Quem são e onde querem chegar os senadores que compõem a CPI da Covid

Não. Eles não pretendem derrubar Jair Bolsonaro e muito menos resolver os problemas decorrentes da má gestão da pandemia. Na comissão, cada um tem uma agenda própria, que pode passar bem longe dos interesses do eleitorado
Quem vê a virulência do senador Otto Alencar, acompanha as reflexões incisivas de Randolfe Rodrigues ou se encanta com o raciocínio ferino de Humberto Costa imagina logo que Jair Bolsonaro está perdido e que seu governo acaba no dia em que o afiado relator Renan Calheiros, estimulado pelo tinhoso presidente Omar Azis, apresentar o relatório final da CPI da Covid.
A conclusão decorre, naturalmente, da goleada que os senadores oposicionistas parecem ter aplicado na bancada governista a cada rodada de depoimentos, numa sequência que deixou clara a incompetência programada do ex-ministro Eduardo Pazuello, sucessor do falastrão Luiz Henrique Mandetta e do insosso Nelson Teich e antecessor do inzoneiro Marcelo Queiroga.
Não resta dúvida, às vésperas do encerramento dos trabalhos, que a comissão provou a ação pró-covid do presidente, revelou corrupção profunda no Ministério da Saúde, demonstrou a morosidade homicida do governo na negociação de vacinas e, de quebra, juntou acusações contra uma operadora de plano de saúde que teria promovido o envenenamento de pacientes com medicamentos ineficazes, constrangido médicos a prescrever drogas inúteis contra o coronavírus, fraudado atestados de óbito, conduzido pesquisas ilegais e aplicado métodos eutanásicos para economizar recursos ao longo da pandemia.
Uma parte dessa lista de feitos é composta de fatos, a que diz respeito ao governo, ou de denúncias que a polícia deverá ainda investigar, a que diz respeito a entes privados. E todos esses detalhes estarão no relatório de Renan, que indiciará o presidente e muitos de seus auxiliares, pedirá investigações ao Ministério Público sobre empresas e empresários e recomendará à Procuradoria Geral da República o escrutínio sobre ações de funcionários federais, além de remeter ao Tribunal de Contas as conclusões acerca de atentados ao Erário.
Mas não foi essa investigação, em momento algum, o alvo central de nenhum integrante da CPI. O principal objetivo de cada senador, ao longo das sessões, foi atuar para as câmeras que gravaram todas as inquirições, colecionando imagens para as campanhas eleitorais do próximo ano e, também, com sorte, garantindo reprodução nos jornais televisivos. Cabe lembrar que a prestação de contas aos eleitores é uma necessidade da democracia e a busca da reeleição é um direito sagrado do regime, mas, numa condição de polarização, como a do Brasil atual, o fato é que essas prioridades obscurecem o principal objetivo da comissão, que seria esclarecer fatos e estabelecer responsabilidades.
Aquele tom abusivo no questionamento de alguns depoentes, o deboche diante de certas testemunhas, o desrespeito ao direito de expressão dos que tentaram explicar-se na inquisição e os ataques aos que se recusaram a dar respostas, todas essas atitudes foram previamente planejadas e encenadas na CPI para dar aos protagonistas a máxima possibilidade de exibição diante de seus eleitores.
Do mesmo modo, no lado governista, os parlamentares buscaram não exatamente defender o presidente, mas mostrar-se como boas alternativas aos imbecis que preferem uma segunda dose de Bolsonaro a uma primeira dose da vacina contra a covid.
Na defesa de fato do ex-capitão, só atuou mesmo seu filho, Flávio, suplente na comissão. Mesmo ele, por sinal, perdeu várias sessões em que o pais foi esculachado de alto a baixo – não se sabe se por ter de fato um compromisso mais importante ou pelo receio de acabar também flagrado como articulador do projeto pró-coronavírus gestado no Planalto.
Vale repassar, um por um, quem são os senadores integrantes da comissão e entender o que foram fazer lá.
Omar Aziz, presidente da CPI. Fundador do PSD e raro integrante da comissão que tem encontro obrigatório com as urnas no próximo pleito, já que completa no próximo ano seu primeiro mandato de senador. Aziz foi um político que subiu como um f0guete na política amazonense a partir dos anos 1990 e ameaça desabar como um meteoro, a julgar pela sua tentativa de eleger-se governador em 2018, quando obteve a quarta colocação após passar quatro anos no Senado conspirando pelo vice e depois presidente Michel Temer e defendendo colegas com o mandato em risco, como Aécio Neves.
