A radicalização, sintoma da despolitização, explica o avanço do retrocesso

A radicalização, sintoma da despolitização, explica o avanço do retrocesso

Este é apenas um esboço em torno da ideia de que, no Brasil, o interregno de participação política determinado pela ditadura estabeleceu o cenário atual, em que a política se faz com intolerância, mentiras e até ingenuidade

Faltam agora umas 15 horas para o início das manifestações pró e contra Bolsonaro marcadas para o 7 de setembro. Nos jornais, sites e blogs, além das redes sociais, sobram análises prevendo o início de tempos catastróficos no Brasil a partir do que se poderá assistir amanhã, principalmente nos atos anti-STF, não equivocamente chamados de antidemocracia, convocados pelo presidente e por seus apoiadores.

Há, no entanto, um equívoco comum nessas avaliações. Tomam como provável causa de uma época desastrosa eventos e fatos que provavelmente são, na realidade, apenas consequências de um passado ruinoso – e não se fala aqui do passado recente, no qual confrontaram-se nas urnas os grupos que hoje se chamam de direita e esquerda.

Na prática, sinteticamente, vivemos como se a realização do filme de nossa história política tivesse sido interrompida em determinado momento. Agora, parece que se os atores, envelhecidos e em vários casos substituídos, se dizem obrigados recomeçar do início, por mais anacrônico que o enredo ameace ficar. Para complicar, diante de uma realidade incompreendida, mergulham todos num jogo de mentiras, intolerância e até ingenuidade.

Há uma enorme possibilidade de que a raiz verdadeira do que vivemos hoje no Brasil tenha nascido da semente plantada no país na década de 1960, mais definidamente a partir do regime militar e ainda mais precisamente depois que a ditadura afastou do cenário não só os políticos que dela ousaram discordar, mas principalmente os mais jovens.

Traumaticamente, o governo militar manteve pelo menos duas gerações de brasileiros distantes da participação política, pela combinação de um regime de exceção que definia interesse comunitário como subversão com um sistema educacional tecnicista e obscurantista, agravada pela emergência econômica de uma parte da população que acreditou ser, de fato, produto de um milagre desenvolvimentista.

Ou seja, simplificando o raciocínio, estamos, neste 6 de setembro num ponto qualquer de retomada da história da militância política que foi interrompida há seis décadas, na antessala de um confronto ideológico entre brigadas que se apresentam como conservadoras ou progressistas e se definem a partir dos mesmos conceitos ingênuos – na falta de palavra melhor – vigentes há mais de meio século.

Há várias maneiras de defender essa conclusão, mas uma que parece bem apropriada para o momento relaciona-se com a constatação de que, pela primeira vez, desde 1964 – ou 1968 para quem preferir – todos os atores em cena na política brasileira foram formados já sob o regime militar.

Mesmo os que eram jovens politicamente engajados quando sobreveio o golpe, dos quais resta uma quantidade considerável em atividade, não estavam naquele momento ainda civicamente maduros o suficiente para desenvolver uma capacidade de leitura da realidade não impactada diretamente pela própria condição de cúmplices, vítimas ou inimigos dos que tomaram o poder.

Não por acaso, muitos desses, a despeito da idade, mantêm comportamento de flagrante imaturidade ainda hoje, condicionados por ideias de hegemonia e manipulação política que, nos países em que a democracia avançou sem percalços, foram substituídas por conceitos de convivência de pensamentos díspares, acordos, negociações e desenvolvimento ideológico balizado pelo possível num conjunto social e não pela predefinicação de cartilhas reguladoras de conceitos, valores e concepções.

É óbvio que a carapuça serve a ambos os extremos do espectro político, mas vale especificar o modo pelo qual isso se verifica.

Entre os que se reconhecem como militantes de direita, por exemplo, a intolerância para com os adversários não se restringe ao modelo de organização de governo ou quanto à definição de prioridades econômicas e educacionais – para manter a análise sobre poucos pontos – mas avança também contra aspectos comportamentais da sociedade moderna, numa batalha no mínimo infame, e de qualquer modo perdida, pelo retrocesso cultural. Isso vale para o comportamento sexual, as convicções religiosas e até os avanços científicos.

Enredados num contexto nitidamente complexo do ponto de vista psicanalítico, aceitam pregar contra a democracia e pelo extermínio dos adversários, cruzando limites que a direita já rompeu em outros momentos da história e que resultam em crimes, não mais em atuação política.

No outro lado do muro que hoje bloqueia qualquer possibilidade de comunicação entre as duas partes, os que confrontam a direita na condição de militantes de esquerda preferem abrir mão da análise concreta e irrefutável da falência de alguns paradigmas originais de sua formação assim como levantam bandeiras de comportamento ético que usam como régua para os adversários mas não aceitam aplicar em suas próprias fileiras.

Circunstancialmente, clamam agora pela preservação da democracia – o que lhes dá razão neste aspecto particular do confronto. Mas as experiências conhecidas de aplicação de seus princípios não primam exatamente pela prática do que agora defendem. Livres de uma ameaça tão grave quanto a eclosão de ovos de bolsonossauros, só há como conter ímpetos contra a liberdade de expressão, a organização política irrestrita e a liberdade empreendedora com freios legais muito rígidos.

Na prática, afloram como correntes principais e polarizadas no processo político duas facções que, no íntimo, flertam com golpes que reduzam o espaço da democracia para estabelecer privilegiadamente modelos ideológicos que poderiam estar sepultados há mais de meio século e só não foram porque a ditadura impediu a fricção necessária entre pensamentos diversos.

A radicalização é sintoma da despolitização. Neste 7 de setembro se verá mais um capítulo de um filme escrito há muito tempo. Num país que avança retrocedendo, ficamos cada vez mais longe de um final.

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cacalo kfouri
cacalo kfouri
4 anos atrás

perfeito, como sempre!

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