A conversa fiada, e de quinta, do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais

A conversa fiada, e de quinta, do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais

A escolha do dia da semana tem elementos que podem interessar à psicanálise, mas o que interessa são o conteúdo e a tentativa de Bolsonaro de manter conexão direta com uma base cada vez menor e menos ativa.

Hoje, quinta, dia 21, com uma pontualidade não tão rigorosa quanto a que marcava a obrigatória (agora com horário flexibilizado) A Voz do Brasil, Jair Bolsonaro estará novamente diante das câmeras, ao vivo, no YouTube, espalhando perdigotos, mentiras, ódio e irrelevâncias para uma decrescente audiência que se encarrega de replicar as sandices da vez nas redes sociais.

Eleito com quase 58 milhões de votos no segundo turno e determinado a fazer das redes sociais seu canal prioritário de comunicação com a base eleitoral, o ex-capitão raramente consegue amealhar mais de 150 mil visualizações (acumuladas) dos vídeos dessas conversas de quinta em seu canal no YouTube. Quando chega a recordes, como o do milhão de espectadores que viu sua peroração mais inflamada sobre o voto impresso, em julho, não obtém crescimento proporcional de likes para sua fala. Em contrapartida, o aumento das negativações nesse vídeo, em relação à média, é maior do que 600%.

O comportamento da audiência é semelhante quando se trata das mesmas lives na transmissão feita pelo canal Os Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan, que se esmera em adular o presidente e pretende inaugurar, por estes dias, o canal de televisão que dá à direita selvagem brasileira um veículo oficial nas grades de programação – na expectativa, claro, de boa retribuição com verbas de publicidade que hoje não são entregues às emissoras que ousam criticar o despautério governamental.

Vale ressaltar que o desempenho da página de Bolsonaro no Facebook anda na mesma toada, a despeito de ter 14 milhões de seguidores, o que indica uma desmobilização avassaladora. Há, também, uma patinagem evidente na tentativa da família inteira de construir no Telegram uma ampla base ultraconservadora. Jair Bolsonaro criou sua lista em janeiro deste ano e amealhou até agora 1 milhão de fãs – num universo de mais de 100 milhões de instalações do software em telefones celulares no Brasil.

A grande mídia registrou que o presidente é um sucesso no Telegram, mas o Terra Brasil, considerado como canal de maior sucesso do bolsonarismo, tem apenas 8,2 mil inscritos. Quando se propagandeia a quantidade de visitas às páginas dessa e de outras redes sociais, poucos se lembram de quanto os robôs podem contribuir para inflar audiências. Ou seja, essa direita raivosa vem passando, com carimbo próprio, um atestado de seu encolhimento, motivado basicamente pela decepção dos ex-engajados com a gestão de Bolsonaro.

Trata-se, ao fim das contas, de uma notícia que jornais, revistas e sites informativos sérios deveriam celebrar, porque demonstra que a tentativa de conexão direta com os eleitores, sem a mediação do jornalismo que interpreta e analisa a política, não tem, pelo menos por enquanto, fôlego para voos de longa duração. Como numa balança, quando perde peso esse prato da fala direta aos apoiadores, normalmente recheada de notícias falsas, ganha massa o prato do lado oposto, sustentado por informação apurada, checada e confiável – ainda que haja problemas no campo da análise e na tentativa de conduzir a dinâmica política na direção dos interesses dos chamados barões da imprensa.

Essa mídia tradicional gosta de apresentar Bolsonaro como um prodígio construído nas redes sociais. Mas se esquece que foi, na prática, sua própria cobertura complacente e generosa que permitiu a construção do fenômeno. Até 2018 – nunca se poderá esquecer -, o então candidato do PSL foi tratado, primeiro, como uma aberração folclórica e, depois, quando se credenciou para o segundo turno e passou a ser escoltado por uma coalizão direitista, começou a ser apresentado como um possível fantoche do liberalismo e do justicialismo que representavam Paulo Guedes e Sérgio Moro. A análise de risco ficou bem aquém da realidade e o inepto governante revelou-se bem pior do que o jornalismo de grande porte teve coragem de antecipar – embora essa possibilidade fosse pedra cantada por avaliadores independentes.