A CPI é um palco contraditório para seu sonho de renascer como candidato imbatível ao governo amazonense. De um lado, foi premiado pela dupla Bolsonaro-Pazuello com uma gestão criminosa diante do recrudescimento da pandemia no estado, o que lhe deu a oportunidade de sacar acusações e lamentar pelos conterrâneos na presidência da comissão. De outro, tem um prontuário em aberto na área da saúde no Amazonas, escrito quando foi governador, entre 2010 e 2014, com potencial para complicar bastante sua vida.
Na operação Vertex, de 2019, a Polícia Federal deteve três irmãos de Aziz e também sua esposa, sob a suspeita de envolvimento em desvios da ordem de R$ 200 milhões na terceirização da gestão de hospitais públicos, com a participação do senador. Salvo do xadrez pela imunidade parlamentar e negando, obviamente, qualquer culpa, o parlamentar partirá para a próxima disputa ao governo como um personagem cujo público definirá se é o bandido ou o mocinho do filme – ou talvez o vilão arrependido que volta para fazer justiça.
Randolfe Rodrigues, vice-presidente, filiado à Rede Sustentabilidade. Já definido como pré-candidato ao governo do Amapá em 2022 pelo PDT, Randolfe está no meio do mandato e não corre nenhum risco político pessoal se fracassar nessa eleição. Foi o autor do pedido de instauração da CPI da Covid e já é tido, nos grupos de esquerda desconectados do Partido dos Trabalhadores, como o sucessor político da errática Marina Silva, pelo envolvimento mais contundente em questões políticas e, aparentemente, menor compromisso com “companheiros” da legenda em que ambos militavam.
Alvo preferencial dos gabinetes que disseminam notícias falsas, o senador trata a questão como uma condecoração por serviços prestados contra o ódio e a perseguição política. Seu tendão-de-aquiles no andamento da CPI é o risco de desidratar tão vigorosamente o presidente Bolsonaro a ponto de destruir a polarização com Lula e dar viabilidade à terceira via tão ansiosamente procurada pelas grandes empresas de mídia e por boa parte do eleitorado conservador que se decepcionou com Bolsonaro. Ou seja, como na questão das vacinas, o problema de Randolfe seria controlar a dosagem dos ataques a Bolsonaro. Mas, como esse seu interesse coincide com o da maioria dos integrantes da comissão, ele pode espernear à vontade. Há outros senadores prontos para evitar que o caldo transborde.
Renan Calheiros, relator. Não há camaleão com maior figurino do que o do senador alagoano, herdeiro, nesse quesito, das habilidades de um José Sarney ou mesmo de um Antônio Carlos Magalhães. De Fernando Collor a Dilma Rouseff e até Michel Temer, Renan, hoje no MDB, encontrou maneiras de iniciar governos apoiando o eleito e, em casos específicos, terminar traindo a confiança do apoiado. Ensaiou o mesmo caminho com Jair Bolsonaro, mas no momento, com a possibilidade de disputar novamente o governo alagoano sem arriscar a carreira – porque está no meio do atual mandato -, joga no oposição ao desgastado presidente.
Declaro réu por peculato pelo Supremo Tribunal Federal, por algumas entre várias confusões com dinheiro alheio que protagonizou, o senador tem no histórico um caso curioso, mas talvez não tão raro, de terceirização de manutenção de amante e muitas acusações de ligações financeiras escusas com empresas privadas. É também um dos casos emblemáticos de enriquecimento pessoal paralelo à atividade política. No conforto do Senado, terá quatro anos ainda para se reinventar diante do eleitorado alagoano se for rechaçado na eleição de 2022.
Eduardo Braga, do MDB do Amazonas. Outro que está no meio do mandato, como a maioria dos integrantes da CPI. Postula a possibilidade de candidatura ao governo de seu estado no ano que vem, com a possibilidade de confrontar Omar Aziz nessa eleição, e exibe, ao longo da carreira, uma folha de serviços com a marca do contraditório, típica dos integrantes de seu partido. Se foi ministro de Dilma Rousseff na cota partidária do vice Michel Temer e a defendeu caninamente em público, perdeu a votação do impeachment com o habeas corpus de um atestado médico.
Numa situação bastante interessante, Eduardo Braga foi relator da comissão que aprovou a indicação de Kassio Nunes para o STF e não cogitou abrir mão do posto mesmo depois de ampla especulação sobre o fato de que o novo ministro, se aprovado, herdaria no seu rol de casos dois processos que envolvem o senador: um relacionado a caixa de campanhas políticas em 2012, no âmbito da Lava Jato, e outro relacionado a doações da JBS a políticos do MDB em 2014.
