dos últimos anos decorreu da conjuntura internacional e que, agora, precisariam mesmo do governo ações efetivas para reduzir os prejuízos da seca e para gerir uma bolsa de compensação destinada a evitar a realimentação inflacionária. O que se ganha hoje, produzindo milho, por exemplo, além de encarecer o frango, pode não ser suficiente para compensar a alta nos custos dos insumos para as safras seguintes.

Famílias de baixa renda percebem que, perdendo emprego, direitos trabalhistas, oportunidades no mercado informal e até dinheiro de caridade, não serão compensadas nem pelo Auxílio Brasil em nenhuma hipótese. Não cabe todo mundo embaixo de um cobertor que encolhe quando a multidão aumenta.

Políticos dotados de alguma matreirice já baixaram os estandartes há tempos. Ciro Nogueira quer ser bombeiro enquanto for possível ao Centrão continuar na vampiragem. Governadores eleitos na onda de Bolsonaro traem seu ex-aliado sem qualquer constrangimento – mesmo sob o risco de, como João Dória, ter de explicar que competência têm afinal para avaliar o quadro nacional e por que fizeram questão de lacrar ouvidos a avisos até de seus partidos sobre os riscos que o candidato Bolsonaro representava. Quem apoiou um facínora uma vez pode voltar a fazê-lo. Ou, pior, ser o próximo facínora.

Enfim, Bolsonaro está acompanhado apenas da horda ignara comparável à que foi seduzida por Donald Trump, com a diferença de que, aqui, o fundamentalismo golpista carece de sucessos econômicos a ser postos na vitrine da insurreição – coisa que o presidente republicano dos EUA tinha, sim, com alguma folga.

E isso remete novamente à incompetência de Paulo Guedes. Talvez seja a ele que um dia o Brasil deverá agradecer quando for rememorar o despropósito da vocação golpista de Bolsonaro. Ninguém fez tanto quanto ele para desacreditar o chefe.

Filho de funcionária pública, como gosta de realçar, o ministro já chamou de parasita a categoria à qual sua mãe pertenceu e ameaça acabar com a miséria extinguindo os miseráveis.

Estudou de graça na Universidade Federal de Minas Gerais e retribui dizendo que as instituições públicas de ensino têm maconha e sexo para crianças.

Revelou-se alérgico a filhos de porteiros que conquistam financiamento para bancar faculdades privadas.

Indignou-se com empregadas domésticas que visitam a Disney.

Sistematicamente aponta os fundos e entidades de cunho social, como FGTS ou SUS, como únicas fontes das quais se podem tirar recursos para financiar ações de solidariedade, melhoria de renda ou investimento para beneficiar os pobres.

No plano das ações, agiu com toda a coerência em relação ao que pensa.

Cortou fundo as verbas das universidades e do Ministério da Educação, contribuindo solidamente para deixar pior o que dizia ser tão ruim.

Podou o financiamento estudantil e depois anunciou liberação para refinanciar dívidas dos matriculados – alertado sobre a quantidade de instituições religiosas e bolsonaristas penduradas nesse negócio -, mas não fez nenhum movimento para remodelar o programa.

Disse que, se fizesse besteira, o dólar chegaria a R$ 5. Obra realizada, o dólar já passou disso há muito e nem as patroas vão mais para a Disney, mas ainda assim andou prevendo recentemente a moeda americana a R$ 3 em três anos. Não será com ele no ministério, certamente.

Ajoelhou-se – ou melhor, manteve-se ajoelhado – quando Bolsonaro interveio na Petrobras, acha que enganou o presidente porque os preços dos combustíveis continuaram dolarizados e acaba de sugerir a extinção do emprego de frentista para reduzir o valor cobrado na bomba.

Frentistas, assim como cobradores de ônibus, de fato deveriam estar fazendo trabalho mais relevante, mas caberia ao ministro, antes, dizer onde poderiam se empregar.

Ocupação de mão-de-obra, aliás, é uma conversa indigesta para Paulo Guedes. Ele alterou as regras do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados para contar empregos temporários e anunciar recordes de contratações e guerreia com o IBGE, vinculado a seu próprio ministério, contra a avassaladora média de desocupados no Brasil. Agora, vacinas e reaquecimento trazem para as filas de vagas milhões de ex-desalentados, que, para desespero do ministro, ressurgem nas estatísticas como desempregados.

A salada eleitoreira que inventou para chamar de Auxílio Brasil propõe desmoronar programas que estão funcionando para criar dar asas a um projeto que não tem nem mesmo valor definido para o principal benefício. Se vier a ser chamado de fraude Brasil talvez ainda esteja sendo elogiado.

Prestes a bater neste agosto o recorde de inflação do mês nos últimos 19 anos (em maio bateu uma marca de 25 anos), anunciou que o Brasil está “dentro do jogo” – comparando o país a economias em que a inflação da pandemia é o único problema e a caixa de ferramentas para contê-la ainda está fechada. Se está num jogo global, o país começa com o placar de 1 X 7.

As gargalhadas nos gabinetes do Fundo Monetário Internacional, em Washington, quando os auditores souberam que ele projetou 3% de inflação no próximo ano para o Brasil, foram ouvidas na Casa Branca, a mais de um quilômetro de distância.

Para acrescentar (jamais para arrematar) fez contas de padaria sobre os precatórios federais, bagunçou o orçamento e já acha que vai estourar a meta de gastos de 2022. Trabalha para tornar impossível encontrar um substituto no ano seguinte. Quer ser ministro no próximo governo por falta de concorrência.

Vale recordar também que ganhou a medalha do Pacificador por ter aceitado, na reestruturação das carreiras militares, a inclusão de privilégios abjetos para o pessoal fardado, no soldo e nas pensões. Foi premiado por dar lustro nos coturnos que o chefe quer convocar para o golpe. Chamava-se quem tinha esse comportamento, em outros tempos, de lambe-botas.

Mas terá merecido a condecoração se confirmar-se a previsão segundo a qual sua gestão garantiu até agora e garantirá nas próximas semanas a falta de apoio de gente sensata aos planos ditatoriais de Bolsonaro.

Se não é Guedes a fazer verdadeira economia, faz então o Ora Essa! alguma economia de espaço encerrando a conversa com links para alguns artigos que dão medidas abalizadas dos despautérios perpetrados pelo ministro. O tema é inesgotável.

José Paulo Kupfer (25/08/2021)

Editorial do Estadão (25/11/2020)

e-investidor (24/08/2021)

IG (24/08/2021)

 

 

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Paulo
Paulo
4 anos atrás

Um detalhe que acho que passou batido: os militares estão bem satisfeitos com o tratamento recebido de Bolsonaro e provavelmente não precisam mais ser seduzidos para uma aventura golpista. Já foram.

Walter Bergues
Walter Bergues
4 anos atrás

Perfeito. Ainda em Março 2020 disse que “com 5 bilhões a gente aniquila o coronavirus”..
Nesse mesmo mês disse que o PBI do Brasil teria um crescimento de mínimo de 2% (depois de fazer uma correção de 0,02 na estimativa!)… caiu 4,1%..
Acredito que ainda tem sustento porque o mercado acha que com ele tem alguma chance de fazer reformas da sua conveniência ($$$)..
Mas, num dia próximo, quando a massa de trabalhadores já não consigam crédito por falta de carteira assinada (por causa da precarização do emprego), irão pedir que os bancos estatais ofereçam crédito sem garantias para reativar o consumo… Acorda Brasil!

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