O refúgio que o presidente buscava e continua buscando nas alternativas à mídia convencional não é nem mesmo uma novidade neste Brasil cuja política tem, nos veículos tradicionais, uma cobertura que, se não é completamente parcial, passa, pelo menos, por um filtro de interesses que não raramente arruína a capacidade de interpretação do cidadão mediano que não tem tempo de buscar diversidade de fontes e entrega sua leitura da realidade a um jornal da televisão raramente combinado com um noticioso impresso ou um site de audiência massiva.

Na ditadura, nem em sonho havia transparência no tráfego de notícias e os poucos jornalistas com acesso a fontes oficiais agiam como traficantes de informação que, garantindo prestígio com público e patrões, numa ponta, se deixavam usar como frigideira ou agentes de negócios, na outra. Só o tempo trará a oportunidade de se saber até onde cada um comprometeu a biografia para manter-se empregado ou que recompensas terá havido para alguns.

Com Sarney, o primeiro presidente da redemocratização, renasceu o sonho getulista, janista ou janguista, tanto faz, da conexão direta, materializado, no caso, no programa Conversa ao Pé do Rádio, fiasco de audiência que se inspirava no pioneirismo radiofônico do americano Franklin Roosevelt.

A razão dessa tentativa foi a mesma que inspiraria, depois, Fernando Henrique Cardoso, com seu curtíssimo Palavra do Presidente, e Lula, que estrelava o Café com o Presidente: é muito mais confortável apresentar um discurso próprio, livre de ruídos e de inconveniências jornalísticas, do que atender regularmente a imprensa, em coletivas ou longas entrevistas. Como se diz agora em toda parte, a prestação de contas por parte dos governantes passou a ser feita com o controle de narrativas nas quais só raramente se consideram as questões mais polêmicas.

Dilma Rousseff, cuja campanha fez o primeiro trajeto efetivo pelo caminho da internet no Brasil, adotaria, por seu lado, a comunicação privilegiada com blogueiros que defendiam seu governo antes mesmo de comportar-se como jornalistas. Bolsonaro, a exemplo de diversos outros políticos mundo afora, levou ao limite essa opção, com um pacote que inclui funcionários encarregados não só de veicular aquilo que interessa ao presidente mas também pagos para produzir material contra os adversários, tratados como inimigos e, nessa condição, vitimados por ondas “informativas” nas quais o que menos interessa é a verdade. O presidente até namorou veículos de mídia de alta penetração, mas a insipiência do conteúdo e a diferença de interesses logo acabaram com a possibilidade de casamento.

Esse comportamento se inspira nos regimes totalitários que controlam completamente a informação e fabricam “notícias” com os elementos, o formato e o objetivo que lhes interessa. O problema, para Bolsonaro, é que o modelo só funciona quando não há o contraditório – representado por uma imprensa que dispõe fartamente de fatos que desmentem a versão que ele gostaria de tornar única. E essa é a razão pela qual a capacidade manipulativa do chamado gabinete do ódio parece, se não próxima do esgotamento, pelo menos em marcha cada vez mais reduzida, a caminho do encolhimento.

É fato que o presidente reuniu em torno de si um rebanho de adeptos fanáticos, cegos diante da realidade e dispostos a sangrar por seu líder. Na medida, porém, em que as bravatas totalitárias não encontram solo fértil de realizações econômicas, principalmente, para continuar florescendo, a capacidade de reprodução do gado vem se reduzindo, como testemunha a audiência congelada nas redes sociais.

A mágica que poderia reverter esse quadro dependeria de características que o bolsonarismo felizmente não desenvolveu, como a verdadeira empatia com as massas ou a competência para produzir manobras econômicas de impactos, ainda que pirotécnicas.

Há, portanto, uma luz no fim do túnel que a conversa fiada das quintas-feiras não parece capaz de reverter. Pena que essa ainda pequena chama de esperança tenha custado tão caro aos brasileiros.

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