Como o barco amazonense de oposição a Bolsonaro na CPI é pequeno para dois integrantes, ele passou uma parte do período de trabalhos flertando com o governo, sob elogios do ministro Ciro Nogueira, e foi até excluído do grupo de WhatsApp de parlamentares mais empenhados no confronto com o presidente. Arrependeu-se depois, mas ainda joga como ambidestro na comissão.
Luis Carlos Heinze, do PP do Rio Grande do Sul. Também já foi lançado como candidato ao governo gaúcho no seu estado e tem uma motivação a mais para esforçar-se para aparecer na CPI: disputa espaço entre bolsonaristas com o ministro de qualquer coisa Onyx Lorenzoni, do DEM. Também pode ter de enfrentar na porfia estadual o atual vice-presidente, Hamilton Mourão, do PRTB. Este, como se sabe, poderá ser qualquer coisa, menos companheiro de chapa de Bolsonaro novamente. Como está no meio do mandato, desfruta antecipadamente de um bom travesseiro em caso de derrota, com a possibilidade de continuar no Senado.
Heinze tornou-se titular da CPI quando Ciro Nogueira ganhou assento no Ministério. Decidiu empunhar a bandeira do tratamento precoce e, com mais entusiasmo do que o próprio presidente, só faltou tomar cloroquina em público para defender suas teses medicamentosas. Corre o risco de aparecer no relatório de Renan como denunciado pela propagação de notícias enganosas, mas tem, entre os gaúchos, o apreço de boa quantidade de prefeitos que também alardearam os benefícios dos remédios inúteis. Apesar do esforço, é quase certo que não terá a retribuição de Bolsonaro se for concorrente de Onyx.
Eduardo Girão, do Podemos cearense. Diante da candidatura ao governo de seu estado do deputado federal capitão Wagner, do Pros, o senador Girão, que ainda tem quatro anos a cumprir no Senado, optou pelo figurino de bolsonarista raiz, que mantém o estilo antinegócios na política que o levou ao mandato. Deverá, assim, estar na janela observando o panorama em 2022, sem desgaste.
Numa simulação antecipada de desembarque das hostes governistas, entregou o senador Flávio Bolsonaro (do Patriota fluminense, suplente da CPI) como organizador de uma viagem a Las Vegas realizada para atender ao lobby do jogo que assedia parlamentares. O diretor da Precisa Medicamentos, Danilo Trento, alvo da CPI, também estava em Las Vegas, tratando do mesmo assunto.
Girão passou, por isso, a ser tratado como infiltrado no bolsonarismo por partidários do presidente. Há alguns dias, prometeu entregar um relatório paralelo para contrapor ao do senador Renan, aparentemente desvinculado do documento que os governistas com chancela oficial estão elaborando. A hipótese de haver três relatórios ao final da CPI é uma daquelas situações políticas que indica mais espuma do que consistência na conclusão dos trabalhos.
Tasso Jereissatti, do PSDB do Ceará. Tucano-açu num cenário multipartidário, o senador entrou na CPI motivado pela manutenção de seu nome à tona no cenário da eleição presidencial de 2022, mas não tem mais a disposição nem a saúde necessárias para uma disputa dessa envergadura. Cardiopata com várias passagens por hospitais, ele admitiu recentemente que não se candidatará nem mesmo ao Senado, no próximo pleito. Trabalha, por enquanto, pela candidatura do PSDB de Eduardo Leite, governador gaúcho. Se este vier a perder a indicação para João Dória, de São Paulo, talvez finalmente abrace uma candidatura de Ciro Gomes, seu ex-afilhado político.
Sua atuação na CPI, por videoconferência, está alinhadíssima com a oposição a Bolsonaro, mas não teve o nome considerado para a composição do G7, como se denomina o grupo de senadores que faz a primeira linha de combatentes da oposição. Participa de encontros virtuais do grupo, aos domingos, como uma espécie de consultor técnico da bancada. É pesado seu histórico de inimizade com Renan Calheiros, que o chamou de cangaceiro no passado.
Otto Alencar, do PSD baiano. Entre os médicos, a ortopedia é muitas vezes chamada de especialidade adotada pelos tigrões da profissão, aqueles que encaram a carreira como um mecânico, um brutamontes. Não há relatos conhecidos de ex-pacientes de Otto acusando-o de insensibilidade, mas como senador ele não deixa dúvida de que o estilo tigrão o agrada sobremaneira. Até processo indenizatório, por danos morais, ele conseguiu com sua atuação na bancada oposicionista, tal a intensidade de suas abordagens e o desrespeito aos depoentes.
