Comportamento da oposição ameaça transformar eleição de 2022 em reprise de 2018

A campanha pelo impeachment está longe de ser para valer e o melhor caminho para não resolver nenhum dos problemas nacionais é o da escolha por exclusão, seja de Bolsonaro, como prega Lula, seja de Bolsonaro e Lula, como pregam os que procuram a terceira via
A pretendida união de forças contra Bolsonaro, defendida principalmente pelos grupos de centro e de direita que ajudaram a elegê-lo, embute uma armadilha que pode acabar levando o país a agarrar-se, de novo, a uma quimera tão robusta quanto a que ele representa – um monstro com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente, mas cérebro de galinha, caráter de rato, agilidade de tartaruga e competência de ostra, além do apetite de um abutre.
É praticamente indiscutível a necessidade de uma coalisão pelo impeachment do presidente, diante do descalabro econômico, social, cultura e de saúde a que ele levou o Brasil. Mas o que se vê é mais uma clara tentativa de manipulação e de se construir uma plataforma de sustentação para a campanha de 2022 no que deveria ser um palanque pela destituição constitucional de Bolsonaro.
Nesse aspecto, tanto os que pegaram carona nos atos do MBL do Vem Pra Rua realizados no domingo, dia 13, quanto os protestaram já no dia 7 e também os que recusaram manifestar-se agora agiram com a mesma perspectiva – a de viabilizar ou consolidar candidaturas para a próxima eleição, e não a de dar um basta definitivo às insanidades que emanam do Palácio do Planalto.
Bolsonaro, acometido de insuficiência crônica de habilidade administrativa, é visto por todos os segmentos de oposição como um grande cabo eleitoral que, mantido no posto e sob pressão, dará viabilidade a apenas um entre dois tipos de adversário: o da polarização ou o da conciliação de centro-direita.
Escorraçar de vez o pretenso autocrata em exercício, como de fato precisaria a população, é um movimento que nenhum dos lados quer fazer de verdade: nem Lula, o polarizador, que nessa hipótese teria de voltar a explicar os negócios estranhos dos quais não foi absolvido, mas sim desprocessado; nem os que imaginam construir a terceira via, na realidade ansiosos para encontrar um Bolsonaro menos apaixonado por homens fardados e disposto a entregar a economia a um Paulo Guedes de mais personalidade.
Nesse caminho, a eleição de 2022 terá os mesmos problemas da de 2018, quando uma sólida maioria não votou em Bolsonaro e sim contra Lula e contra o PT.
Para o próximo pleito, o PT procura se viabilizar como alternativa para os que aceitam qualquer coisa, menos a continuidade de Bolsonaro, e a parcela que se autoproclama de centro-direita tenta desesperadamente encontrar um nome, qualquer nome, que represente para o eleitorado o nem nem – nem Lula, nem Bolsonaro.
Passados três anos, nada parece ter mudado de fato no cenário político, com exceção do trauma representado pela gestão em curso. Em setembro de 2018, Ora Essa! publicou um artigo chamado O voto contra, que descrevia uma situação praticamente igual à atual.
Vale recordar que Bolsonaro foi eleito por duas razões.
Primeiro, tomou ou simulou uma facada e, com isso, evitou sem outros constrangimentos os debates que aclarariam, mesmo para os mais limitados e desinformados dos brasileiros, a dimensão de sua ignorância, a amplitude de sua estultice e a vastidão de sua estupidez.
Depois, com um discurso simples, raivoso e redutor de tonalidades, ofereceu-se como um paladino contra a corrupção e o conchavo que deveras anuviam a história dos momentos de esporádica democracia no Brasil.
No pasto eleitoral que ofereceu juntaram-se todos os que não queriam outros candidatos, tornando-se o preferido pela exclusão, entre seus eleitores, do PT de Haddad e Lula.
O melhor caminho para não resolver nenhum dos problemas nacionais é exatamente esse, da escolha por exclusão. E é por onde segue, novamente, o circo pré-eleitoral.
falou e disse!