Não por acaso, suas perorações fazem lembrar o falecido Antônio Carlos Magalhães, babalorixá da política baiana e iniciador de Otto nos negócios partidários e na disputa de cargos públicos. A contrapartida dos bolsonaristas acontece na mesma proporção: recebeu mais de três dezenas de ameaças de morte desde o início dos trabalhos. Senador com mandato expirando no ano que vem, põe todas as fichas na disputa do governo da Bahia e aposta forte nesse perfil para contrapor-se aos outros candidatos. O senador é referência entre seus pares nas questões de saúde.
Marcos Rogério, do DEM. Ex-radialista e senador de primeiro mandato, aos 43 anos, Marcos Rogério faz na CPI e na carreira política uma aposta de longo prazo. Passou boa parte das sessões reclamando que o objetivo principal da comissão seria investigar o uso de verbas federais nos estados e municípios, o que pouco aconteceu, e protagonizou um episódio que levou à revisão do G7 sobre a importância do depoimento da advogada Bruna Morato contra a Prevent Senior.
Na sua fala, disse que a CPI estava inventando o testemunho por procuração. Passando recibo, Aziz e Renan decidiram depois chamar pelo menos um médico representado pela advogada para acusar o Plano de Saúde e, como bônus, acharam um paciente que sobreviveu ao que foi descrito como uma tentativa de homicídio por parte dos profissionais da operadora. Em seu estado, ainda que cotado para a disputa do governo no ano que vem, enfrenta um cenário bastante confuso. As alianças locais não têm necessariamente relação com o quadro nacional.
Jorginho Mello, do PL catarinense. Aliado incondicional de Bolsonaro, Jorginho Mello topou o jogo do enfretamento com Renan Calheiros até quando o confronto derivou para a troca de desaforos. Ministeriável de plantão, segue na garupa da moto do presidentes desde bem antes da motociata de Florianópolis, realizada em agosto. É candidato certo ao governo estadual e, se perder, como indicam pesquisas que o colocam entre a terceira e a quarta posição, seguirá no Senado por mais quatro anos.
Humberto Costa, do PT de Pernambuco. Médico, jornalista, ministro da Saúde no primeiro governo de Lula e alistado no partido desde 1980, Costa espera consolidar a carreira como governador de Pernambuco, mas tem problemas diante da popularidade da deputada federal Marília Arraes, que foi candidata a prefeita de Recife em 2020. A CPI da Covid foi a oportunidade que Costa encontrou para contrabalançar esse handicap. Daí seu empenho nos interrogatórios de testemunhas, principalmente quando essas tentaram responder às perguntas dos parlamentares.
Apesar do empenho na tentativa de ligar a Prevent Senior diretamente ao Palácio do Planalto, foi uma rara voz de bom senso quando a discussão descambou para críticas ao sistema verticalizado, em que operadoras de saúde tentam obter custos menores controlando redes hospitalares e contratando médicos para atendimento direto a afiliados. Como essa redução tende a ser repassada para beneficiários, a maré parlamentar contra a verticalização atende, na verdade, aos interesses de bancos e gestoras de planos que agem como controladores financeiros que encarecem os planos e dificultam a composição de prontuários de qualidade de seus clientes. Se um usuário de plano de saúde não tem pelo menos uma rede de referência fixa para atendimento, seu histórico médico nunca será confiável.
Os outros. A CPI tem ainda suplentes, como Flávio Bolsonaro, que se encaixou na turma quando Heinze foi promovido para a vaga deixada por Ciro Nogueira entre os titulares, Jáder Barbalho, do MDB paraense, cuja ausência às reuniões deu brilho aos trabalhos, e Marcos do Val, do Podemos do Espírito Santo, que se deixou gravar em vídeo quando se propôs a apadrinhar o empresário Carlos Wizard na cruzada para formar o gabinete paralelo pró tratamento preventivo.
Os outros são Angelo Coronel, do PSD da Bahia, Fernando Bezerra, do PMDB pernambucano, Rogério Carvalho, do PT de Sergipe, e Alessandro Vieira, do Cidadania sergipano. Nota-se facilmente que muito dos confrontos políticos regionais acaba sendo levado para fóruns nacionais desse tipo, mas essa é uma questão que pode ficar para outro momento.